— É melhor trancar a porta, Tex. — O Rei virou-se para Peter Marlowe. — Tudo bem, sócio?
Peter Marlowe ainda fitava a carne.
— Que diabo, onde a arranjou?
— Uma longa história! — O Rei pegou uma faca e cortou a carne, depois partiu habilmente o traseiro em duas partes, e colocou-as na panela. Todos olhavam fascinados, enquanto ele acrescentava sal, em seguida colocava a panela no centro exato do fogareiro, e depois sentava-se na cama de concreto e cruzava as pernas. — Nada mau, hem?
Durante longo tempo, ninguém falou.
Uma mexida súbita no trinco da porta quebrou o encanto. O Rei fez sinal para Tex, que destrancou a porta, abriu-a um pouco, depois escancarou-a. Brough entrou.
Olhou à sua volta, espantado. Então, notou o fogareiro. Foi até lá e espiou para dentro da panela.
— Puta merda!
— É meu aniversário. — O Rei abriu um sorriso. — Pensei em convidá-lo para jantar.
— Já tem o seu convidado. — Brough estendeu a mão para Larkin. — Don Brough, Coronel.
— Grant é meu nome de batismo! Conhece Mac e Peter?
— Claro. — Brough sorriu para eles, e virou-se para Tex. — Oi, Tex!
— Prazer em vê-lo, Don. O Rei indicou a cama.
— Sente-se, Don. Depois, temos que trabalhar!
Peter Marlowe se perguntou por que seria que os soldados e oficiais americanos se chamavam pelos nomes de batismo com tanta naturalidade. Não soava vulgar ou pedante (parecia quase correto) e já notara que Brough era sempre obedecido como seu líder, embora todos o chamassem de Don... abertamente. Notável.
— Que história é essa de trabalhar? — indagou Brough. O Rei pegou algumas tiras de cobertas.
— Vamos ter que vedar a porta.
— Como! — exclamou Larkin, incrédulo.
— Claro — explicou o Rei. — Quando isso aí começar a cozinhar, somos capazes de ter que enfrentar um motim. Se os caras começarem a sentir esse cheiro, pela madrugada, dá para imaginar o que poderá acontecer. Poderão fazer-nos em pedaços. Este foi o único lugar que achei para cozinharmos em particular. O cheiro vai sair quase todo pela janela. Isto é, se vedarmos a porta. Não poderíamos cozinhar lá fora, de jeito nenhum.
— Larkin estava certo — disse Mac, solenemente. — Você é um gênio, eu nunca teria pensado nisso. Creia-me — acrescentou, rindo — de agora em diante, os americanos incluem-se entre os meus amigos.
— Obrigado, Mac. Agora, é melhor metermos mão à obra.
Os convidados do Rei pegaram as tiras das cobertas e as enfiaram nas fendas à volta da porta, e cobriram a vigia gradeada na porta. Quando terminaram, o Rei inspecionou seu trabalho.
— Bom — falou. — Agora, e quanto à janela?
Ergueram os olhos para o pedacinho gradeado de céu, e Brough sugeriu:
— Vamos deixá-la aberta até o ensopado começar a ferver de verdade. Depois, vamos cobri-la e agüentar o quanto pudermos. Depois, podemos abri-Ia por algum tempo. — Olhou ao seu redor. — Imagino que não faça mal deixar o perfume sair esporadicamente. Como um sinal de fumaça dos índios.
— Está ventando?
— Macacos me mordam se percebi. Alguém percebeu?
— Ei, Peter, ajude-me a subir, rapaz — pediu Mac.
Mac era o menor dos homens, portanto Peter Marlowe deixou que ficasse de pé nos seus ombros. Mac espiou por entre as grades, depois lambeu o dedo e esticou-o para fora.
— Ande logo, Mac, pelo amor de Deus... você não é nenhum franguinho, sabe! — exclamou Peter Marlowe.
— Tenho que testar se tem vento, seu filhote da mãe! — Mais uma vez lambeu o dedo e estendeu-o para fora, e parecia tão concentrado e ridículo que Peter Marlowe começou a rir, e Larkin juntou-se a ele, ambos dobrando-se de rir, e Mac desabou de 1,80m de altura, raspando a perna na cama de concreto, e começou a xingar.
— Olhem só para minha perna, seus amaldiçoados! — exclamou Mac, sufocando. Era só um arranhãozinho, mas havia um filete de sangue. — Porra, quase arranquei fora a pele toda.
