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— Pete. — Notou o queixo retesado de Peter Marlowe, como num desafio. Será que eu agüento com o filho da puta. Claro. Sou mais pesado do que ele uns 20... talvez 35 quilos.

— O que é?

— Desculpe ter estourado com você. O rádio é uma boa idéia.

— Como?

— Acabei de pedir desculpas. É uma ótima idéia.

— Não o entendo — disse Peter Marlowe, desanimado. — Num minuto parece um maluco, no seguinte está dizendo que é uma boa idéia.

O Rei gostava desse filho da puta. Tinha garra.

— É que, os rádios me dão nos nervos, não há futuro neles. — Deu uma risadinha suave. — Não têm valor de revenda.

— Não está mais cheio de mim?

— Porra, claro que não. Somos amigos do peito. — Deu-lhe um soquinho de brincadeira. — Só fiquei chateado porque você não me contou. Isso não foi legal.

— Sinto muito. Tem razão. Peço desculpas. Foi uma coisa ridícula e injusta. Puxa, não quero colocá-lo em situação difícil, de jeito algum. Sinto muito, de verdade.

— Aperte os ossos. Desculpe o estouro. Mas, da próxima vez, avise-me antes de fazer qualquer coisa.

Peter Marlowe apertou a mão do Rei.

— Palavra de honra.

— Para mim, chega. — Graças a Deus, tudo estava em paz agora. — Então, que diabo quer dizer com condensador?

Peter Marlowe contou-lhe sobre os três cantis.

— Portanto, só o que Mac precisa é de um condensador, certo?

— Disse que acha que sim.

— Sabe o que acho? Acho que seria melhor só tirar o condensador e largar o rádio. Enterrá-lo aqui. Estaria seguro. Então, se o seu não funcionar, a gente pode voltar e buscá-lo. Mac poderia pôr o condensador de volta com toda a facilidade. Esconder este rádio no campo ia ser uma dureza, e ia ser uma tentação dos diabos tê-lo à mão para ligar, não é?

— É. — Peter Marlowe olhou de modo penetrante para o Rei. — Voltará comigo para pegá-lo?

— Claro.

— Se... por qualquer motivo... eu não puder voltar, você voltaria para pegá-lo? Se Mac ou Larkin lhe pedissem?

O Rei pensou por um momento.

— Claro.

— Dá sua palavra?

— Sim. — O Rei sorriu. — Dá um bocado de importância a essa história de “palavra”, não é, Peter?

— De que outro modo se pode julgar um homem!

Peter Marlowe levou apenas um momento, para arrebentar os dois fios que ligavam o condensador às entranhas do rádio. Mais um minuto, e o rádio estava envolto no pano protetor, e um buraco pequeno fora aberto no chão da selva. Puseram uma pedra chata no fundo do buraco, depois cobriram o rádio com uma boa quantidade de folhas, puseram a terra de volta, alisando-a bem, depois puxaram um tronco de árvore para marcar o local. Duas semanas na umidade da tumba acabariam com a utilidade do rádio, mas duas semanas era tempo de sobra para vir buscá-lo, caso os cantis ainda não funcionassem.

Peter Marlowe enxugou o suor do corpo, pois uma súbita camada de calor pousara sobre eles, e o cheiro de suor deixara alucinadas as nuvens crescentes de insetos à sua volta.

— Malditos insetos! — Levantou os olhos para o céu, calculando a hora, um tanto nervosamente. — Não acha que está na hora de irmos andando?

— Ainda não. São só 4:15. A melhor hora para nós é logo antes do alvorecer. Se esperarmos mais uns dez minutos, estaremos em posição com tempo de sobra. — Abriu um sorriso. — Da primeira vez que atravessei a cerca também fiquei ansioso e com medo. Quando voltei, tive que ficar esperando junto da cerca. Tive que esperar meia hora, ou mais, até o caminho ficar desimpedido. Jesus! Suei frio! — Abanou as mãos, afastando os insetos. — Malditos insetos.

Ficaram sentados durante algum tempo, escutando õ movimento constante da floresta. Fileiras de vaga-lumes formavam retalhos brilhantes nas pequenas poças de chuva ao lado do caminho.

— Igualzinho à Broadway à noite — falou o Rei.

— Vi um filme chamado Times Square. História sobre jornais. Deixe ver. Acho que era com o Cagney.

