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— Conhecemos.

— Nossa choça fica na parte leste. É uma pequenina. Se tivermos que fugir, fugiremos pela cerca de arame logo ali. Se estiverem na selva, poderão dar-nos cobertura. Como vamos saber se estão em posição?

O chinês deu de ombros novamente.

— Se não estivermos, vocês morrem, de qualquer jeito.

— Poderia dar-nos um sinal?

— Nada de sinal.

Isso é uma loucura, disse o Rei para si mesmo. Não sabemos quando teremos que tentar fugir, e se for uma coisa repentina, não haverá meios de mandar uma mensagem aos guerrilheiros em tempo. Talvez apareceçam, talvez não. Mas se acharem que vão ganhar 5.000 por cabeça para cada um de nós que ajudarem a fugir, pode ser que fiquem de vigia de agora em diante.

— Ficarão de olho no campo?

— Talvez líder dizer sim, talvez não.

— Quem é seu líder?

O chinês deu de ombros e palitou os dentes.

— Negócio fechado, então?

— Pode ser. — Os olhos dele eram hostis. — Acabou?

— Acabei. — O Rei estendeu a mão. — Obrigado.

O chinês olhou para a mão estendida, deu um riso de deboche, e caminhou para a porta.

— Lembre. Apenas dez. Resto matar! — E foi embora.

Bem, vale a pena tentar, tranqüilizou-se o Rei. Esses sacanas estão precisando do dinheiro. E o Tio Sam pagaria. Porra, por que não? Afinal, para que pagamos impostos?

— Tuan — disse Kasseh com ar sério, de pé, à porta. — Não gostar dessa coisa.

— É preciso arriscar. Se houver uma matança repentina, talvez a gente possa escapar. — Piscou para ela. — Vale a tentativa. Estaríamos mortos, de qualquer jeito. Então, tanto faz. Talvez tenhamos uma linha de retirada.

— Por que não fazer trato só para você? Por que não ir com ele agora e fugir do campo?

— Primeiro, é mais seguro no campo do que com os guerrilheiros. Não há por que confiar neles, salvo numa emergência. Segundo, um único homem não vale o trabalho que teriam. Foi por isso que lhe pedi para salvarem trinta. Mas ele disse que só podiam cuidar de dez.

— Como vai escolher dez?

— Contanto que eu esteja no bolo, é cada um por si.

— Talvez seu oficial comandante não goste de só dez.

— Vai gostar, se for um dos que escapar.

— Acha japoneses matar prisioneiros?

— Pode ser. Mas vamos esquecer isso, está bem?

— Esquecer. — Ela sorriu. — Você com calor. Toma chuveiro, sim?

— Sim.

Na parte da choça em que se tomava banho, o Rei jogou baldes d’água sobre o corpo, tirada do poço de concreto. A água estava fria, fazendo-o soltar uma exclamação abafada, e sua pele arder.

— Kasseh!

Ela cruzou as cortinas, trazendo uma toalha. Ficou parada, olhando para ele. É, o seu tuan era um belo homem. Forte e belo e a cor da sua pele era agradável. Wah-lah, pensou, que sorte tenho de ter um homem assim. Mas é tão grande, e eu tão pequenina. É duas cabeças mais alto do que eu.

Apesar disso, sabia que o agradava. É fácil agradar um homem. Quando se é mulher. E não se tem vergonha de ser mulher.

— Do que está sorrindo? — perguntou o Rei, ao ver o sorriso dela.

— Ah, tuan, só pensava, você tão grande e eu tão pequenina. Mas, quando deitamos juntos, não tem muita diferença, não é?

Ele soltou uma risadinha abafada, deu-lhe uma palmada carinhosa na bunda e pegou a toalha.

— Que tal uma bebida?

— Está pronta, tuan.

— O que mais está pronto?

Ela riu com a boca e os olhos. Os dentes eram branquíssimos, os olhos castanho-escuros, a pele macia e cheirosa.

— Quem sabe, tuan? — A seguir, saiu do quarto.

Mas que mulheraço, pensou o Rei, vendo-a afastar-se, enxugando-se vigorosamente. Sou um cara de sorte.

Kasseh fora arranjada por Sutra quando o Rei viera pela primeira vez à aldeia. Os detalhes foram acertados com cuidado. Quando a guerra acabasse, ele teria que pagar a Kasseh 20 dólares americanos por cada vez que ficara com ela. Ele conseguira abater alguns dólares do preço inicialmente pedido — negócio era negócio — mas, a 20 dólares, ela era uma pechincha.

