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Não falavam muito. Todas as histórias já haviam sido contadas e recontadas, todas as histórias que queriam contar.

E então, esperaram pacientemente. Quando chegou a hora, cada um foi para sua fila, depois voltou ao bangalô. Tomaram rapidamente a sopa. Peter Marlowe ligou a chapa quente elétrica feita por eles, e fritou um ovo. Puseram as suas porções de arroz na vasilha e ele pôs o ovo sobre o arroz, com um pouco de sal e pimenta. Bateu tudo junto, para que a clara e a gema e o arroz ficassem bem misturados, depois dividiu a mistura e todos a comeram com satisfação.

Quando acabaram, Larkin foi lavar os pratos, pois era sua vez, depois voltaram a sentar-se na varanda para esperar a chamada da hora do crepúsculo.

Peter Marlowe estava olhando preguiçosamente para os homens que andavam pela rua, saboreando sua barriga cheia, quando viu Grey se aproximar.

— Boa-noite, Coronel — cumprimentou Grey a Larkin, batendo continência corretamente.

— Boa-noite, Grey — suspirou Larkin. — O que é, agora? — Quando Grey vinha procurá-lo, era sempre sinal de encrenca.

Grey olhou para Peter Marlowe. Larkin e Mac sentiram a hostilidade entre ambos.

— O Coronel Smedly-Taylor pediu-me que lhe avisasse, senhor — disse Grey. — Dois dos seus homens estavam brigando. O Cabo Townsend e o Soldado Gurble. Estão agora na cadeia.

— Muito bem, Tenente — disse Larkin, sombriamente. — Pode soltá-los. Mande que se apresentem a mim, depois da chamada. Vou mostrar-lhes o que e’ bom! — Fez uma pausa. — Sabe por que brigavam?

— Não, senhor. Mas creio que era por causa do duas-para-o-alto. — Joguinho ridículo, pensou Grey. Coloca-se duas moedinhas num pedaço de pau e depois joga-se as duas para o alto e aposta-se como vão cair: duas caras, duas coroas, uma cara e uma coroa.

— É provável que sim — resmungou Larkin.

— Quem sabe o senhor podia proibir o jogo. Sempre há encrenca quando...

— Proibir o duas-para-o-alto — interrompeu Larkin, abruptamente. — Se fizesse isso, diriam que estou maluco. Não iriam respeitar uma ordem ridícula dessas, e com toda a razão. O jogo faz parte da natureza australiana, já devia saber disso. O duas-para-o-alto é um motivo de diversão para os soldados, e brigar de vez em quando também não é mau. — Levantou-se e esticou os ombros, para afastar a malária. — Jogar é como respirar para um australiano. Ora, lá na Austrália todo o mundo faz suas apostazinhas. — A voz dele tinha uma ponta de irritação. — Eu mesmo gosto de um joguinho de duas-para-o-alto, de quando em vez.

— Sim, senhor — disse Grey. Já vira Larkin e outros oficiais australianos com os seus comandados, rolando no pó, tão excitados e soltando tantos palavrões quanto qualquer soldado. Não admira que a disciplina fosse ruim.

— Diga ao Coronel Smedly-Taylor que cuidarei deles. Puta merda!

— Foi uma pena a história do isqueiro de Marlowe, não foi, senhor? — comentou Grey, olhando atentamente para Larkin.

Os olhos de Larkin ficaram firmes, e repentinamente duros.

— Ele devia ter sido mais cuidadoso. Não acha?

— Sim, senhor — respondeu Grey, após uma pausa longa o suficiente para dar seu recado. Bem, pensou, valeu a pena tentar. Pro diabo com Larkin e pro diabo com Marlowe. Há tempo de sobra. Já ia bater continência e sair, quando uma idéia fantástica o sacudiu. Controlou seu entusiasmo e disse, casualmente: — Ah, a propósito, senhor. Está correndo um boato de que um dos australianos tem um anel de diamantes. — Deu um tempo antes de perguntar: — Sabe de alguma coisa?

Os olhos de Larkin fitavam sob sobrancelhas espessas. Lançou um olhar pensativo a Mac antes de responder:

— Também já ouvi os boatos. Ao que me consta, não é um dos meus homens. Por quê?

— Só estou verificando, senhor — disse Grey, com um sorriso duro. — Naturalmente, o senhor sabe que um anel desses pode ser dinamite. Para o seu dono e mais um bocado de gente. — Acrescentou: — Deveria estar bem trancado.

