Estivera curvado sob o mosquiteiro por tanto tempo que deu um jeito nas costas, e gemeu quando ficou de pé.
Larkin volveu o olhar para ele, de sua posição lá fora.
— O que há, meu camarada? Não consegue dormir?
— Não, meu rapaz — disse Mac, vindo agachar-se ao lado dele.
— Devia ir com calma, é o primeiro dia depois que saiu do hospital. — Larkin não precisou que lhe dissessem que o rádio funcionara. Os olhos de Mac brilhavam de entusiasmo. Larkin deu-lhe um soco de mentirinha. — Você é um cara legal, seu velho sacana.
— Onde está o Peter? — perguntou Mac, sabendo que estava de vigia junto aos chuveiros.
— Está ali. O cretinão está só sentado. Olhe para ele.
— Ei, ‘mahlu sanai — chamou Mac.
Peter Marlowe já sabia que Mac tinha acabado, mas se levantou e veio para junto deles e disse:
— ‘Mahlu sendris. — Isso queria dizer ‘‘‘mahlu você mesmo”. Também ele não precisou que lhe contassem.
— Que tal um joguinho de bridge? — perguntou Mac.
— Quem é o quarto?
— Ei, Gavin — chamou Larkin. — Quer ser o quarto?
O Major Gavin Ross levantou-se da cadeira, arrastando as pernas. Apoian-do-se numa muleta, veio vindo bem devagar do bangalô vizinho. Ficou grato pelo convite para o jogo. As noites eram sempre ruins. Tão desnecessária, a paralisia. No passado um homem, agora um nada. Pernas inúteis. Cadeira de rodas para o resto da vida.
Fora atingido na cabeça por uma lasquinha de granada, pouco antes da rendição de Cingapura.
— Não há com que se preocupar — disseram os médicos. — Podemos retirá-la tão logo você possa ir para um hospital adequado, com o equipamento adequado. Temos tempo de sobra.
Mas nunca houve um hospital adequado, com o equipamento adequado, e o tempo se esgotou.
— Deus — disse, dolorosamente, ajeitando-se no chão de cimento. Mac jogou-lhe uma almofada.
— Tome, meu velho!
Levou um momento para Gavin se acomodar, enquanto Peter Marlowe pegava as cartas e Larkin ajeitava o espaço entre eles. Gavin levantou a perna esquerda e tirou-a do caminho, dobrando-a, depois de soltar o fio de arame que prendia a ponta do seu sapato à tira que envolvia a perna, bem sob o joelho. A seguir, tirou a outra perna, igualmente paralisada, do caminho, e recostou-se na almofada apoiada à parede.
— Agora está melhor — falou, alisando o bigode à Kaiser Wilhelm com um movimento rápido e nervoso.
— Como vão as dores de cabeça? — perguntou Larkin, automaticamente.
— Não muito ruins, meu velho — Gavin replicou, do mesmo modo automático. — Você é o meu parceiro?
— Não. Pode jogar com o Peter.
— Essa não, o cara sempre trunfa o meu ás.
— Foi só uma vez — disse Peter Marlowe.
— Uma vez por noite — disse Mac, rindo e começando a dar as cartas.
— ‘Mahlu.
— Duas espadas — abriu Larkin, com um floreio. Continuaram a apostar, furiosa e veementemente.
Mais para o fim da noite, Larkin bateu à porta de um dos bangalôs.
— Sim? — perguntou Smedly-Taylor, espiando para dentro da noite.
— Desculpe incomodá-lo, senhor.
— Oh, alô, Larkin. Encrenca? — Era sempre encrenca. Ficou imaginando o que os australianos andaram aprontando, dessa vez, enquanto se levantava da cama, todo dolorido.
— Não, senhor. — Larkin certificou-se de que ninguém podia ouvi-lo. Suas palavras eram calmas e deliberadas. — Os russos estão a sessenta quilômetros de Berlim. Manila foi libertada. Os ianques desembarcaram em Corregidor e Iwo Jima.
— Tem certeza, homem?
— Sim, senhor.
— Quem... — Smedly-Taylor se interrompeu. — Não. Não quero saber de nada. Sente-se, Coronel — falou suavemente. — Está absolutamente certo?
— Sim, senhor.
