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Estava de bom humor. Embora o dinheiro que ganhara já tivesse sido gasto há muito tempo, o Rei adiantara comida e fumo por conta dos ganhos futuros. Deus, mas que homem, pensou. Se não fosse por ele, Mac, Larkin e eu estaríamos tão esfomeados quanto o resto de Changi.

O dia estava mais fresco. A chuva da véspera não deixara a poeira levantar. Estava quase na hora do almoço. Ao se acercar dos galinheiros, estugou o passo. Quem sabe vou encontrar alguns ovos, hoje. E então parou, perplexo.

Perto do cerrado que pertencia à unidade de Peter Marlowe, havia uma pequena multidão, uma multidão irada e violenta. Viu, com surpresa, que Grey estava lá. Diante de Grey achava-se o Coronel Foster, vestindo apenas uma tanga imunda, dando pulos para cima e para baixo, feito um maníaco, xingando incoerentemente Johnny Hawkins, que agarrava ao peito, protetoramente, seu cão.

— Oi, Max — falou Peter Marlowe, ao se acercar do galinheiro do Rei. — O que houve?

— Oi, Pete — respondeu Max naturalmente, mudando de posição o ancinho que tinha nas mãos. Notou a reação instintiva de Peter Marlowe ao “Pete”. Oficiais! A gente tenta tratar um oficial como um cara legal, chamando-o pelo nome, e ele fica danado. Eles que vão para o diabo. — É, Pete. — Repetiu de novo, só para sentir o gostinho. — Deu o maior rolo, uma hora atrás. Parece que o cachorro do Hawkins entrou no galinheiro do Tarado e matou uma das galinhas dele.

— Oh, não!

— Vão dar-lhe a cabeça do bicho, pode ter certeza. Foster berrava:

— Quero outra galinha, e quero cobrar os danos. O monstro matou uma das minhas filhas. Quero que seja acusado de assassinato.

— Mas, Coronel — dizia Grey, já no limite de sua paciência — foi uma galinha, não uma criança. Não se pode acusar de...

— Minhas galinhas são minhas filhas, idiota! Galinha, criança, que diferença faz? Hawkins é um assassino sujo. Um assassino, está me ouvindo”!

— Olhe, Coronel — disse Grey, iradamente. — Hawkins não lhe pode dar outra galinha. Já disse que sente muito. O cão se soltou da correia e...

— Quero uma corte marcial. Hawkins, o assassino, e sua fera, uma assassina. — A boca do Coronel Foster espumava. — Aquela maldita fera matou e comeu minha galinha. Comeu-a, e agora só restam penas de uma das minhas filhas.

Rosnando, lançou-se subitalmente sobre Hawkins, mãos estendidas, dedos como garras, arranhando o cão nos braços de Hawkins, e berrando:

— Mato você e sua fera maldita!

Hawkins desviou-se de Foster e empurrou-o. O Coronel caiu ao chio, e Rover ganiu de medo.

— Já pedi desculpas — falou Hawkins, corri voz abafada. — Se tivesse dinheiro, daria com prazer duas, dez galinhas para você, mas não posso! Grey — Hawkins virou-se desesperadamente para ele — pelo amor de Deus, faça alguma coisa!

— Mas que diabo posso fazer? — Grey estava cansado, com raiva e com disenteria. — Sabe que não posso fazer nada. Terei que relatar o que houve. Mas é melhor livrar-se desse cachorro.

— O que quer dizer?

— Santo Deus — falou Grey, furioso — quero dizer livre-se dele. Mate-o. Se não puder, arranje alguém para fazê-lo. Mas, por Deus, não quero esse cão aqui no campo quando escurecer.

— É o meu cão. Não pode mandar que...

— Não posso, porra nenhuma! — Grey tentou controlar os músculos do estômago. Gostava de Hawkins, sempre gostara, mas isso agora nada significava. — Conhece as regras. Foi avisado de que deveria mantê-lo na correia, e longe desta zona. Rover matou e comeu a galinha. Há testemunhas do fato.

O Coronel Foster levantou-se do chão, os olhos sinistros e vidrados.

— Vou matá-lo — sibilava. — Tenho o direito de matá-lo. Olho por olho. Grey postou-se diante de Foster, que se preparava para novo ataque.

— Coronel Foster. Esse assunto será devidamente relatado. O Capitão Hawkins já recebeu ordens para destruir o cão...

Foster não parecia escutar o que Grey dizia.

