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— Mas ganharam o dinheiro deles à custa de alguém retrucou Brough, vivamente. — Bem que podiam devolver um bocado dos seus milhões aos homens que o ganharam para eles. Esses sanguessugas...

— Suponho que você é um democrata, não é? — perguntou o Rei, acaloradamente.

— Pode apostar que sou, meu chapa. Olhe só para o Roosevelt. Veja o que está fazendo pelo país. Levantou-o do chão, quando os malditos republicanos...

— Isso é papo furado, e você sabe. Não teve nada a ver com os republicanos. Foi um ciclo econômico...

— Os ciclos econômicos que vão à merda. Os republicanos...

— Ei, caras — disse Larkin, suavemente. — Nada de política antes da refeição, está bem?

— Bem, vá lá — disse Brough, de cara fechada — mas esse cara é maluco.

— Mac, por que é tão importante? Ainda não entendi.

— Bem. Um escritor pode botar no papel uma idéia... ou um ponto de vista. Se ele for bom, pode balançar as pessoas, mesmo que tenha escrito num pedaço de papel higiênico. E ele é o único na nossa economia moderna que pode fazê-lo... que pode modificar o mundo. Um homem de negócios não pode... sem uma quantia substancial. Um político não pode... sem posição ou poder substanciais. Um agricultor não pode, é claro. Um contador não pode, certo, Larkin?

— Certo.

— Mas você está falando de propaganda — disse Brough. — Não quero escrever propaganda.

— Já escreveu para o cinema, Don? — perguntou o Rei.

— Nunca vendi nada para ninguém. Um cara só é escritor depois de vender alguma coisa. Mas os filmes são importantes pra burro. Sabe que Lenine disse que os filmes eram o mais importante meio de propaganda já inventado? — Viu o Rei preparando o ataque. — E não sou comuna, seu filho da puta, só porque sou democrata. — Virou-se para Mac. — Porra, se você lê Lenine, Stalin ou Trotsky é logo chamado de comunista.

— Bem, Don, tem que admitir que muitos democratas são cor-de-rosa — disse o Rei.

— E desde quando ser pró-russos significa que um cara é comunista? São nossos aliados, sabia?

— Lamento isso... de uma forma histórica — comentou Mac.

— Porquê?

— Vamos ter muitos problemas, mais tarde. Especialmente no Oriente. Essa turma já estava criando muita encrenca, mesmo antes da guerra.

— A televisão é que vai ser a atração do futuro — falou Peter Marlowe, espiando um fio de vapor dançar na superfície do ensopado. — Sabe, vi uma demonstração do Palácio Alexandra, em Londres. Baird está transmitindo um programa, uma vez por semana.

— Ouvi falar da televisão — disse Brough. — Mas nunca vi nenhuma.

— Nem eu, mas podia dar um negócio e tanto — concordou o Rei.

— Não nos Estados Unidos, pode apostar — resmungou Brough. — Pense nas distâncias! Ora, pode servir para um desses paisezinhos, como a Inglaterra, mas não para um país de verdade, como os Estados Unidos.

— O que quer dizer com isso? — perguntou Peter Marlowe, enrijecendo o corpo.

— Quero dizer que, se não fosse pela gente, essa guerra ia continuar indefinidamente. Ora, é o nosso dinheiro, as nossas armas, o nosso poderio...

— Escute aqui, meu velho, saimo-nos muito bem sozinhos... dando aos sacanas como vocês tempo para levantarem a bunda da cadeira. A guerra é sua tanto quanto nossa. — Peter Marlowe olhou com cara feia para Brough, que devolveu o olhar, do mesmo modo.

— É, porra nenhuma! Que merda, por que vocês europeus não podem matar-se uns aos outros como vêm fazendo há séculos, sem nos envolver? Já tivemos que salvar sua pele antes...

E não demorou muito para que todos estivessem discutindo e se xingando, e nenhum escutava o outro, cada um tendo sua própria opinião e só ela estando certa.

O Rei sacudia o punho furiosamente para Brough, que fazia o mesmo, e Peter Marlowe gritava com Mac, quando de repente bateram violentamente à porta.

Silêncio imediato.

