Sentia-se mais seguro na escuridão e se aconchegava a ela.
Na manhã do terceiro dia, um pesadelo sangrento sacudiu-o até acordá-lo, tremendo e transpirando. Associou ao sonho a mão que estava pousada em sua testa. Tentou levantar um braço para esmagar o dono da mão, mas seus braços estavam imobilizados, presos nos lados da cama. Todo seu corpo estava amarrado com tiras de pano e algo semelhante a um enorme caixão branco o cobria desde o peito até os pés, escurecendo sua visão dos pés da cama. Gritou uma série de obscenidades; mas este esforço lhe custou todas as forças, e as palavras se transformaram num soluço. Lágrimas de desespero e de desconsolo transbordaram de seus olhos.
Ouviu então uma voz de mulher, e aos poucos as palavras penetraram dentro dele. Parecia ser uma voz boa e Ele percebeu gradativamente que estava sendo reconfortado, e que a voz era amiga, não inimiga. Quase não acreditou. Estava tão certo de que ainda era um prisioneiro e de que a tortura poderia recomeçar de um momento para outro! Sentiu que passavam suavemente em seu rosto um pano fresco cheirando a alfazema, e então voltou a mergulhar nos sonhos.
Acordou novamente algumas horas depois, e então todos os seus receios haviam desaparecido. Bond sentiu que um certo calor langoroso o dominava. O sol entrava no quarto claro e sons vindos do jardim atravessavam a janela. Ao longe, ouvia-se o barulho das ondas na praia. Quando mexeu a cabeça, ouviu um farfalhar e uma enfermeira que estava sentada ao lado de seu travesseiro levantou-se e entrou em seu campo de visão. Era bonita e, quando pegou o pulso de Bond, sorriu.
"Muito bem. Fico muito contente ao ver que você, finalmente, resolveu acordar mesmo. Nunca ouvi um linguajar tão feio em toda a minha vida".
Bond sorriu para ela.
"Onde estou?" perguntou, e sua voz firme e clara surpreendeu-o.
"Você está num hospital de Royale e eu vim da Inglaterra com uma outra enfermeira para cuidar de você. Meu nome é Gibson. Agora fique quietinho que eu vou dizer ao médico que você acordou. Estávamos muito preocupados, porque você estava inconsciente desde que chegou aqui".
Bond fechou os olhos e mentalmente explorou o corpo. A pior dor era nos pulsos, nos tornozelos e na mão direita, onde o russo o cortara. No centro do corpo não havia sensação alguma. Imaginou que haviam dado uma anestesia local. O resto do corpo latejava, como se Ele tivesse sido inteiramente espancado. Sentiu a pressão do esparadrapo no corpo inteiro. A barba espetava o lençol. Pela sensação que isto provocava, sabia que deveria estar uns três dias no mínimo sem fazer a barba. Ou seja, dois dias desde a manhã da tortura.
Estava pensando na série de perguntas que faria ao médico, quando este entrou no quarto, seguido da enfermeira e da figura querida de Mathis, um Mathis com um ar ansioso escondido atrás de um sorriso largo, que pôs um dedo na ponta dos lábios e andou na ponta dos pés até a janela, onde se sentou.
O médico, um francês de rosto jovem e inteligente, fora afastado de seus deveres no Deuxième Bureau para tratar do caso de Bond. Enquanto examinava a ficha de temperatura, colocou a mão na testa de Bond.
Foi direto ao assunto, quando começou a falar.
"Sei que o senhor tem uma porção de perguntas a fazer, meu caro Mr. Bond", disse em excelente inglês, "e eu posso responder à maioria delas. Mas não quero que desperdice suas forças, por isso contarei ao senhor os fatos principais. Depois, deixarei que fique durante alguns minutos com Monsieur Mathis, que deseja um ou dois esclarecimentos. É realmente um pouco cedo para esta conversa, mas quero deixar sua mente sossegada para que possamos prosseguir no trabalho de reparar seu corpo sem nos preocuparmos muito com sua mente".
A enfermeira Gibson puxou uma cadeira para o médico e saiu do quarto.