— Como sabe que vou pagar? — perguntara à moça.

— Não sei. Mas se não pagar, não pagou, e tive apenas prazer. Se pagar, então tenho dinheiro e prazer, também. — E sorrira.

Calçou os chinelos nativos que ela deixara para ele, depois atravessou a cortina de contas. Ela estava à sua espera.

Peter Marlowe ainda observava Sutra e Cheng San lá na praia. Cheng San se inclinou e entrou no barco, e Sutra ajudou a empurrar o barco para dentro do mar fosforescente. Depois, Sutra voltou para a choça.

— Tabe-lah! — exclamou Peter Marlowe.

— Quereis comer mais?

— Não, obrigado, Tuan Sutra.

Puxa vida, pensou Peter Marlowe, mas que diferença poder recusar comida. Mas comera o bastante, e comer mais seria indelicado. Era óbvio que a aldeia era pobre, e que a comida não seria desperdiçada.

— Ouvi contar — falou, especulativamente — que as notícias, as notícias da guerra, são boas.

— Foi o que também ouvi, mas nada que um homem possa repetir. Apenas boatos.

— É uma pena que hoje não seja como antigamente, quando um homem podia ter um rádio e ouvir as notícias, ou ler um jornal.

— Verdade. É uma pena.

Sutra não demonstrou ter entendido. Acocorou-se no seu tapete, preparou um cigarro, em forma de funil, e começou a fumar, sugando com força a fumaça.

— Ouvimos contar coisas ruins do campo — disse o velho, finalmente.

— Não é tão ruim, Tuan Sutra. Conseguimos dar um jeito. Mas não saber como anda o mundo, isso sim é ruim.

— Ouvi contar que havia um rádio no campo, e que os donos do rádio foram presos. E que agora estão na cadeia de Utram Road.

— Tendes notícias deles? Um era meu amigo.

— Não. Apenas soubemos que foram levados para lá.

— Gostaria muitíssimo de saber corno estão.

— Conheceis o lugar, e como ficam os homens levados para lá, portanto já sabeis o que é feito.

— Verdade. Mas sempre se espera que alguns tenham sorte.

— Estamos nas mãos de Alá, disse o Profeta.

— Cujo nome seja louvado.

Sutra lançou-lhe outro olhar; depois, tirando baforadas do cigarro, calmamente, perguntou:

— Onde aprendestes o malaio?

Peter Marlowe contou-lhe de sua vida na aldeia. Como trabalhara nos arrozais e vivera como javanês, que e quase a mesma coisa que viver como malaio. Os costumes são os mesmos, a língua a mesma, exceto pelas palavras ocidentais comuns — sem fio, na Malásia, rádio em Java, carro a motor na Malásia, automóvel em Java. Mas o resto era igual. Amor, ódio, doença, e as palavras que um homem diz a um homem, ou um homem a uma mulher, são as mesmas. As coisas importantes são sempre as mesmas.

— Como se chamava a vossa mulher na aldeia, meu filho? — perguntou Sutra. Teria sido indelicado perguntar antes, mas agora que tinham falado das coisas do espírito e do mundo, e de filosofia e de Alá, e tinham citado o Profeta, louvado seja o seu nome, agora não era grosseria perguntar.

— Chamava-se N’ai Jahan.

O velho deu um suspiro satisfeito, recordando sua juventude.

— E ela o amava muito e profundamente.

— Sim. — Peter Marlowe podia vê-la nitidamente.

Viera à sua choça, certa noite, quando ele se preparava para dormir. Usava um sarongue vermelho e dourado, e minúsculas sandálias apareciam sob a bainha. Trazia um colar fino de flores no pescoço, e a fragrância das flores encheu a choça e todo o universo dele.

Colocara sua esteira no chão, e se inclinara profundamente diante dele.

— Meu nome é N’ai Jahan — dissera. — Tuan Abu, meu pai, escolheu-me para partilhar a vossa vida, pois não é bom um homem ficar sozinho. E estais sozinho já faz três meses.

N’ai devia ter uns 14 anos, mas nas terras de sol-e-chuva, uma garota de 14 anos já éuma mulher, com os desejos de uma mulher, e deveria estar casada, ou pelo menos vivendo com o homem escolhido pelo pai.