O chefe da S, pensou Bond. Eles estão realmente me tratando com todas as honras.
"Agora", disse Mathis, "vamos ao que interessa. Quem matou Le Chiffre?"
"Smersh", respondeu Bond.
Mathis soltou um assobio baixinho.
"Meu Deus", exclamou, com o maior respeito. "Então eles já estavam atrás dele. Como era o sujeito?"
Bond explicou rapidamente o que acontecera até o mo mente da morte de Le Chiffre, mas contando só os pormenores essenciais. Custou-lhe um grande esforço contar todas estas coisas e Ele ficou contente quando terminou. O fato de relembrar o que acontecera reavivou o pesadelo por que passara, e o suor começou a jorrar de sua fronte, enquanto uma profunda sensação de dor tomava conta de seu corpo.
Mathis percebeu que tinha ido longe demais. A voz de Bond estava ficando fraca, e sua vista anuviada. Mathis fechou rapidamente o bloco em que estava tomando nota do que Bond dizia e colocou a mão no ombro do amigo.
"Perdão, meu caro", disse Ele. "Agora tudo isso já acabou e você está em boas mãos. Está tudo bem e o seu plano correu esplendidamente bem. Nós anunciamos à imprensa que Le Chiffre matou os dois cúmplices e depois suicidou-se, porque não poderia suportar as conseqüências de uma investigação sobre os fundos do sindicato. Em Estrasburgo e no norte, está a maior confusão, porque Ele era considerado um grande herói, um dos pilares do Partido Comunista francês. Depois, aquela estória de bordéis e cassinos virou a organização de pernas para o ar. Não sei como conseguirão safar-se desta encrenca".
Mathis percebeu que seu entusiasmo já contaminara o amigo- Os olhos de Bond já estavam mais brilhantes.
"Um último mistério", disse Mathis, "e depois prometo que me vou". Consultou o relógio. "Aliás, se não for logo, o doutor me mata... Bem, e o dinheiro? Onde está? Onde você o escondeu? Nós também reviramos seu quarto de cabeça para baixo. Não está lá".
Bond sorriu.
"Está, sim", respondeu. "Isto é, mais ou menos. Na porta de cada quarto, do lado de fora, há um quadrado de plástico preto com o número do quarto pintado. Quando Leiter foi embora, naquela noite, eu simplesmente abri a porta, desaparafusei a plaquinha com o número do meu quarto, coloquei o cheque dobrado embaixo e novamente aparafusei a placa no lugar. Deve estar ainda lá". Sorriu. "Fico muito contente por saber que os estúpidos ingleses ainda têm algo a ensinar aos espertos franceses".
Mathis deu uma gargalhada.
"Tenho a impressão de que, com isso, você acha que se vinga do fato de que fui eu quem descobriu a estória dos Muntzes. Estamos quites. Incidentalmente, nós os prendemos também. Eram uns coitados, empregados só para este trabalho. Mas faremos força para que peguem alguns anos de cadeia".
Mathis levantou-se apressadamente quando o médico irrompeu no quarto para examinar Bond.
"Para fora", disse o médico a Mathis. "Fora. E não me volte mais".
Mathis só teve tempo de acenar para Bond e dizer rapidamente algumas palavras de despedida, antes de ser empurrado pela porta afora. Bond ouviu aquela torrente de palavras em francês diminuindo pelo corredor. Estava exausto, mas contente com tudo o que ouvira. Surpreendeu-se pensando em Vésper, mas logo em seguida caiu num sono agitado.
Algumas perguntas ainda precisavam de resposta, mas podiam esperar.
20- A NATUREZA DO MAL
BOND RECUPERAVA-SE bem. Quando, três dias depois, Mathis veio vê-lo, já se sentava no leito e os braços estavam livres. A parte inferior do corpo ainda estava oculta pela tenda oblonga, mas Ele parecia animado e só uma ou outra vez uma careta de dor lhe apertava os olhos.
Mathis estava de crista caída.