— Mas que merda de barulheira é essa? — perguntou uma voz.

— É você, Griffiths?

— Quem estava pensando que fosse, o safado do Adolf Hitler? Quer botar a gente em cana, ou coisa parecida?

— Não. Desculpe.

— Parem com essa merda de barulho!

— Quem é esse cara? — indagou Mac.

— Griffiths. É o dono da cela.

— O quê?

— Claro. Aluguei-a por cinco horas. Três pratas por hora. Não se arranja nada de graça.

— Alugou a cela? — repetiu Larkin, incrédulo.

— Isso mesmo. Este Griffiths é um negociante esperto — explicou o Rei. — Há milhares de homens por aí, certo? Não há paz e quietude, certo? Bem, esse inglês aluga a cela para qualquer um que deseje ficar sozinho. Não é bem a minha idéia de um santuário, mas Griffiths tem um negócio rendoso.

— Aposto que a idéia não foi dele — comentou Brough.

— Capitão, não sei contar mentira. — O Rei sorriu. — Devo confessar que a idéia foi minha. Mas Griffiths ganha o bastante para manter-se, e à sua unidade, muito direitinho.

— Qual é a sua comissão?

— Só dez por cento.

— Se é só dez por cento, é justo — admitiu Brough.

— É — disse o Rei. Jamais mentiria para Brough, não que fosse da conta dele o que quer que fizesse. Brough inclinou-se e mexeu o ensopado.

— Ei, pessoal, está fervendo.

Todos se acercaram da panela. Estava mesmo fervendo.

— É melhor darmos um jeito na janela. Esse troço vai começar a cheirar num minutinho.

Colocaram uma coberta sobre a janela gradeada, e logo a cela estava que era só perfume.

Mac, Larkin e Tex agacharam-se junto à parede, olhos fitos na panela. Peter Marlowe sentou-se no outro lado da cama, e como era o que estava mais perto, de vez em quando mexia a comida.

A água fervia brandamente, fazendo com que os feijõezinhos delicados subissem à superfície, depois cascateassem de volta às profundezas do líquido. Um jato de vapor veio à tona, trazendo consigo o odor substancioso da carne. O Rei inclinou-se e lançou dentro da panela um punhado de ervas nativas, entre elas o açafrão, e cravo-da-índia e alho, e isso aumentou o perfume.

Quando o ensopado já fervia há 10 minutos, o Rei botou o mamão verde na panela.

— É uma loucura — falou. — Um sujeito podia fazer fortuna depois da guerra, se pudesse descobrir um jeito de desidratar o mamão. Esse troço amoleceria carne de búfalo!

— Os malaios sempre o usaram — respondeu Mac, mas ninguém prestava atenção nele, nem ele mesmo, pois estavam todos envoltos no vapor-cheiroso-doce.

O suor escorria pelo peito, queixo, pernas e braços de todos. Porém, mal notavam o suor ou o abafamento. Sabiam apenas que aquilo não era um sonho, que a carne estava cozinhando... ali, diante de seus olhos, e que muito em breve iriam comê-la.

— Onde a conseguiu? — perguntou Peter Marlowe, sem realmente se importar. Precisava dizer alguma coisa para quebrar aquele encanto sufocante.

— É o cachorro do Hawkins — respondeu o Rei, sem pensar em nada, exceto meu Deus como cheira bem, oh como cheira bem!

— O cachorro do Hawkins?

— Está falando do Rover?

— O cachorro dele?

— Pensei que era um porquinho!

— O cachorro do Hawkins?

— Puta que o pariu!

— Quer dizer que este é o traseiro do Rover? — perguntou Peter Marlowe, estupefato.

— Claro — disse o Rei. Agora que o segredo escapara, não se incomodava mais. — Ia contar-lhes depois, mas que diabo! Agora já sabem.

Entreolharam-se todos, apalermados. E então, Peter Marlowe exclamou:

— Mãe de Deus! O cachorro do Hawkins!

— Escutem — disse o Rei, razoavelmente. — Que diferença faz? Ele era o cachorro mais limpinho e comível que já conheci. Muito mais limpo do que qualquer porco. Ou galinha, também. Carne é carne. É muito simples.