Выбрать главу

— Marlowe.

— Oh, alô, Grey. Também não está conseguindo dormir? — perguntou, espreguiçando-se.

— Há quanto tempo está aqui?

— Alguns minutos. Cansei de andar, então me sentei.

— Onde está o seu amigo?

— Quem?

— O americano — falou Grey, com escárnio.

— Não sei. Imagino que dormindo.

Grey olhou para o seu traje à moda chinesa. A túnica estava rasgada nos ombros, e molhada de suor. Havia lama e pedaços de folhas em sua barriga e joelhos. Uma risca de lama no rosto.

— Como ficou tão sujo? E por que está suando tanto? O que andou aprontando?

— Estou sujo porque... não há nenhum mal num pouco de sujeira honesta. Na verdade — disse Peter Marlowe, enquanto se levantava e passava a mão nos joelhos e nos fundilhos — não há nada como um pouco de sujeira para fazer um homem se sentir limpo quando toma banho. E estou suando porque você está suando. Sabe, os trópicos... o calor, e tudo o mais!

— O que tem no bolso?

— Só porque você é um boboca desconfiado isso não quer dizer que todo o mundo esteja carregando contrabando. Não há lei que proíba uma pessoa de andar pelo campo, se não puder dormir.

— É verdade — replicou Grey — mas há uma lei que proíbe andar do lado de fora do campo.

Peter Marlowe olhou para ele com ar de indiferença, sem se sentir nem um pouco indiferente, tentando perceber que diabo Grey queria dizer com aquilo. Será que sabia?

— Só mesmo um idiota tentaria uma coisa dessas.

— É verdade. — Grey olhou para ele longa e duramente. Depois, girou nos calcanhares e se afastou.

Peter Marlowe ficou olhando enquanto ele se afastava. A seguir, virou-se e caminhou na direção oposta, sem olhar para a choça americana. Naquele dia, Mac deveria sair do hospital. Peter Marlowe sorriu, pensando no presente de boas-vindas que esperava Mac.

Da segurança de sua cama, o Rei viu Peter Marlowe se afastar. A seguir, fitou Grey, o inimigo, ereto e malévolo à luz crescente do dia.

Magro feito um esqueleto, calça esfarrapada, toscos tamancos nativos, sem camisa, braçadeira, boina puída. Um raio de Sol brilhou sobre o emblema da Divisão Blindada na boina, transformando-o de nada em ouro derretido.

O quanto você sabe, Grey, seu filho da puta?, perguntou-se o Rei.

LIVRO TRÊS15

Passava um pouquinho do alvorecer.

Peter Marlowe estava no seu beliche, semi-adormecido.

Será que foi um sonho?, perguntou-se, subitamente desperto. A seguir, seus dedos cautelosos tocaram o pedacinho de trapo que escondia o condensador, e soube que não era sonho.

Ewart retorceu-se no beliche superior, e acordou gemendo.

— ‘Mahlu para a noite — falou, jogando as pernas para fora do leito. Peter Marlowe lembrou-se de que era a vez de sua unidade trabalhar nas fossas. Saiu da choça e foi cutucar Larkin para acordá-lo.

— Hem? Oh, Peter — disse Larkin, largando o sono com esforço. — O que há?

Era difícil para Peter não soltar logo a novidade do condensador, mas queria esperar até Mac também estar presente, portanto falou apenas:

— Trabalho nas fossas, meu velho.

— Puta merda! Outra vez? — Larkin esticou as costas doloridas, amarrou o sarongue e calçou os tamancos.

Foram pegar a rede e a lata de 20 litros 6 caminharam pelo campo, que começava a acordar. Quando chegaram à área das latrinas, não prestaram atenção nos ocupantes, nem estes lhes prestaram atenção.

Larkin levantou a tampa de uma das fossas, Peter Marlowe rapidamente raspou os lados com a rede. Quando tirou a rede do buraco, veio cheia de baratas. Sacudiu a rede dentro da lata, e raspou de novo. Outra bela redada.

Larkin recolocou a tampa, e passaram para o buraco seguinte.

— Segure direito isso aí — falou Peter Marlowe. — Olhe só o que fez! Perdi pelo menos umas 100.

— Há muitas mais — comentou Larkin, enojado, segurando com mais firmeza a lata.