— Quero aquela fera. Vou matá-la. Como matou minha galinha. É minha. Vou matá-la. — Começou a se arrastar para diante, salivando. — Como ela matou minha filha.

Grey estendeu a mão espalmada.

— Não! Hawkins vai destruir o animal.

— Coronel Foster — dizia Hawkins, abjetamente. — Suplico-lhe, por favor, por favor, aceite minhas desculpas. Deixe-me ficar com o cachorro, isso nunca mais vai acontecer.

— Não vai mesmo. — O Coronel Foster ria feito louco. — Está morto, e é meu. — Arremessou-se para frente, mas Hawkins se afastou, e Grey agarrou o braço do Coronel.

— Pare com isso — berrou Grey — ou mando prendê-lo! Isso não é maneira de um oficial superior se portar. Afaste-se de Hawkins. Afaste-se.

Foster soltou-se de Grey. A voz dele mal passava de um murmúrio, enquanto falava diretamente para riawkins.

— Vou ajustar contas com você, assassino. Vou ajustar contas com você. — Voltou para seu galinheiro, para seu lar, o lugar onde morava e dormia e comia com as filhas, as galinhas. Grey virou-se para Hawkins.

— Lamento, Hawkins, mas tem que se livrar dele.

— Grey — implorava Hawkins — por favor, revogue a ordem. Por favor, eu lhe suplico. Farei qualquer coisa, qualquer coisa.

— Não posso. — Grey não tinha alternativa. — Sabe que não posso, Hawkins, meu velho. Não posso. Livre-se dele. E depressa.

Girou nos calcanhares e afastou-se.

O rosto de Hawkins estava molhado de lágrimas, com o cão aninhado nos braços. Foi então que viu Peter Marlowe.

— Peter, ajude-me, pelo amor de Deus.

— Não posso. Lamento, mas não há nada que eu, ou qualquer um possa fazer.

Desolado, Hawkins olhou à sua volta, para os homens silenciosos. Chorava abertamente, agora. Os homens se afastaram, pois nada havia que pudesse ser feito. Se um homem tivesse morto uma galinha, bem, seria quase a mesma coisa, talvez a mesma coisa. Um momento doloroso, depois Hawkins fugiu soluçando, com Rover ainda nos braços.

— Pobre coitado — comentou Peter Marlowe com Max.

— É, mas graças a Deus não foi uma das galinhas do Rei. Puxa, eu estaria frito. — Max trancou o galinheiro e fez um aceno de cabeça para Peter Marlowe, ao partir.

Max gostava de cuidar das galinhas. Nada como um ovinho extra, de quando em vez. E não há risco quando a gente suga o ovo rapidamente e esmigalha a casca e a coloca junto com a comida das galinhas. Não há pistas, desse modo. E as cascas fazem bem às galinhas. E que diabo, o que é um ovo uma vez ou outra, surripiado do Rei? Contanto que haja ao menos um por dia para o Rei, não dá galho. Porra, não dá! Max estava realmente feliz. Durante uma semana inteirinha ia cuidar das galinhas.

Mais tarde, depois do almoço, Peter Marlowe estava descansando no seu beliche.

— Com licença, senhor.

Peter Marlowe ergueu os olhos e deparou com Dino, de pé ao lado do beliche.

— Sim? — Correu os olhos pela choça e sentiu uma pontada de embaraço.

— Hã, posso falar-lhe, senhor? — O “senhor” soava impertinente, como de costume. Por que será que os americanos não podem dizer “senhor” para que soe normal? — pensou Peter Marlowe. Levantou-se e saiu com Dino. Acompanhou-o até o centro da pequena clareira entre as choças.

— Ouça, Pete — falou Dino, com urgência. — O Rei quer vê-lo. E disse que trouxesse Mac e Larkin.

— O que aconteceu?

— Apenas falou que os trouxesse. Devem encontrar-se com ele dentro da cadeia, na Cela Cinqüenta e Quatro, no quarto andar, dentro de meia hora.

Não era permitida a entrada de oficiais na cadeia. Ordens japonesas, que a polícia do campo fazia cumprir. Deus. Que coisa arriscada.

— Foi só isso que disse?

— É, foi só. Cela Cinqüenta e Quatro, quarto andar, em meia hora. Até logo. Pete.

Mas o que estará acontecendo, perguntava-se Peter Marlowe. Apressou-se a ir contar a Larkin e Mac.

— O que acha, Mac?

— Bem, meu rapaz — disse Mac, cautelosamente — não creio que o Rei nos mandasse chamar, aos três, sem uma explicação, a não ser que fosse importante.