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"Então?"

Bond fechou os olhos e esperou a dor. Ele sabia que a pior parte da tortura é o começo. Há uma parábola para a agonia. Um crescendo que leva até um máximo, até que os nervos fiquem embotados e reajam cada vez menos; até a inconsciência e a morte. A única coisa que poderia fazer era rezar para que seu espírito se agüentasse durante todo esse tempo, e depois aceitasse a descida em ponto-morto em direção à escuridão final.

Colegas de Bond que tinham sobrevivido a torturas alemãs e japonesas haviam-lhe contado que, perto do fim, acontecia um período maravilhoso de calor e langor, que culminava numa espécie de crepúsculo sexual, em que a dor se transformava em prazer e onde o ódio e o medo aos torturadores se transformavam num entusiasmo masoquista. Bond aprendera que este era o supremo teste de força de vontade: evitar manifestar esta forma de semi-inconsciência. No momento em que percebessem esta situação, os torturadores tinham dois caminhos a escolher: ou matar a vítima imediatamente para poupar um esforço inútil, ou deixá-la recobrar-se o suficiente para que os nervos voltassem ao outro extremo da parábola. Então começariam tudo de novo.

Bond abriu um pouco os olhos.

Le Chiffre estava esperando por isso e, como uma cascavel, o instrumento de junco pulou do chão. Bateu de novo e outra vez, até que Bond gritou e seu corpo dançou na cadeira como uma marionete.

Le Chiffre só desistiu quando os espasmos torturados de Bond mostraram sinal de moleza total. Então tomou uns goles de café, franzindo a testa levemente, como um cirurgião que observa uma cardiografia durante uma operação delicada.

Quando os olhos de Bond se abriram outra vez, Le Chiffre voltou a falar, mas desta vez com um sinal de impaciência na voz.

"Nós sabemos que o dinheiro está em algum lugar do seu quarto no hotel", disse Ele. "Você Fez um cheque de 40 milhões de francos e eu sei que voltou ao hotel para escondê-lo".

Bond imaginava como Ele poderia ter tanta certeza.

"Logo depois que você foi para a boate", continuou Le Chiffre, "quatro dos meus homens revistaram seu quarto".

Os Muntzes devem ter ajudado bastante, pensou Bond.

"Achamos muita coisa em esconderijos quase infantis. A bóia do banheiro escondia um livro de códigos bastante interessante, e achamos outros papéis igualmente interessantes grudados no fundo de uma gaveta. Toda a mobília foi reduzida a pedaços; cortamos toda a sua roupa, a roupa de cama e as cortinas. Revistamos cada pedacinho de seu quarto; removemos todos os encaixes. Infelizmente para você, não encontramos o cheque. Se isto acontecesse, você estaria agora confortàvelmente deitado em sua cama, talvez com miss Lynd, e não aqui". O batedor chicoteou mais uma vez o corpo de Bond.

Através da nuvem vermelha da dor, Bond pensou em Vésper. Podia imaginar como ela estaria sendo agora utilizada pelos dois pistoleiros. Estariam se aproveitando dela ao máximo, antes de mandá-la para Le Chiffre. Pensou nos lábios grossos c molhados do Corso e na lenta crueldade do homem magro. Coitadinha, ter sido arrastada para uma situação destas! Pobre menininha!

Le Chiffre recomeçara a falar.

"A tortura é uma coisa terrível", dizia Ele, enquanto acendia outro cigarro. "Mas é uma tarefa muito mais fácil para o torturador quando o paciente" — sorriu ao dizer esta palavra — "é um homem. Saiba, meu caro Bond, que com um homem não há a menor necessidade de refinamentos. Com este instrumento simples, ou com quase qualquer outro objeto, pode-se causar a um homem tanta dor quanto for possível ou necessário. Não acredite no que já leu em livros de guerra. Não há nada pior. Não é tanto pela agonia imediata, mas também pelo fato de saber que sua masculinidade está sendo destruída aos poucos e que, no fim, se você não cooperar, não será mais homem".

"Que coisa mais triste e mais horrível, meu caro Bond — uma longa corrente de agonia para o corpo e para a mente, e depois o momento final, em que você implorará aos gritos para que eu o mate. Tudo isto será inevitável, se você não me contar onde escondeu o dinheiro".