— Não acho, meu velho — disse Peter Marlowe, e o “meu velho” era discretamente maldoso. — Seria a pior coisa a se fazer... se é que o diamante existe. O que eu duvido. Se estiver num lugar conhecido, um monte de rapazes vai querer vê-lo. E os japoneses o afanariam, logo que soubessem de sua existência.

— Concordo — falou Mac, pensativo.

— Está melhor onde está. No limbo. Provavelmente não passa de mais um boato — disse Larkin.

— Espero que sim — disse Grey, agora convencido de que seu palpite estava certo. — Mas o boato parece bem forte.

— Não é um dos meus homens. — A cabeça de Larkin fervia. Grey parecia saber algo... quem seria? Quem?

— Bem, senhor, se souber de alguma coisa, avise-me. — Os olhos de Grey correram Peter Marlowe de alto a baixo, desdenhosamente. — Gosto de impedir as encrencas antes que comecem. — Em seguida, bateu uma continência caprichada para Larkin, fez um sinal de cabeça para Mac, e se afastou.

Houve um silêncio longo e pensativo no bangalô. Depois, Larkin olhou para o Mac.

— Por que será que ele perguntou aquilo?

— É — falou Mac. — Por quê? Viu como a cara dele ficou toda acesa, como um farol?

— Foi mesmo! — confirmou Larkin, os vincos do rosto mais fundos do que de costume. — Grey tem razão quanto a uma coisa. Um diamante pode custar muito sangue a muitos homens.

— É só um boato, Coronel — falou Peter Marlowe. — Ninguém poderia guardar uma coisa dessas, por tanto tempo. Impossível.

— Espero que .tenha razão. — Larkin franziu a testa. — Deus me ajude, que não esteja com nenhum dos meus rapazes.

Mac se espreguiçou. Sua cabeça doía, e podia sentir um acesso de febre a caminho. Bem, ainda ia demorar uns três dias, pensou calmamente. Já tivera tanta febre que ela fazia parte de sua vida, como respirar. Agora, era uma vez a cada dois meses. Lembrava-se que estivera na bica para se reformar em 1942, por ordem médica. Quando a malária chega ao seu baço... bem, então é hora de ir para casa, meu velho, para a velha Escócia, para o clima frio, hora de comprar aquela fazendola perto de Killin, de onde se vê a glória do Lago Tay. E então você pode viver.

— É — comentou Mac, cansado, sentindo o peso dos seus 50 anos. A seguir, falou em voz alta o que todos estavam pensando. — Mas se tivéssemos a danada da pedrinha, poderíamos agüentar o repuxo sem medo do futuro. Sem medo nenhum.

Larkin preparou um cigano e acendeu-o, dando uma boa baforada. Passou-o para Mac, que fumou e passou-o para Peter Marlowe. Quando estavam quase no fim do cigarro, Larkin jogou fora a ponta ardente e colocou os restos do tabaco na sua caixa. Depois, quebrou o silêncio.

— Acho que vou dar uma volta. Peter Marlowe sorriu.

— Salamat — disse, o que significa: “A paz esteja convosco.”

— Salamat — respondeu Larkin, e saiu para o Sol.

Enquanto Grey subia a ladeira que levava à choça da PM, seu cérebro fervia de entusiasmo. Prometeu a si mesmo que logo que chegasse à choça e soltasse os australianos, prepararia um cigarro para comemorar. Era o seu segundo do dia, embora só tivesse fumo javanês bastante para mais três cigarros, até o dia do pagamento, na semana entrante.

Subiu célere os degraus e fez sinal para o Sargento Masters.

— Pode soltá-los!

Masters retirou a pesada trave da porta da jaula de bambu e os dois cabeçudos ficaram em posição de sentido diante de Grey.

— Os dois devem apresentar-se ao Coronel Larkin, depois da chamada. Os homens bateram continência e saíram.

— Malditos arruaceiros — disse Grey, secamente. Sentou-se, pegou sua caixa e os papéis. Fora extravagante, este mês. Comprara uma página inteira da Bíblia, que dava os melhores cigarros. Embora não fosse um homem religioso, ainda assim parecia meio sacrílego fumar a Bíblia. Grey leu as escrituras do fragmento que se preparava para enrolar: “E então Satã” saiu da presença do Senhor e encheu Jó de furúnculos da sola dos pés até o alto da cabeça. E levou-lhe um caco de louça para que os raspasse com ele; e ele se sentou em meio às cinzas. E então sua esposa disse...”