— Está errado. A gente não precisa ser pago para ajudar um pouco.
— Porra, mas como está precisando aprender as coisas! Gostaria de levá-lo para os Estados Unidos, para ser caixeiro viajante. Com este sotaque inglês fajuto iria deixar as mulheres malucas. Faturaria adoidado. Daríamos roupas íntimas femininas para você vender.
— Santo Deus. — Peter sorriu com ele, mas havia um toque de horror no sorriso. — Mais fácil eu voar do que tentar vender alguma coisa.
— Mas você voa.
— Quero dizer, sem avião.
— Claro, estava brincando. O Rei olhou para o relógio.
— O tempo passa devagar, quando a gente está esperando.
— Há horas que acho que nunca vamos sair desse buraco fedorento.
— Qual é, o Tio Sam está botando os amarelos para correr. Não vai demorar muito. E se demorar, qual é o galho? Estamos numa boa, meu chapa. É só o que importa. — O Rei olhou para o relógio. — Melhor a gente dar no pé.
— Como?
— Ir andando.
— Oh! — Peter Marlowe se levantou. — Vá em frente, Macduff! — exclamou, feliz.
— Hem?
— Só um ditado. Quer dizer “Vamos dar no pé”.
Felizes porque eram amigos de novo, entraram selva adentro. Cruzar a estrada foi fácil. Agora que haviam passado a área patrulhada pelo guarda errante, seguiram uma trilha curta e logo estavam a uns 400 metros da cerca. O Rei ia na frente, calmo e confiante. Somente as nuvens de vaga-lumes e mosquitos tornavam desagradável a caminhada.
— Jesus. Mas os insetos estão uma coisa!
— É. Por minha vontade, fritava-os todos — sussurrou Peter Marlowe.
Foi então que viram a baioneta apontando para eles, e pararam de chofre.
O japonês estava sentado, encostado a uma árvore, de olhos fixos neles, um sorriso assustador distendendo as suas feições, e com o fuzil apoiado nos joelhos.
Os pensamentos deles foram idênticos: Santo Cristo! Utram Road! Estou morto. Matar!
O Rei foi o primeiro a reagir. Saltou sobre o guarda e arrancou-lhe o fuzil com baioneta, rolando para longe dele, depois pôs-se de pé, erguendo alto o cano do fuzil para enfiá-lo na cara do homem. Peter Marlowe já mergulhava para agarrar o guarda pela garganta. Um sexto sentido alertou-o, e suas mãos em forma de garra desviaram-se da garganta, e ele foi de encontro à árvore.
— Afaste-se dele! — Peter Marlowe se pôs de pé, agarrou o Rei e arrastou-o de lá.
O guarda não se mexera. Exibia no rosto o mesmo sorriso malévolo, de olhos arregalados.
— Mas que diabo! — exclamou o Rei, ofegante, em pânico, com o fuzil ainda erguido sobre a cabeça.
— Saia daí! Depressa, pelo amor de Deus! — Peter Marlowe arrancou o fuzil das mãos do Rei, e jogou-o ao lado do japonês morto. Foi então que o Rei viu a cobra no colo do homem.
— Meu Deus — falou o americano com voz rouca, acercando-se para olhar mais de perto. Peter Marlowe agarrou-o, desesperadamente.
— Saia daí! Fuja, pelo amor de Deus!
Desatou a correr, para longe das árvores, metendo-se pela vegetação rasteira, atabalhoadamente. O Rei corria atrás dele, e só pararam quando chegaram à clareira.
— Ficou maluco? — O Rei fez uma careta, com o peito doendo. — Era só uma bosta de uma cobra!
— Era uma cobra-voadora — explicou Peter Marlowe, com a respiração dificultosa. — Vivem nas árvores. Morte instantânea, meu velho. Elas sobem nas árvores, depois achatam os corpos e descem em espiral para o chão, caindo sobre as vítimas. Havia uma no colo e outra debaixo dele. Era certo haver mais delas, porque estão sempre em ninhadas.
— Santo Deus!
— Na verdade, meu velho, devemos estar agradecidos àquelas nojentas — falou Peter Marlowe, tentando acalmar a respiração. — Aquele amarelo ainda estava quente. Não estava morto há mais de dois minutos. Ele nos teria pegado, se não fosse pelas cobras. E devemos agradecer a Deus por nossa discussão. Foi ela que deu tempo para as cobras agirem. Jamais estaremos tão perto do desastre! Da morte! Jamais!
