— Não perguntei.
— Fez muito bem, meu rapaz — disse Mac. — Que tal deixarmos o assunto de lado, hem?
— Boa idéia.
Peter Marlowe levantou-se e espreguiçou-se.
— E quanto aos ossos?
— A gente os leva disfarçadamente, quando sair.
— Que tal um joguinho de pôquer? — disse Larkin.
— Boa idéia — disse o Rei, animado. — Tex, prepare o café. Peter, faça uma arrumaçãozinha. Grant, cuide da porta. Don, que tal empilhar os pratos.
— Porra, e o que você vai fazer? — perguntou Brough, levantando-se pesadamente.
— Eu? — O Rei alçou as sobrancelhas. — Vou ficar sentado.
Brough olhou para ele. Todos olharam para ele. E então, Brough disse:
— Estou pensando em fazê-lo oficial... só para ter o prazer de lhe meter a mão.
— Aposto dois contra cinco — disse o Rei — que isso de nada lhe adiantaria.
Brough olhou para os outros, depois voltou a olhar para o Rei.
— Provavelmente está certo. Eu acabaria numa corte marcial. — Deu uma risada. — Mas não há regra que diga que não posso tomar sua grana.
Puxou uma nota de cinco dólares e fez sinal para o baralho nas mãos do Rei.
— A carta mais alta ganha!
O Rei abriu as cartas em leque.
— Escolha uma.
Brough mostrou uma dama, exultante. O Rei olhou para o baralho e tirou uma carta... um valete. Brough abriu um sorriso.
— O dobro ou nada.
— Don — disse o Rei, brandamente — desista enquanto está vencendo. — Escolheu outra carta e virou-a para cima. Um ás. — Podia tirar outro ás com a maior facilidade... é o meu baralho!
— Que diabo, então por que não me venceu de início? — perguntou Brough.
— O que é isso, Capitão, senhor. — O Rei se divertia à grande. — Seria indelicado tirar sua grana. Afinal, o senhor é o nosso intrépido líder.
— Vá à merda! — Brough começou a empilhar pratos e vasilhas. — Se não pode vencê-los, una-se a eles.
Naquela noite, enquanto a maior parte do campo dormia, Peter Marlowe jazia desperto sob seu mosquiteiro, sem querer dormir. Saiu do beliche e abriu caminho por entre o labirinto de mosquiteiros e foi lá para fora. Brough também estava acordado.
— Oi, Peter — chamou Brough, suavemente. — Venha sentar-se aqui. Também não está conseguindo dormir?
— Não estava querendo ainda, sinto-me muito bem. Acima deles, a noite era de veludo.
— Que noite maravilhosa.
— É.
— Você é casado?
— Não — retrucou Peter Marlowe.
— Tem sorte. Acho que não é tão ruim quando não se é casado. — Brough ficou calado por um minuto. — Fico maluco imaginando se ela ainda estará lá. Ou se estiver, o que estará fazendo agora?
— Nada. — Peter Marlowe deu a resposta automática, com N’ai nítida em seus pensamentos. — Não se preocupe. — Era como dizer “Pare de respirar.”
— Não que eu a culpe, ou a qualquer outra mulher. Há tanto tempo que estamos longe, tanto tempo. Não é culpa dela.
Brough preparou um cigarro com mãos trêmulas, usando um pouco de chá seco e a guimba de um dos Kooas. Quando estava aceso, deu uma tragada profunda, depois passou-o a Peter Marlowe.
— Obrigado, Don. — Tirou uma baforada, depois devolveu o cigarro. Terminaram o cigarro em silêncio, atormentados pela saudade. Depois, Brough se levantou.
— Acho que agora vou-me deitar. Até qualquer hora, Peter.
— Boa-noite, Don.
Peter Marlowe voltou a olhar para o céu e deixou seus pensamentos ansiosos voarem para N’ai. E sabia que esta noite, como Brough, só havia uma coisa para ele fazer, caso contrário não dormiria nunca.