Pôs mais um pouco de café no copo e o bebeu, deixando marcas marrons nos cantos dos lábios.

Os lábios de Bond mexeram-se, tentando dizer alguma coisa. Afinal, conseguiu soltar a palavra: "Sede", disse Ele, passando a língua pelos lábios secos.

"Mas claro, meu caro rapaz, que indelicadeza de minha parte!" Le Chiffre pôs um pouco de café no outro copo. No chão, em volta da cadeira de Bond, havia um círculo desenhado pelas gotas de suor que caíam de seu corpo.

"É preciso manter sua língua muito bem lubrificada".

Colocou o batedor no chão e levantou-se. Andou até a parte de trás da cadeira de Bond e puxou com brutalidade sua cabeça para trás pelos cabelos empapados de suor. Derramou o café na garganta de Bond em pequenos goles, para que Ele não engasgasse. Então soltou novamente a cabeça, que caiu para a frente de encontro ao peito. Le Chiffre voltou para a sua cadeira e apanhou o batedor de tapete.

Bond ergueu a cabeça e falou num sussurro.

"Não adianta o dinheiro para você". Falava com dificuldade. "A Polícia o descobrirá".

Exausto com o esforço que fizera para falar, sua cabeça pendeu novamente para a frente. Bond estava exagerando um pouco, apenas um pouco, a gravidade do seu colapso físico.

Qualquer coisa servia para ganhar tempo, qualquer coisa servia para adiar a próxima dor cortante.

"Ah, meu querido amigo, esqueci de contar-lhe". Le Chiffre sorriu animalescamente. "Nós nos encontramos depois daquele nosso joguinho no cassino, e você foi tão camarada que concordou em jogar uma partida a sós comigo, só nós dois. Foi um gesto galante, simpático, típico de um cavalheiro inglês, de um gentleman".

"Infelizmente você perdeu e isso o perturbou tanto que você decidiu deixar Royale imediatamente com destino ignorado. Como um verdadeiro gentleman, deixou-me um bilhete atencioso explicando as circunstâncias para que eu pudesse sem dificuldade alguma sacar seu cheque. Está vendo, meu caro rapaz, como tudo foi resolvido de antemão? Você não precisa preocupar-se comigo". Le Chiffre deu uma risadinha sarcástica.

"E agora, podemos continuar? Estou à sua disposição para o tempo que você quiser e, aqui entre nós, estou bastante interessado em saber quanto tempo um homem consegue suportar esta forma especial de — bem, digamos assim — de encorajamento". Bateu com o junco no chão.

Então era isso, pensou Bond, com um desânimo final no coração. O "destino ignorado" seria debaixo da terra ou no mar, ou ainda, mais simplesmente, sob os destroços do Bentley. Bem, se tinha de morrer mesmo, poderia então tentar fazer com que isto acontecesse da maneira mais difícil possível. Não tinha esperanças de que Mathis ou Leiter chegassem a tempo, mas pelo menos havia uma chance de que eles conseguissem alcançar Le Chiffre, antes que este tivesse tempo de fugir. Deveria ser quase sete horas. O carro já poderia ter sido encontrado. Tinha de escolher entre dois males. Mas, quanto mais tempo durasse a tortura, mais provável seria que Ele fosse vingado.

Bond ergueu a cabeça e olhou fixamente para Le Chiffre. Tinha agora o branco dos olhos cheio de veiazinhas vermelhas . Era o mesmo que olhar para duas frutinhas pretas mergulhadas em sangue. Seu rosto largo parecia pintado de amarelo, exceto nas partes em que sua pele suada estava coberta por uma barba preta e grossa. Os bigodes de café preto nos cantos dos lábios emprestavam à sua expressão um sorriso falso. A luz que filtrava pelas venezianas desenhava uma série de listras no rosto de Bond.

"Não", disse secamente. "Você..."

Le Chiffre soltou um grunhido de ódio e voltou ao trabalho com fúria selvagem. Ocasionalmente, rosnava como uma fera enraivecida.

Dez minutos depois, por sorte, Bond estava completamente desmaiado.