— Nunca mais quero ver um japonês dos infernos com uma baioneta dos infernos apontando para mim no meio da noite outra vez. Vamos. É melhor sairmos daqui.
Quando chegaram perto da cerca, acomodaram-se para esperar. Ainda não podiam dar sua corrida para a cerca. Gente demais por lá. Sempre havia gente andando a esmo, zumbis andando pelo campo, os insones e os quase adormecidos.
Era bom descansar, e ambos sentiam os joelhos trêmulos e estavam gratos por se acharem novamente vivos.
Puxa, mas que noite, pensou o Rei. Se não fosse pelo Pete, eu tinha ido para o beleléu. Ia botar o pé no colo do japonês enquanto arriava o fuzil na cara dele. Meu pé estava a 15 centímetros do colo. Cobras! Odeio cobras! Filhas da puta! E enquanto o Rei se acalmava, o apreço que sentia por Peter Marlowe aumentava.
— Essa foi a segunda vez que salvou meu pescoço — murmurou.
— Foi você que chegou no fuzil primeiro. Se o japonês não estivesse morto, você o teria matado. Eu fui lento.
— Ei, mas eu estava na frente. — O Rei se deteve, depois sorriu. — Ei, Peter, fazemos uma bela dupla. Com a sua pinta e a minha inteligência, até que nos saímos bem.
Peter Marlowe começou a rir. Tentou parar, e rolou pelo chão. O riso abafado e as lágrimas que escorriam por seu rosto contagiaram o Rei, que também se contorceu de rir. Finalmente, Peter Marlowe falou, com voz entre-cortada:
— Pelo amor de Deus, cale a boca.
— Foi você quem começou.
— Eu, não.
— Claro que foi, você disse, disse... — Mas o Rei não conseguia continuar. Enxugou as lágrimas. — Viu aquele japonês? O filho da puta estava sentado feito uma besta...
— Olhe!
O riso deles sumiu.
Do outro lado da cerca, Grey passeava pelo campo. Viram quando parou diante da choça americana. Viram-no esperar nas sombras, depois olhar para o outro lado da cerca, quase que diretamente para eles.
— Acha que ele sabe? — sussurrou Peter Marlowe.
— Não sei. Mas a gente não pode arriscar-se a entrar durante algum tempo, de jeito nenhum. Vamos esperar.
Esperaram. O céu começou a clarear. Grey permaneceu nas sombras, olhando para a choça americana, depois correndo os olhos pelo campo. O Rei sabia que, de onde se encontrava, Grey podia ver sua cama. Sabia que Grey podia ver que não se encontrava nela. Mas as cobertas estavam dobradas, e ele podia estar andando pelo campo, juntamente com os outros insones. Não havia lei que proibisse a gente de não ficar na cama. Mas ande logo, se mande daí, Grey, porra.
— Teremos que sair logo daqui — disse o Rei. — A luz está contra nós.
— Que tal em algum outro lugar?
— Ele consegue enxergar toda a cerca, até lá o canto.
— Acha que alguém abriu o bico?
— Pode ser. Quem sabe seria só uma coincidência. — O Rei mordeu o lábio, com raiva.
— Que tal a área das latrinas?
— Arriscado demais.
Esperaram. Depois, viram Grey olhar mais uma vez sobre a cerca, na direção deles, e em seguida se afastar. Ficaram olhando para ele até que dobrou o muro da cadeia.
— Pode ser golpe — disse o Rei. — Espere mais uns dois minutos.
Os segundos eram como horas, enquanto o céu clareava e as sombras começavam a se dissolver. Agora não havia ninguém perto da cerca, ninguém à vista.
— É agora ou nunca, vamos.
Correram para a cerca; em questão de segundos passavam por baixo dela e caiam na vala.
— Vá para a choça, Rajá. Eu espero.
— Certo.
Apesar do seu tamanho, o Rei se movia com leveza, e percorreu rapidamente a distância que o separava de sua choça. Peter Marlowe saiu da vala. Algo lhe disse para sentar na beirada, olhando sobre a cerca para fora do campo. E então, com o canto dos olhos, viu Grey dobrar a esquina e parar. Soube imediatamente que fora visto.