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A nudez se tornara um modo de vida no campo. E os meses passados na aldeia javanesa lhe haviam ensinado que não havia vergonha nenhuma em ser um ente humano, com desejos e necessidades.

O calor sensual do mar brincando com ele, e o calor pesado da comida dentro do seu corpo, despertaram um fogo súbito no seu sexo. Virou-se abruptamente de barriga para baixo e voltou para dentro do mar, escondendo-se.

Ficou de pé no fundo do mar, com água até o pescoço, e olhou para a praia e para a aldeia. Os homens e mulheres ainda estavam consertando as redes. Podia ver Sutra na varanda da choça, fumando na sombra. Mais para o lado, viu Sulina, iluminada pela luz do lampião, encostada na moldura da janela. Segurava o sarongue frouxamente contra o corpo e olhava para o mar.

Sabia que estava olhando para ele, e imaginou, envergonhado, se tinha visto. Observava-a, e ela o observava. Então, viu quando ela tirou o sarongue e pegou uma toalha limpa e branca para secar o suor que cintilava no seu corpo.

Era filha do Sol e filha da chuva. 0 cabelo longo e escuro escondia a maior parte do seu corpo, mas ela o moveu até que lhe acariciasse as costas, e começou a trançá-lo. E o tempo todo o fitava, sorrindo.

E então, subitamente, cada vibração da correnteza era uma carícia, cada toque da brisa uma carícia, cada fio de alga uma carícia... dedos de cortesãs, matreiros, com séculos de experiência.

Vou possuí-la, Sulina.

Vou possuí-la, custe o que custar.

Tentou fazer com que Sutra saísse da varanda, com a força do seu pensamento. Sulina observava. E esperava. Tão impaciente quanto ele.

Vou possuí-la, Sutra. Não me impeça! Não o faça. Ou juro por Deus...

Não viu o Rei se acercando das sombras, nem o notou deter-se, surpreso ao vê-lo deitado de barriga para baixo, na parte rasa da praia.

— Ei, Peter. Peter!

Ouvindo a voz em meio à névoa, Peter Marlowe virou a cabeça devagar e viu o Rei chamando-o.

— Vamos indo, Peter. Está na hora de a gente se mandar.

Ao ver o Rei, lembrou-se do campo, da cerca, do rádio, do diamante, do campo, da guerra, do campo, do rádio e do guarda por quem tinham que passar, e será que voltariam a tempo e quais seriam as novidades e como Mac ficaria feliz com os 300 microfarádios e o rádio sobressalente que funcionava. A ereção desapareceu. Mas a dor continuou.

Levantou-se e foi-se vestir.

— Mas você é cara de pau — falou o Rei.

— Porquê?

— Andar por aí deste jeito. Não está vendo a filha do Sutra espiando você?

— Já viu muitos homens sem roupa, e não há nada de mau nisso. — Sem ereção, não havia nudez.

— Às vezes, não o entendo. Cadê o seu recato?

— Perdeu-se há muito tempo. — Vestiu-se depressa e reuniu-se ao Rei nas sombras. Seu sexo doía violentamente. — Ainda bem que chegou na hora em que chegou. Obrigado.

— Porquê?

— Por nada.

— Estava com medo que o tivesse esquecido?

— Não. — Peter Marlowe sacudiu a cabeça. — Deixe pra lá. Mas obrigado. O Rei o fitou, depois deu de ombros.

— Vamos. Dá para a gente ir fácil, agora. — Seguiu na frente, passando pela choça de Sutra, e acenou. — Salamat.

— Espere, Rajá. Não demoro nada!

Peter Marlowe subiu correndo a escada e entrou na choça. O rádio ainda estava lá. Com ele debaixo do braço, embrulhado no pedaço de pano, inclinou-se diante de Sutra.

— Agradeço-vos. Está em boas mãos.

— Ide com Deus. — Sutra hesitou, depois sorriu. — Protegei vossos olhos, meu filho. Senão, quando houver alimento para eles, não podereis comer.

— Lembrar-me-ei. — Peter Marlowe sentiu o rosto quente. Será que as histórias são verdadeiras, que os idosos podem ler os pensamentos, de tempos em tempos. — Agradeço-vos. A paz esteja convosco.

— A paz esteja convosco até nosso próximo encontro.