— Não me lembro desse. Mas a Broadway tem que ser vista pessoalmente. É como se fosse de dia, no meio da noite. Cartazes imensos a gás neon e luzes por todo o canto.

— É lá que você mora? Em Nova York?

— Não. Estive lá umas duas vezes. Já estive em toda a parte.

— Onde mora?

— Meu pai não tem pouso certo — respondeu o Rei, dando de ombros.

— No que ele trabalha?

— Boa pergunta. Um pouco nisso, um pouco naquilo. Vive bêbado, a maior parte do tempo.

— Ah! Deve ser uma dureza.

— É duro para um garoto.

— Tem mais família?

— Minha mãe morreu, quando eu tinha três anos. Não tenho irmãs nem irmãos. Meu pai me criou. É um vagabundo, mas me ensinou muitas coisas sobre a vida. Número um, a pobreza é uma doença. Número dois, o dinheiro é tudo. Número três, não importa como você o obtenha, contanto que o obtenha.

— Sabe, nunca pensei muito em dinheiro. Suponho que, nas Forças Armadas... bem, sempre há um cheque mensal de pagamento, sempre há um certo padrão de vida, portanto o dinheiro não conta muito.

— Quanto seu pai ganha?

— Não sei ao certo. Suponho que umas seiscentas libras por ano.

— Jesus. É só dois mil e quatrocentos dólares. Ora, eu ganho mil e trezentos como Cabo. Pois sim, quem iria trabalhar por esse salário de nada!

— Talvez seja diferente nos Estados Unidos. Mas na Inglaterra, dá para se viver direitinho. Claro que nosso carro é bem antigo, mas isso não tem importância, e quando você se reforma, recebe uma aposentadoria.

— De quanto?

— Cerca de metade do soldo.

— Para mim, isso não é nada. Não entendo por que as pessoas entram para as Forças Armadas. Talvez porque sejam um fracasso como gente.

O Rei viu o corpo de Peter Marlowe enrijecer ligeiramente.

— Claro — acrescentou, rapidamente — não me estou referindo à Inglaterra. Falava dos Estados Unidos.

— A vida militar é boa... para um homem. Dinheiro suficiente... uma vida emocionante em todas as partes do mundo. A vida social é boa. Além disso, bem, um oficial sempre tem muito prestígio. — Peter Marlowe acrescentou, quase como se pedisse desculpas. — Sabe, a tradição, e tudo o mais.

— Vai continuar a ser militar depois da guerra?

— Claro.

— Na minha opinião — falou o Rei, pautando os dentes com uma lasquinha de casca de árvore — é fácil demais. Não vejo emoção nem futuro em receber ordens de uns tipos que são, na maioria, uns vagabundos. Pelo menos, é o que me parece. E que diabo, não lhe pagam nada. Ora, Pete, você deveria dar uma olhada nos Estados Unidos. Não há nada igual no mundo. Lugar nenhum. Cada um por si, e cada um é tão bom quanto o vizinho. E só o que você tem que fazer é descobrir um macete e se tornar melhor do que o vizinho. Isso é que é emocionante.

— Não acho que me adaptaria. Sei que não sou um cara talhado para ganhar dinheiro. Estarei melhor fazendo o que nasci para fazer.

— Bobagem. Só porque o seu velho é militar...

— Isso vem desde 1720. De pai para filho. É um bocado de tradição para tentar combater.

O Rei resmungou.

— É tempo pra burro! — Depois, acrescentou: — Só sei do meu pai e do pai dele. Antes disso... nada. Pelo menos, parece que meu pessoal veio do velho mundo lá por volta de 1880.

— Da Inglaterra?

— Porra, não. Acho que da Alemanha. Ou quem sabe da Europa Central. Quem está ligando? Sou americano, e é só isso que conta.

— Os Marlowes são militares, e fim de papo.

— Porra, não é não. A escolha é sua. Olhe só para você, agora. Está numa boa porque usa a cuca. Seria um grande negociante, se quisesse. Sabe falar como um nativo, certo? Preciso de sua cuca. Estou pagando por ela... e deixe de bancar o ofendido. É o estilo americano. A gente paga por aquilo que usa. Não tem nada a ver com nossa amizade. Nada. Se não lhe pagasse, eu seria um safado.