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— E essa história de entrar na cadeia?

— Se formos apanhados — disse Larkin — é melhor termos uma desculpa preparada. Grey com certeza vai saber e desconfiar que tem coisa fedendo. O melhor a fazer é irmos em separado. Posso dizer que vou visitar alguns australianos aquartelados na cadeia. E quanto a você, Mac?

— Tem gente do Regimento Malaio ali. Podia estar visitando um deles. E você, Peter?

— Há uns rapazes da RAF que eu poderia ir visitar. — Peter Marlowe hesitou. — Talvez eu devesse ir na frente, para ver o que é, e depois voltar para lhes contar.

— Não. Mesmo que não o vejam entrando, poderão apanhá-lo e detê-lo na saída. Jamais o deixariam entrar de novo. Você não poderia desobedecer uma ordem direta e entrar pela segunda vez. Não, acho melhor irmos todos. Mas independentemente. — Larkin sorriu. — Um mistério, hem? O que será?

— Torço para que não seja encrenca.

— Ah, meu rapaz — falou Mac. — Viver atualmente já é encrenca. Não me sentiria seguro se não fosse... o Rei tem amigos nas altas esferas. Talvez saiba de alguma coisa.

— E quanto aos cantis?

Pensaram por um momento, depois Larkin rompeu o silêncio.

— Nós os levaremos conosco.

— Não e’ perigoso? Quero dizer, se estivermos dentro da cadeia, se houver uma revista de surpresa, jamais conseguiremos escondê-los.

— Se tivermos que ser apanhados, seremos apanhados. — Larkin ficou sério, cara fechada. — Ou está nas cartas, ou não está.

— Ei, Peter — chamou Ewart, ao ver Peter Marlowe sair da choça. — Esqueceu a braçadeira.

— Ah, obrigado. — Peter Marlowe praguejou baixinho, enquanto voltava para o beliche. — Esqueci dessa droga.

— Sempre me esqueço, também. Mas é preciso ter cuidado.

— Isso mesmo. Obrigado, mais uma vez.

Peter Marlowe reuniu-se aos homens que caminhavam pela trilha ao lado do muro. Andou para o norte, e virou a esquina e deparou com o portão, à sua frente. Tirou a braçadeira e sentiu-se subitamente nu, e sentiu que os homens que passavam ou se aproximavam estavam olhando para ele e se perguntando por que esse oficial não estava de braçadeira. Uns 200 metros à frente a estrada oeste terminava. A barricada agora achava-se aberta, para alguns destacamentos de trabalho que voltavam do seu labor diário. A maioria dos trabalhadores estava exausta, puxando as imensas carretas cheias dos troncos de árvores que eram arrancados com tanto esforço dos pantanais, destinados às cozinhas do campo. Peter Marlowe lembrou-se de que, daí a dois dias, faria parte de um daqueles destacamentos. Não se incomodava com os destacamentos de trabalho quase diários no campo de pouso. Aquilo era fácil. Já o trabalho com madeira era outra história. Arrancar as toras era serviço perigoso. Muitos se rompiam internamente pela falta do equipamento que facilitaria a tarefa. Muitos quebravam membros, ou torciam tornozelos. Todos tinham que ir — os que estavam sadios, uma ou duas vezes por semana, tanto os oficiais quanto os soldados, pois as cozinhas consumiam muita lenha — e era justo que aqueles que estavam sadios apanhassem a lenha para os que não estavam.

Ao lado do portão encontrava-se o PM, e do lado oposto do portão, o guarda coreano apoiava-se no muro, fumando e observando com letargia os homens que passavam. O PM olhava para o pessoal que se vinha arrastando, de volta do trabalho. Havia um homem deitado na carreta. Um ou dois geralmente acabavam desse jeito, mas tinham que estar muito cansados, ou muito doentes, para serem rebocados de volta a Changi.

Peter Marlowe passou pelos guardas distraídos e se misturou aos homens que circulavam pela imensa praça de concreto.

Conseguiu entrar num dos blocos de celas, e começou a abrir caminho pelas escadarias de metal, passando por cima de camas e esteiras. Havia homens por toda a parte. Nas escadas, nos corredores e nas celas abertas... quatro ou cinco numa cela projetada para um homem. Sentiu o horror crescente da pressão vinda de cima, debaixo, de todos os lados. O fedor era nauseante. Fedor de corpos apodrecidos. Fedor de corpos humanos sem banho. Fedor de uma geração de corpos humanos confinados. Fedor de muros, muros de prisão.