O cheiro era muito ruim, mas a colheita era rica. Logo a lata ficou abarrotada. A menor das baratas media quase quatro centímetros. Larkin tampou bem a lata, e se dirigiram para o hospital.

— Não é a minha idéia de uma dieta regular — comentou Peter Marlowe.

— Você as comeu mesmo em Java, Peter?

— Claro. E você também as comeu, aqui em Changi. Larkin quase deixou cair a lata.

— O quê?

— Não acha que eu iria dar aos médicos a dica de uma iguaria nativa e fonte de proteínas e não me aproveitar dela para nós, ach??

— Mas tínhamos um pacto! — berrou Larkin. — Concordamos, nós três, que não cozinharíamos nada exótico sem primeiro contar ao outro.

— Contei ao Mac, e ele concordou.

— Mas eu não, porra!

— Ora, qual é, Coronel! Tivemos que pegá-las e cozinhá-las em segredo, e escutar você dizer como o preparado estava gostoso. Sentimos tanto nojo quanto você.

— Bem, da próxima vez quero saber. É uma ordem, porra!

— Sim, senhor! — Peter Marlowe deu uma risada abafada. Entregaram a lata na cozinha do hospital. A minúscula cozinha especial que fazia a comida para os que estavam desesperadamente doentes.

Quando voltaram ao bangalô, Mac estava á espera deles. A sua pele estava cinza-amarelada, os olhos injetados e as mãos trêmulas, mas a febre já passara. Podia sorrir de novo.

— Que bom tê-lo de volta, meu cupincha — disse Larkin, sentando-se.

— É.

Peter Marlowe apanhou, displicentemente, a tirinha de pano.

— Ah, a propósito — falou, com indiferença estudada — isso pode ser útil, qualquer hora dessas.

Mac desembrulhou o pano, sem interesse.

— Puta merda! — exclamou Larkin.

— Porra, Peter — falou Mac, com os dedos trêmulos — está querendo que eu tenha um ataque do coração?

Peter Marlowe manteve a voz tão inexpressiva quanto a fisionomia, saboreando imensamente o entusiasmo dele.

— Não há por que ficar tão perturbado por uma bobagem. — E depois não conseguiu mais conter o sorriso. Riu de orelha a orelha.

— Você e a sua maldita sobriedade britânica. — Larkin tentava bancar o azedo, mas também sorria abertamente. — Onde arranjou isso, camarada?

Peter Marlowe deu de ombros.

— Pergunta cretina. Desculpe, Peter — falou Larkin.

Peter Marlowe sabia que jamais lhe perguntariam aquilo de novo. Era muito melhor que não soubessem da aldeia.

Já escurecia.

Larkin estava de vigia. Peter Marlowe estava de vigia. Oculto sob o mos-quiteiro, Mac juntou 6 condensador. Depois, sem conseguir esperar mais, fazendo uma prece, meteu o fio de conexão na fonte de eletricidade. Suando, escutou no único fone de ouvido.

Uma espera agonizante. Estava quente, sob o mosquiteiro, e as paredes e o chão de concreto armazenavam o calor do Sol que desaparecia. Um mosquito zunia raivosamente. Mac praguejou mas não tentou achá-lo ou matá-lo, pois de repente escutou a estática no fone.

Seus dedos tensos, molhados do suor que escorria braços abaixo, escorregaram na chave de parafusos. Enxugou-os. Delicadamente, encontrou o parafuso que girava o sintonizador e começou a torcer suave, muito suavemente. Estática. Só estática. E então, de repente, ouviu a música. Era um disco de Glenn Miller.

A música cessou, e um locutor disse:

— Aqui fala Calcutá. Continuamos o recital de Glenn Miller com o seu disco Moonlight Serenade.

Pelo vão da porta, Mac podia ver Larkin agachado nas sombras, e para além deles homens que cruzavam o corredor entre as filas de bangalôs de cimento. Teve vontade de sair gritando “Ei, rapazes, querem ouvir as notícias daqui a pouco? Estou sintonizado com Calcutá!”

Mac escutou por mais um minuto, depois desligou o rádio e botou com cuidado os cantis nos seus envoltórios de feltro verde-acinzentado e deixou-os descuidadamente sobre as camas. Haveria um noticiário de Calcutá às dez horas, e assim, para poupar tempo, Mac escondeu o fio e o fone de ouvido sob o colchão, ao invés de escondê-los no terceiro cantil.