"Aqui está o seu cheque", disse Ele. "Gostei de andar com quarenta milhões de francos no bolso, mas acho melhor que você o assine e eu o deposite na sua conta no Crédit Lyonnais. Não há sinal do nosso amigo da Smersh. Nem traço dele. Deve ter chegado à vila a pé ou de bicicleta, porque nem você nem os pistoleiros o ouviram chegar. É de exasperar. Não conseguimos saber grande coisa dessa organização Smersh, nem Londres tampouco. Washington disse que sabia, mas era só o costumeiro bababá de refugiados, e você sabe que interrogá-los vale tanto quanto interrogar um cidadão inglês qualquer sobre o Serviço Secreto britânico ou um francês sobre o Deuxième".
"Ele provavelmente chegou a Berlim por Varsóvia", disse Bond. "De Berlim eles têm vários caminhos para toda a Europa. Já estará de volta agora, levando um pito por não me haver matado também. Suponho que tenham levantado a minha ficha em virtude de uma ou duas das missões que M me deu a partir da guerra. Naturalmente se supôs muito esperto por deixar a sua inicial na minha mão".
"Como é isso?" perguntou Mathis. "O médico disse que os cortes pareciam um M quadrado com um rabinho em cima. Disse que nada significava".
"Bem, eu só pude dar uma olhadela antes de desmaiar, mas vi os cortes várias vezes durantes os curativos e estou certo de que são a letra russa correspondente a sh. Parece uma letra M invertida, com um rabo. Faz sentido, Smersh é uma abreviatura de smyert shpionam — morte aos espiões — e Ele supôs me haver rotulado como shpion. É chato, porque provavelmente M quererá que eu baixe hospital novamente, quando voltar a Londres, para um enxerto de pele nas costas da mão. Não importa muito. Decidi demitir-me".
Mathis ficou boquiaberto.
"Demitir-se?" perguntou, incrédulo. "Por que diabo... ?"
Bond não olhou para Mathis, fixando as suas mãos envolvidas em bandagens.
"Quando eu estava sendo espancado", disse Ele, "de repente gostei da idéia de viver. Antes de Le Chiffre começar, disse uma coisa que me ficou na mente... "brincando de índio". Ela disse que era o que eu estava fazendo. Bem, de repente pensei que Ele talvez estivesse com a razão".
"Veja", continuou, ainda olhando os curativos, "quando somos jovens parece fácil distinguir entre certo e errado, mas, à medida que crescemos, isso se torna mais difícil. Na escola é fácil escolher heróis e vilões e a gente cresce desejando ser o herói e matar os vilões".
Olhou obstinadamente para Mathis.
"Nos últimos anos matei dois vilões. O primeiro foi em Nova York — um perito decifrador de códigos, japonês, que trabalhava no 36.° andar do edifício da RCA no Rockefeller Center, no Consulado do Japão. Aluguei um quarto no 40.° andar do arranha-céu vizinho e podia vê-lo, do outro lado da rua, trabalhando. Depois consegui um colega da nossa organização em Nova York e um par de Remington 30-30 de mira telescópica e silenciadores. Levamo-los às escondidas para o meu quarto e esperamos a nossa chance durante dias. Ele
atirou no sujeito um -segundo antes de mim. A missão dele era apenas abrir um buraco na vidraça para que eu pudesse atirar no japonês através dele. As vidraças são muito espessas, no Rockefeller Center, para proteger contra o ruído. Tudo correu bem. Como eu esperava, a primeira bala se desviou, por causa da vidraça, e só Deus sabe onde se foi alojar. Mas eu atirei imediatamente depois dele, pelo rombo que abrira. Peguei o japonês na boca, quando se voltava para olhar a vidraça partida".
Bond soltou uma baforada de fumo.
"Foi um trabalho seguro. Bonito e limpo. A trezentas jardas de distância. Nada de contatos pessoais. Da outra vez, em Estocolmo, não foi tão bom. Tive de matar um norueguês que trabalhava contra nós, a favor dos alemães. Ele fizera com que dois dos nossos homens fossem capturados — provavelmente debaixo de pancada, pelo que sei. Por vários motivos deveria ser um trabalho absolutamente silencioso. Escolhi o quarto de dormir do apartamento dele e uma faca. Mas Ele não morreu muito depressa.