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Sua pele morena tinha um brilho leitoso e os olhos eram dois topázios, e as mãos eram pétalas de orquídea, e os pés miúdos, e seu corpo de menina-mulher era acetinado e guardava dentro de si a felicidade de um colibri. Era filha do Sol e filha da chuva. O nariz era esguio e bem-feito, as narinas delicadas.

N’ai era toda cetim, cetim líquido. Firme onde devia ser firme. Macia onde devia ser macia. Forte onde devia ser forte. E fraca onde devia ser fraca.

O cabelo era negro, longo, uma rede delicada para cobri-la.

Peter Marlowe sorrira para ela. Tentara ocultar seu embaraço, e ser como ela, livre e feliz, e não ter vergonha. Ela despira o sarongue e ficara orgulhosamente diante dele, e dissera:

— Rezo para que seja digna de fazer-vos feliz e fazer-vos dormir-macio. E suplico-vos que me ensineis todas as coisas que vossa mulher precisa saber para vos fazer “próximo a Deus”.

Próximo a Deus, que maravilha, pensou Peter Marlowe; que maravilha descrever o amor como sendo próximo a Deus. Ergueu os olhos para Sutra.

— Sim. Amamo-nos muito e longamente. Agradeço a Alá ter vivido e amado até a eternidade. Como são gloriosos os caminhos de Alá. Uma nuvem se estendeu e lutou com a Lua pela posse da noite.

— É bom ser homem — disse Peter Marlowe.

— A vossa falta vos incomoda esta noite?

— Não. Verdade. Não esta noite. — Peter Marlowe examinou o velho malaio, gostando dele pela oferta, feita com tanta gentileza. — Ouça, Tuan Sutra. Vou abrir minha mente para vós, pois acredito, que com o tempo, poderíamos ser amigos. Com o tempo, poderíeis avaliar a minha amizade e o meu “eu”. Mas a guerra é uma assassina do tempo. Portanto, vou falar-vos como a um amigo, o que ainda não sou.

O velho não deu resposta. Continuou fumando e esperando que o outro prosseguisse.

— Preciso de uma pequena parte de um rádio. Existe algum rádio na aldeia, mesmo velho? Quem sabe, se estiver quebrado, eu poderia tirar uma pecinha dele.

— Sabeis que os rádios são proibidos pelos japoneses.

— Verdade, mas, às vezes, existem lugares secretos para esconder aquilo que é proibido.

Sutra refletiu. Havia um rádio na sua choça. Quem sabe Alá havia enviado Tuan Marlowe para tirá-lo de lá. Achava que podia confiar nele, porque Tuan Abu já o havia feito, antes dele. Mas se Tuan Marlowe fosse pegado do lado de fora do campo com o rádio, inevitavelmente a aldeia seria envolvida.

Deixar o rádio na aldeia também era perigoso. Claro que um homem poderia enterrá-lo bem fundo, na selva, mas isso não fora feito. Devia ter sido feito, mas não fora feito, pois a tentação de escutar era sempre grande demais. A tentação das mulheres de escutar música era grande demais. A tentação de saber quando os outros não sabiam, era grande. Em verdade, está escrito: Vaidade, tudo é vaidade.

Melhor, decidiu ele, deixar as coisas que são do homem rosado permanecerem com o homem rosado.

Levantou-se e fez sinal para Peter Marlowe e foi mostrando o caminho, atravessando a cortina de contas até os lugares mais escuros da choça. Parou diante da porta do quarto de Sulina. Estava deitada na cama, com o sarongue desamarrado e amplo à volta do corpo, os olhos cristalinos.

— Sulina — falou Sutra — vá para a varanda vigiar.

— Sim, Pai. — Sulina saltou da cama e amarrou o sarongue e ajustou o bolero. Ajustou-o, na opinião de Sutra, um pouquinho demais, deixando bem nítida a promessa dos seios. É, está mesmo na hora de a garota se casar. Mas com quem? Não há homens casadouros.

Afastou-se para deixar a garota passar, de olhos baixos e recatados. Mas nada havia de recatado no requebro dos quadris, e Peter Marlowe também o notou. Devia dar-lhe uma surra, pensou Sutra, mas sabia que não devia ficar zangado com ela. Não passava de uma mocinha no limiar da vida adulta. Ser tentadora faz parte do jeito da mulher... ser desejada faz parte da necessidade da mulher.