Peter Marlowe virou-se e saiu. Sulina estava à janela, quando passaram por seu quarto. Estava coberta pelo sarongue, agora. Seus olhos se encontraram e um acordo foi feito e selado. Ficou olhando enquanto os dois homens subiam a inclinação, disfarçadamente, na direção da selva, e enviou-lhes mentalmente votos de uma viagem segura até que desapareceram.

Sutra suspirou, depois entrou silenciosamente no quarto de Sulina, que estava à janela sonhadoramente, com o sarongue enrolado nos ombros. Sutra trazia um bambu fino nas mãos e deu-lhe uma vergastada seca e forte, mas não forte demais, nas nádegas nuas.

— Isso é por terdes tentado o inglês quando não mandei que o tentásseis — falou, esperando parecer muito zangado.

— Sim, Pai — choramingou ela, e cada soluço seu era uma facada no coração dele. Mas, quando ficou sozinha, enroscou-se gostosamente no colchão e deixou as lágrimas correrem um pouco, curtindo-as. E o calor se espalhou por seu corpo, ajudado pela ardência da vergastada.

Quando estavam a cerca de quilômetro e meio do campo, o Rei e Peter Marlowe derarn uma paradinha para respirar. Foi então que o Rei notou, pela primeira vez, o pequeno volume enrolado no pano.

Estivera andando na frente, e tão concentrado no sucesso da noite de trabalho, e tão alerta a qualquer possível perigo na escuridão, que ainda não o tinha notado.

— O que tem aí? Uma comidinha extra?

Ficou vendo Peter Marlowe abrir um sorriso e orgulhosamente desembrulhar o volume.

— Surpresa!

O coração do Rei falhou seis batidas.

— Ora, seu maldito filho da puta! Está louco varrido?

— O que há? — indagou Peter Marlowe, estupefato.

— Está maluco? Isso vai-nos causar mais problemas do que dá para imaginar. Não tem o direito de arriscar nossos pescoços por causa de uma bosta de um rádio. Não tem o direito de usar os meus contatos para fazer os seus malditos negócios.

Peter Marlowe sentiu-se oprimido pela escuridão, enquanto fitava o Rei, incrédulo. Depois, falou:

— Não fiz por mal...

— Ora, seu maldito filho da puta! — vociferou o Rei. — Os rádios são veneno.

— Mas não há nenhum no campo...

— Não diga. Trate de livrar-se desta porra neste instante. E tem mais. Estamos acabados. Você e eu. Não tem o direito de me envolver num troço sem o meu conhecimento. Deveria enchê-lo de porrada!

— Experimente. — Agora Peter Marlowe estava raivoso e belicoso, tão belicoso quanto o Rei. — Parece esquecer que estamos em guerra, e que não há rádio no campo. Um dos motivos por que vim, foi que tinha esperanças de poder obter Um condensador. Mas agora tenho um rádio inteiro... que funciona.

— Livre-se dele!

— Não.

Os dois homens se defrontaram, tensos e inflexíveis. Por uma fração de segundo, o Rei esteve pronto para cortar Peter Marlowe em pedaços.

Mas o Rei sabia que a raiva não ajudava, quando se tinha que tomar uma decisão importante, e agora que tinha superado o nauseante choque inicial, podia ser crítico e analisar a situação.

Primeiro, tinha que admitir que, embora fosse um mau negócio arriscar tanto, o risco fora bem-sucedido. Se Sutra não estivesse disposto a dar o rádio a Peter Marlowe, teria dito: “Qual, não há nenhum rádio por aqui”, e mudado de assunto. Portanto, nenhum mal fora feito. E fora um negócio particular entre Pete e Sutra, porque Cheng San já tinha ido embora.

Segundo, um rádio cuja existência conhecia, e que não estava na sua choça, seria utilíssimo. Poderia estar sempre por dentro da situação, e saberia a hora exata de tentar sua fuga. Portanto, afinal de contas, nenhum mal fora feito... exceto que Peter passara dos limites de sua autoridade. Bem, vejamos: se você confia num sujeito, e o contrata, está contratando sua inteligência. Não há vantagem em se ter ao lado um cara que só obedece ordens e fica para-dão. E Peter fora espetacular durante as negociações. Se e quando houvesse a fuga, bem, Peter estaria na equipe. Seria preciso um cara que falasse a língua local. É, e Peter não tinha medo. Portanto, o Rei já sabia que seria uma loucura atacá-lo mesmo antes que sua mente lhe disesse para aproveitar comercialmente a nova situação. De fato, tinha dado um chilique, como um garotinho de dois anos.