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Mac disse petulantemente:

— Isso mesmo. Não há nada de mal em comer carne de cachorro. Os chineses vivem comendo. Uma iguaria. Sem dúvida.

— É — disse Brough, seminauseado. — Mas não somos chineses e este é o cachorro do Hawkins!

— Sinto-me como um canibal — disse Peter Marlowe.

— Olhe — disse o Rei. — É como o Mac falou. Não há nada errado com o cachorro. Sintam só o cheiro, pela madrugada!

— Sintam o cheiro! — disse Larkin, pelos demais. Era difícil falar, a saliva quase o sufocava. — Não sinto o cheiro de mais nada, a não ser daquele ensopado, e é o melhor cheiro que já senti, e estou-me lixando se é o Rover ou não, quero comer. — Esfregou a barriga, quase dolorosamente. — Não sei de vocês, seus filhos da mãe, mas estou com tanta fome que sinto cãibra. O que este cheiro está fazendo ao meu metabolismo não é comum.

— Também estou passando mal. E não tem nada a ver com o fato de a carne ser de cachorro — disse Peter Marlowe. A seguir acrescentou, quase num queixume: — Só que não quero comer o Rover. — Fitou Mac. — Como vamos olhar na cara do Hawkins, depois?

— Não sei, meu rapaz. Viro a cara para o outro lado. É, acho que não ia poder olhar na cara dele. — As narinas de Mac tremeram, e ele olhou para o ensopado. — Como isso está cheirando bem!

— Claro — disse o Rei, serenamente — quem não quiser comer, pode ir embora.

Ninguém se mexeu. A seguir, todos se recostaram, imersos nos seus pensamentos. Escutando o borbulhar. Aspirando a fragrância. Que coisa magnífica.

— Não é chocante, quando se pára para pensar — falou Larkin, mais para persuadir-se do que aos outros. — Vejam como nos afeiçoamos às nossas galinhas. Não nos importamos de comê-las... ou aos seus ovos.

— É verdade, meu rapaz — disse Mac. — E lembra-se daquele gato que pegamos e comemos. Não nos importamos, não foi, Peter?

— Não, mas aquele era um gato vadio. Este é o Rover!

— Era! Agora é só carne.

— Foram vocês que pegaram o gato? — perguntou Brough, sem conseguir controlar a raiva. — Aquele de seis meses atrás?

— N5o. Esse foi em Java.

— Ah — disse Brough. Nesse momento, aconteceu de ele olhar para o Rei. — Devia ter adivinhado! — explodiu. — Seu filho da mãe. E nós o procuramos adoidado por quatro horas.

— Não fique chateado, Don. Nós o pegamos. Não deixou de ser uma vitória americana.

— Os meus australianos estão perdendo a bossa — comentou Larkin. O Rei levantou a colher, e a mão tremia ao provar a comida.

— O gosto está bom. — Cutucou a carne. Ainda estava grudada aos ossos. — Vai demorar mais uma hora.

Mais dez minutos, e deu nova provada.

— Quem sabe um pouquinho mais de sal. O que acha, Peter? Peter Marlowe provou. Estava bom, ah, muito bom.

— Uma pitada, só uma pitada!

Todos provaram, um por um. Mais uma pitada de sal, um tiquinho de açúcar, um nadinha de açafrão. E acomodaram-se para esperar na estranha cela de tortura, quase asfixiados.

De tempos em tempos, tiravam a coberta da janela para deixar sair um pouco do perfume e entrar um arzinho fresco.

E do lado de fora de Changi, o perfume nadava na brisa. E dentro da cadeia, ao longo do corredor, fragmentos do perfume varavam a vedação da porta e impregnavam a atmosfera.

— Santo Deus, Smithy, está sentindo o cheiro?

— Claro que estou. Acha que não tenho nariz? De onde está vindo?

— Espere aí! Lá dos lados da cadeia, mais ou menos de lá!

— Aposto que aqueles amarelos sacanas estão cozinhando bem em frente da maldita cerca.

. — Isso mesmo. Sacanas.

— Não acho que sejam eles. Acho que o cheiro vem da cadeia.

— Ora essa, escutem só o Smithy. Olhem para ele, farejando que nem um diabo de um cachorro.

— Estou-lhe dizendo que o cheiro vem da cadeia.

— É só o vento, que está vindo daquela direção.