Talvez devesse dar-vos ao inglês. Quem sabe isso diminuiria o vosso apetite. Ele parece homem bastante para tanto! Sutra soltou um suspiro. Ah, se pudesse ser jovem de novo!

Tirou o pequeno rádio de sob a cama.

— Vou confiar em vós. Este rádio é bom. Funciona bem. Podeis levá-lo. Peter Marlowe quase o deixou cair, de tão excitado.

— Mas, e quanto a vós? Certamente, este rádio não tem preço.

— Não tem preço. Levai-o convosco.

Peter Marlowe virou o rádio. Era um receptor principal, em boas condições. O fundo foi removido e os tubos rebrilhavam à luz do lampião. Havia muitos condensadores. Muitos. Trouxe o aparelho mais para perto da luz e examinou com cuidado as suas entranhas, centímetro por centímetro.

O suor começou a escorrer do seu rosto. E então descobriu o que queria, 300 microfarádios.

Agora, o que vou fazer?, perguntou-se. Será que levo só o condensador? Mac falou que estava quase certo. Melhor levar o aparelho inteiro, e se o condensador não se adaptar ao nosso, teremos outro. Daremos um jeito de escondê-lo num canto qualquer. Vai ser bom ter um sobressalente.

— Agradeço-vos, Tuan Sutra. Não dá para eu vos agradecer o bastante por este presente. Eu sou os milhares de Changi.

— Suplico-vos que nos protejais. Se um guarda vos vir, enterrai-o na selva. Minha aldeia está nas vossas mãos.

— Nada temais. Eu a protegerei com a minha vida.

— Acredito em vós. Mas talvez seja uma tolice fazer isso.

— Há vezes, Tuan Sutra, em que creio verdadeiramente que os homens não passam de tolos.

— Tendes uma sabedoria que ultrapassa a vossa idade.

Sutra deu-lhe um pedaço de pano para envolver o rádio, depois voltaram para a sala principal. Sulina estava nas sombras da varanda. Quando entraram, ela se levantou.

— Quereis um pouco de comida ou bebida, Pai?

Wah-lah, pensou Sutra rabugentamente, pergunta a mim, mas refere-se a ele.

— Não. Ide para a cama.

Sulina fez um meneio atrevido de cabeça, mas obedeceu.

— Acho que minha filha merece uma surra.

— Seria uma pena marcar uma coisinha tão delicada — falou Peter Marlowe. — Tuan Abu costumava dizer: “Batei na mulher pelo menos uma vez por semana, e tereis paz na vossa casa. Mas nato batais com muita força, para não deixá-la com raiva, pois então ela na certa vos baterá também, e muito vos magoará!”

— Conheço o ditado. É bem verdadeiro. As mulheres são incompreensíveis.

Falaram de muitas coisas, acocorados na varanda, fitando as águas. O mar estava manso, e Peter Marlowe pediu permissão para ir nadar.

— Não há correnteza — disse o velho malaio — mas, às vezes, há tubarões.

— Tomarei cuidado.

— Nadai apenas nas sombras, junto aos barcos. Às vezes os japoneses caminham pela praia. Há um embasamento de canhão a uns cinco quilômetros daqui. Mantende os olhos abertos.

— Tomarei cuidado.

Peter Marlowe ateve-se às sombras enquanto corria para os barcos. A Lua baixava no céu. Não há muito tempo, pensou.

Junto aos barcos alguns homens e mulheres preparavam e consertavam redes, conversando e rindo entre si. Não prestaram atenção a Peter Marlowe, quando este se despiu e entrou no mar.

A água estava quente, mas com bolsões frios, como em todos os mares orientais, e achou um e tentou ficar nele. A sensação de liberdade era gloriosa, e era quase como se fosse de novo um garotinho tomando um banho de mar noturno no Atlântico com o pai por perto, gritando: “Não vá muito longe, Peter! Olhe a correnteza!”

Nadou por baixo d’água e sua pele bebeu o sal do mar. Quando veio à tona, cuspiu água como uma baleia, e nadou preguiçosamente para a parte rasa, onde ficou deitado de costas, lavado pelas ondas, gozando sua liberdade.

Enquanto sacudia as pernas nas ondas que rodopiavam na sua virilha, deu-se conta, de repente, que estava completamente nu, e que havia homens e mulheres a 20 metros de distância dali. Mas não se sentiu constrangido.