— Olhe, Peter — gemeu Larkin, segurando a barriga. — Mac tem sangue. Sempre pensei que só tivesse látex nas veias!
— Vão à merda, seus filhos da mie, ‘mahlu! — falou Mac, irascível, e então foi tomado por um acesso de riso, levantou-se, agarrou Peter Marlowe e Larkin, e começou a cantar uma cantiga de roda.
E Peter Marlowe pegou Brough pelo braço, e Brough pegou Tex, e a cadeia de homens, cantando histericamente, fazia roda em volta do panelão, e do Rei, sentado atrás dele, de pernas cruzadas.
Mac abriu a roda.
— Ave, César. Nós que vamos comer vos saudámos.
Todos juntos, eles o saudaram, depois desabaram no chão, uns por cima dos outros.
— Saia de cima do meu braço, Peter, porra!
— Está com o pé nos meus colhões, seu sacana — disse Larkin para Brough.
— Desculpe, Grant. Ó, meu Deus! Há anos que não rio tanto.
— Ei, Rajá — falou Peter Marlowe — acho que todos deveríamos dar uma mexidinha, pra dar sorte.
— À vontade — falou o Rei. Fazia bem ao seu coração ver aqueles sujeitos tão felizes.
Solenemente, fizeram fila, e Peter Marlowe mexeu a mistura, que agora estava ficando quente. Mac pegou a colher e deu uma mexida, ao mesmo tempo que mimoseava a comida com uma bênção obscena. Larkin, não querendo ficar para trás, começou a mexer, dizendo:
— Ferve, ferve, ferve e borbulha...
— Está maluco? — falou Brough. — Pela madrugada, citando Macbethl
— O que é que tem?
— Dá azar. Citar Macbeth. É como assobiar num vestiário de teatro
— É?
— Qualquer idiota sabe disso!
— Ora vejam! Nunca soube disso antes. — Larkin franziu o cenho.
— De qualquer modo, citou-o erradamente — continuou Brough. — É “Dupla, dupla labuta e bulha; Fogo arde e caldeirão borbulha!”
— Ah, não é mesmo, ianque. Conheço o meu Shakespeare!
— Aposto com você o meu arroz de amanhã.
— Cuidado, Coronel — disse Mac, desconfiado, conhecendo a tendência de Larkin para jogar. — Homem algum apostaria isso assim tão fácil.
— Tudo bem, Mac — disse Larkin, mas não gostou do ar de satisfação na cara do americano. — O que o faz ter tanta certeza de que tem razão?
— Está valendo a aposta? — perguntou Brough.
Larkin pensou um momento. Gostava de um aposta... mas o arroz do dia seguinte era uma parada alta demais.
— Não. Aposto a minha ração de arroz numa mesa de jogo, mas de jeito nenhum vou arriscá-la com Shakespeare.
— Que pena — disse Brough. — Ia ser uma boa a ração extra. É do Quarto Ato, Cena Um, linha dez.
— Porra, como pode ser tão preciso?
— Não é vantagem — falou Brough. — Estava-me formando em letras na USC, com destaque para o jornalismo e a dramaturgia. Vou ser escritor quando sair daqui.
Mac debruçou-se para a frente e olhou para dentro da panela.
— Eu o invejo, meu rapaz. Escrever pode ser a tarefa mais importante do mundo. Se for feita direito.
— Quanta besteira, Mac — disse Peter Marlowe. — Há um milhão de coisas mais importantes.
— Isso só prova que você não está sabendo de nada.
— Os negócios são muito mais importantes — interrompeu o Rei. — Sem os negócios, o mundo pararia... e sem dinheiro e uma economia estável não haveria ninguém para comprar livros.
— Para o diabo os negócios e a economia — disse Brough. — São apenas coisas materiais. É como o Mac diz.
— Mac — falou Peter Marlowe. — O que torna o escrever tão importante?
— Bem, meu rapaz, primeiro é uma coisa que sempre quis fazer e não consigo. Tentei muitas vezes, mas nunca consegui terminar nada. Esta é a parte mais importante... terminar. Mas o mais importante de tudo é que os escritores são as únicas pessoas que podem fazer algo por este Planeta. Um homem de negócios não pode fazer nada...
— Não pode, uma merda — disse o Rei. — E quanto ao Rockefeller? E Morgan, Ford e du Pont? E todos os outros? É a filantropia deles que financia um bocado de pesquisas, bibliotecas, hospitais e arte. Ora, sem a grana deles...