— Vento nunca cheirou assim antes. É carne cozinhando, estou-lhe dizendo. É carne de vaca. Aposto a minha vida. É ensopado de carne.

— Uma nova tortura japonesa. Filhos da mãe! Mas que sujeira!

— Quem sabe a gente está só imaginando. Dizem que se pode imaginar um cheiro.

— Mas que diabo, como podemos todos estar imaginando? Olhe para os homens, todos eles pararam.

— Quem disse?

— O quê?

— Você falou: “Dizem que se pode imaginar um cheiro.” Quem disse?

— Ó, meu Deus, Smithy, é só um ditado.

— Mas quem foi que disse?

— Porra, como vou saber?

— Então pare de falar “dizem isso” ou “dizem aquilo”. Dá para deixar um cara doido.

Os homens na cela, os escolhidos do Rei, ficaram olhando enquanto ele servia uma porção numa vasilha e a passava a Larkin. Seus olhos deixaram o prato e voltaram para a concha e depois foram para Mac e voltaram para a concha e depois para Brough e para a concha e depois para Tex e para a concha e depois para Peter Marlowe e para a concha e depois para a porção do Rei. E quando todos estavam servidos, atacaram a comida, e sobrara o bastante para pelo menos mais duas porções para cada homem.

Era uma agonia comer tão bem.

Os feijões tinham-se desfeito e agora quase se tornavam parte da espessa sopa. O mamão tinha amolecido a carne e feito com que se soltasse dos ossos, e a carne se desfazia em grandes pedaços, de cor castanho-escuro, devido às ervas, ao mamão e aos feijões. O ensopado tinha a consistência de um verdadeiro ensopado, um ensopado irlandês, com pontinhos de óleo cor de mel salpicando a superfície das suas vasilhas.

O Rei ergueu os olhos do prato, seco e limpo. Fez sinal para Larkin. Este passou sua vasilha, e em silêncio cada um deles aceitou um repeteco, que logo desapareceu. E depois a última porção.

Finalmente, o Rei largou o prato de lado.

— Puta que o pariu.

— Uma perfeição! — exclamou Larkin.

— Soberbo — disse Peter Marlowe. — Já não sabia mais mastigar. Estou com dor nos maxilares.

Mac raspou com cuidado o último feijão e arrotou. Foi um arroto fantástico.

— Nem lhes conto, rapazes, já comi umas lautas refeições na vida, desde carne assada no Simpson’s de Piccadilly até rijsttafel no Hotel des Indes, em Java, e nada, nem uma só refeição, já se comparou a esta. Nunca.

— Concordo — disse Larkin, ajeitando-se mais confortavelmente. — Até no melhor restaurante de Sydney, onde os bifes são maravilhosos... não, nunca saboreei nada assim.

O Rei arrotou e distribuiu pelos presentes um maço de Kooas. A seguir, abriu a garrafa de saque e tomou um longo gole. A bebida era grosseira e forte, mas tirou o gosto de tempero de sua boca.

— Tome — falou, passando-a a Peter Marlowe. Todos beberam e todos fumaram.

— Ei, Tex, que tal um pouco de café? — bocejou o Rei.

— É melhor a gente esperar alguns minutos antes de abrir a porta — disse Brough, pouco se importando que a porta fosse aberta ou não, querendo apenas descansar em paz. — Ó, Deus, sinto-me tão bem!

— Estou tão cheio que acho que vou estourar — falou Peter Marlowe. — Sem dúvida alguma esta foi a melhor...

— Pelo amor de Deus, Peter. Todos já dissemos isso. Já sabemos.

— Bem, mas eu precisava dizer.

— Como foi que conseguiu isso? — perguntou Brough ao Rei, abafando um bocejo.

— Max me contou que o cão matara a galinha. Mandei o Dino ir procurar o Hawkins, que deu o cachorro para ele. Conseguimos que Kurt o abatesse. A minha parte foi o traseiro.

— Por que Hawkins daria o animal para o Dino? — perguntou Peter Marlowe.

— Ele é veterinário.

— Ah, sei.

— É, uma ova — falou Brough. — É da Marinha Mercante. O Rei deu de ombros.

— Então, hoje era veterinário. Não crie caso!

— Tenho que lhe dar crédito. Puta que o pariu, tenho que lhe dar crédito.

— Obrigado, Don.

— Como... como foi que Kurt o matou? — perguntou Brough.