Peter Marlowe achou a Cela Cinqüenta e Quatro. A porta estava fechada, mas ele a abriu e entrou. Mac e Larkin já se achavam lá.

— Porra, mas o cheiro deste lugar está-me matando.

— A mim, também, meu camarada — disse Larkin. Estava suando. Mac também suava. O ar mostrava-se pesado, e as paredes de concreto encontravam-se úmidas daquele suor e manchadas de mofo.

A cela media uns dois metros de largura por dois e meio de comprimento e três de altura. No centro da cela, cimentada a uma das paredes, ficava uma cama — um bloco sólido de concreto de 90 centímetros de altura e 90 centímetros de largura e um metro e oitenta de comprimento. Um travesseiro de concreto se sobressaía da cama. Num dos cantos da cela ficava o banheiro... um buraco no chão que se ligava aos esgotos. Estes já não mais funcionavam. Havia uma minúscula janela com grades a 2,70m do chão, numa das paredes, mas não dava para se ver o céu, porque a parede tinha 60 centímetros de espessura.

— Mac. Vamos dar-lhes alguns minutos, depois vamo-nos mandar desse lugar dos infernos.

— É, sim, meu rapaz.

— Pelo menos vamos abrir a porta — falou Peter Marlowe, com o suor escorrendo pelo corpo.

— É melhor deixá-la fechada, Peter. É mais seguro — retrucou Larkin, inquieto.

— Preferia estar morto do que viver aqui.

— É. Graças a Deus estamos do lado de fora.

— Ei, Larkin. — Mac mostrou as cobertas largadas sobre a cama de concreto. — Não sei onde estão os homens que vivem nesta cela. Não podem estar todos num destacamento de trabalho.

— Também não sei. — Larkin estava ficando nervoso. — Vamos sair daqui...

A porta se abriu e o Rei entrou, com um largo sorriso de prazer.

— Oi, caras! — Trazia alguns embrulhos nos braços, e afastou-se para o lado para Tex poder entrar, também carregado. — Ponha tudo na cama, Tex.

O rapaz botou a chapa quente elétrica e a panela grande sobre a cama, fechando a porta com um chute, enquanto os outros olhavam, atônitos.

— Vá buscar um pouco de água — disse o Rei para Tex.

— Certo.

— O que esta acontecendo? Por que nos queria ver? — indagou Larkin.

— Vamos fazer uma comidinha — disse o Rei, dando uma risada.

— Mas pelo amor de Deus! Quer dizer que nos trouxe para cá só para isso? Que diabo, por que não podíamos cozinhar no nosso alojamento? — Larkin estava furioso. O Rei simplesmente olhou para ele e abriu um sorriso. Virou-se de costas e desfez um embrulho. Tex voltou com a água e botou a panela no fogareiro elétrico.

— Rajá, olhe, o que... — Peter Marlowe se interrompeu.

O Rei estava colocando quase um quilo de feijões de katchang idju na água. A seguir, acrescentou sal e duas colheres cheias de açúcar. Depois, virou-se e abriu outro pacote envolto em folhas de bananeira e levantou-o.

— Santa Mie de Deus!

Fez-se um silêncio aparvalhado na cela.

O Rei ficou radiante com o efeito de sua surpresa.

— Não lhe disse, Tex — falou, sorridente. — Você me deve um dólar. Mac estendeu a mão e tocou na carne.

— ‘Mahlu. É de verdade. Larkin tocou na carne.

— Já tinha esquecido como era a carne — falou, numa voz cheia de assombro. — Puta merda, mas você é um gênio. Gênio.

— É o meu aniversário. Portanto, achei que deveríamos comemorar. E tenho isto aqui — falou o Rei, levantando alto uma garrafa.

— O que é?

— Saque.

— Não acredito — dizia Mac. — Ora, tem um traseiro inteiro de porco aí. — Inclinou-se para frente e farejou-o. — Meu Deus, é de verdade, de verdade, e fresco como um dia de maio, hurra!

Todos acharam graça.