"O senhor está aqui há mais ou menos dois dias", continuou o médico. "Seu carro foi encontrado por um agricultor que se dirigia para o mercado de Royale, e Ele o comunicou à Polícia. Demorou um certo tempo até que Monsieur Mathis fosse informado que se tratava de seu carro, e Ele imediatamente partiu para Les Noctambules. Encontraram o senhor, Le Chiffre, e também Miss Lynd, que estava ilesa e que, segundo o que contou, nada sofreu. Estava prostrada com o choque, mas já está completamente restabelecida e se encontra agora no hotel. Recebeu ordens de Londres para permanecer em Royale sob suas ordens, até que o senhor esteja suficientemente recuperado para voltar à Inglaterra.
"Os dois pistoleiros de Le Chiffre estão mortos: uma bala de calibre 35 para cada um deles, bem na nuca. Pela falta de expressão em seus rostos, evidentemente não viram nem ouviram o assassino. Foram encontrados no mesmo quarto que miss Lynd. Le Chiffre está morto, baleado com uma arma igual entre os olhos. O senhor testemunhou a morte dele?"
"Sim", respondeu Bond.
"Os ferimentos que o senhor apresenta são graves, mas sua vida não está em perigo, embora tenha perdido grande quantidade de sangue. Se tudo correr bem, a recuperação será completa e nenhuma das funções de seu corpo ficará prejudicada". O medico deu um sorriso meio triste. "Mas temo que continue a sofrer por mais alguns dias, e minha missão será proporcionar-lhe o maior conforto possível. Agora que recobrou a consciência seus braços serão libertados, mas não deverá mexer o corpo; quando dormir, a enfermeira tem ordens para amarrá-lo novamente. O mais importante é que o senhor descanse e recupere as forças. No momento, ainda está sofrendo as graves conseqüências de um choque físico e mental". O médico Fez uma pausa. "Foi maltratado durante quanto tempo?"
"Cerca de uma hora", respondeu Bond.
"Então é um milagre que ainda esteja vivo. Meus parabéns. Poucos homens suportariam uma coisa dessas. Talvez isto sirva de consolo. O próprio Monsieur Mathis poderá confirmar que tenho tido oportunidade de tratar de inúmeros pacientes que sofreram um tratamento semelhante, e nenhum deles saiu-se tão bem quanto o senhor".
O médico examinou com os olhos a expressão de Bond e voltou-se repentinamente para Mathis.
"Se ficar aqui mais do que dez minutos, será expulso à força. Se a temperatura do paciente aumentar, você será o responsável".
Dirigiu um largo sorriso aos dois e deixou o quarto.
"Gosto dele", disse Bond. "É um bom sujeito".
Mathis aproximou-se e sentou na cadeira do médico.
"Trabalha no Bureau", disse Mathis. "É realmente um bom sujeito e qualquer dia destes eu conto a estória dele para você. Ele acha que você é um prodígio — aliás, eu também acho".
"Mas estas coisas podem esperar. Como você pode imaginar, há muita coisa para ser posta em pratos limpos. Paris está me apertando, Londres também, é claro, e até Washington, através do nosso amigo Leiter. Incidentalmente, tenho um recado especial de M para você. Sabe que Ele falou pessoalmente comigo pelo telefone? Mas pediu simplesmente para dizer a você que Ele está muito impressionado com tudo o que aconteceu. Perguntei se Ele não queria dizer mais nada, e Ele respondeu:
"Bem, diga a ele que o Tesouro suspirou de alívio". Depois, desligou".
Bond sorriu, contente. O que mais lhe causava prazer era saber que M tinha telefonado pessoalmente para Mathis. Nunca fizera isto na vida. Ninguém admitia a existência de M, quanto mais sua identidade. Bond imaginava que este telefonema deveria ter causado um grande reboliço em Londres, dentro de uma organização que leva a segurança tão a sério.
"Um homem alto e magro veio de Londres no mesmo dia em que encontramos você", continuou Mathis, sabendo por experiência própria que estes detalhes sem importância interessariam muito mais a Bond do que qualquer outra coisa e dariam muito prazer a Ele. "Foi Ele que arranjou as enfermeiras e encarregou-se de tudo. Até seu carro está sendo consertado. Parece que é o chefe de Vésper. Passou muito tempo falando com ela e deu instruções estritas para que ela cuide de você".