— Posso apenas lhe dizer, Coronel — falou o homem mais velho, com voz monótona e solene — que nada posso fazer para ajudar quem quer que seja pegado com... que seja pegado. — Não queria nem pronunciar a palavra rádio. — Não quero saber nada sobre isso. — A sombra de um sorriso perpassou pelo rosto de granito, suavizando-o. — Peço apenas que o protejam com a própria vida, e me contem imediatamente ao ouvirem qualquer coisa.
— Sim, senhor. Pretendemos...
— Não quero saber de nada. Apenas das notícias. — Com ar triste, Smedly-Taylor tocou o ombro dele. — Lamento.
— É mais seguro, senhor. — Larkin ficou contente porque o Coronel não quis saber do plano deles. Haviam decidido que cada um só contaria a duas pessoas. Larkin contaria a Smedly-Taylor e a Gavin Ross; Mac contaria ao Major Tooley e ao Tenente Bosley, amigos pessoais seus; e Peter contaria ao Rei e ao Padre Donovan, o capelão católico. Cada um deles deveria passar a notícia adiante a duas pessoas de sua confiança, e assim por diante. Era um bom plano, pensou Larkin. Corretamente, Peter não quisera contar de onde viera o condensador. Um bom rapaz, aquele Peter.
Bem mais tarde, quando Peter Marlowe voltou à sua choça, depois de ter ido ver o Rei, Ewart estava totalmente desperto. Enfiou a cabeça para fora do mosquiteiro e sussurrou, todo excitado:
— Peter. Já soube da novidade?
— Que novidade?
— Os russos estão a sessenta quilômetros de Berlim. Os ianques desembarcaram em Iwo Jima e Corregidor.
Peter Marlowe sentiu o terror íntimo. Ó, meu Deus, já?
— Boatos, Ewart. Uma besteirada.
— Não é, não. Peter. Há um rádio novo no campo. É pra valer, não é boato. Não é formidável? Santo Deus, esqueci do melhor. Os ianques libertaram Manila. Agora não demora muito, não é?
— Só acredito vendo. — Talvez devêssemos ter dito apenas a Smedly-Taylor, e a mais ninguém, pensou Peter Marlowe, enquanto se deitava. Se Ewart tem conhecimento, não se sabe o que esperar.
Nervosamente, prestou atenção aos ruídos do campo. Quase se podia sentir a excitação crescente de Changi. O campo sabia que estava mantendo contato de novo.
Yoshima suava de medo, em posição de sentido diante do General enfurecido.
— Seu idiota estúpido e incompetente — dizia o General.
Yoshima se preparou para o golpe que vinha, e veio, uma bofetada na cara.
— Ache aquele rádio ou será rebaixado a soldado. Sua transferência está cancelada. Está dispensado.
Yoshima bateu continência, corretamente, e sua reverência foi um modelo de humildade. Deixou os aposentos do General, grato por não lhe ter acontecido mais nada. Amaldiçoados sejam aqueles prisioneiros peçonhentos.
No quartel, enfileirou seu pessoal e esbravejou com eles, e esbofetou-os até a mão lhe doer. Por sua vez, os sargentos esbofetearam os cabos e estes os soldados e os soldados os coreanos. As ordens eram bem claras: “Descubram esse rádio, caso contrário...”
Durante cinco dias nada aconteceu. A seguir, os carcereiros caíram em cima do campo e quase o destroçaram. Mas nada descobriram. O traidor que havia no campo não sabia ainda onde se encontrava o rádio. Nada aconteceu, exceto que o prometido retorno às rações normais foi cancelado. O campo se acomodou para esperar a passagem dos dias compridos, que ainda ficavam mais compridos pela falta de comida. Mas sabiam que, pelo menos, teriam notícias. Não boatos, mas notícias. E estas eram muito boas. A guerra na Europa estava quase acabada.
Mesmo assim, os homens andavam abatidos. Poucos tinham estoques re-serva de alimentos. E as boas notícias tinham seu lado ruim. Se a guerra acabasse na Europa, mais tropas seriam enviadas para o Pacífico. Eventualmente, o próprio Japão seria atacado. E tal ataque endoideceria seus carcereiros. Represálias! Todos sabiam que só havia um fim para Changi.
Peter Marlowe dirigia-se para a área dos galinheiros, com o cantil pendurado no quadril. Mac, Larkin e ele tinham concordado que talvez fosse mais seguro carregar os cantis o máximo que fosse possível. Para o caso de haver uma revista repentina.