16
O Dia da Vitória na Europa chegou, e os homens de Changi ficaram eufóricos. Mas era apenas mais um dia, e não os tocou, de verdade. A comida era a mesma, o céu o mesmo, o calor o mesmo, a doença a mesma, as moscas as mesmas, o desgaste o mesmo. Grey ainda vigiava e esperava. O seu espião lhe avisara que em breve o diamante trocaria de mãos. Muito em breve. Peter Marlowe e o Rei esperavam esse dia com a mesma ansiedade. Só faltavam quatro dias.
O Dia do Nascimento chegou e Eva teve mais 12 filhotes. O código para Dia do Nascimento divertira à grande o Rei e seus associados. Grey ouvira falar no Dia N por intermédio do seu espião, e naquele dia cercara a choça deles e revistara todos os homens, à procura de relógios ou o que mais seria vendido no “Dia dos Negócios”. Tira estúpido! O Rei não ficou perturbado pela constatação de que havia um espião na choça. A terceira ninhada já fora concebida.
Agora, havia 70 gaiolas sob a choça. Quatorze já estavam ocupadas. Breve, mais 12 estariam cheias.
Os homens solucionaram o problema dos nomes da maneira mais simples. Os machos receberam números pares, e as fêmeas números ímpares.
— Ouçam — falou o Rei — precisamos preparar mais gaiolas.
Estavam na choça, tendo uma reunião de diretoria. A noite estava fresca e agradável. Uma Lua pálida era tocada pelas nuvens.
— Estamos estourados — falou Tex. — Não há mais tela sobrando em canto algum. A única coisa que podemos fazer é pedir ajuda aos australianos.
— Se fizermos isso — falou Max, devagar — podemos logo entregar todo o negócio nas mãos daqueles filhos da mãe.
Todo o esforço de guerra da choça americana estava concentrado no ouro vivo que rapidamente explodia sob seus pés. Uma equipe de quatro homens já transformara as valas numa rede de passagens. Agora, tinham espaço de sobra para as gaiolas, mas não tinham tela para construí-las. Estavam desesperada-mente necessitados de telas; mais outro Dia N se aproximava, e logo depois dele mais outro Dia N, e depois mais outro.
— Se você conseguisse arranjar cerca de uma dúzia de caras em quem pudesse confiar, podia dar-lhes um casal de ratos e deixar que tivessem suas próprias criações — disse Peter Marlowe, pensativo. — Nós seríamos apenas os criadores do gado.
— Não adianta, Peter, jamais conseguiríamos manter o negócio em sigilo. O Rei preparou um cigarro e lembrou-se de que os negócios não estavam andando bem, recentemente, e que há uma semana inteira não fumava um cigarro comprado pronto.
— A única coisa a fazer — falou, depois de refletir por um momento — é botar o Timsen na sociedade.
— Aquele australiano nojento já não compete o bastante com á gente? — reclamou Max.
— Não temos alternativa — disse o Rei, encerrando o assunto. — Temos que ter as gaiolas... e ele é o único que teria o know-how... e o único em quem confio para ficar de boca fechada. Se a criação seguir de acordo com o plano, haverá grana bastante para todo o mundo. — Ergueu os olhos para Tex. — Vá buscar o Timsen.
Tex deu de ombros e saiu.
— Vamos lá, Peter — disse o Rei. — Vamos dar uma olhada lá embaixo. Seguiu na frente, e abriu o alçapão.
— Puta que o pariu! — exclamou, ao ver a extensão das escavações. — Se cavarmos mais, o raio da choça vai desabar, e então o que será de nós!
— Não se preocupe, chefe — disse Miller, com orgulho. Era o encarregado do destacamento de escavações. — Fiz um esquema que nos permite escavar só em volta das estacas de concreto. Já temos espaço para mil e quinhentas gaiolas, se pudermos arranjar a tela. Ah, e poderíamos duplicar o espaço, se tivéssemos madeira para escorar uns túneis. Fácil, fácil.
O Rei percorreu a trincheira principal, para inspecionar os animais. Adão percebeu sua chegada e arremessou-se ferozmente contra a tela, como se quisesse fazer o Rei em pedaços.
— Amistoso, não é? Miller abriu um sorriso.
— O filho da mãe o conhece de algum lugar.
— Talvez devêssemos dar uma paradinha na reprodução — sugeriu Peter Marlowe. — Até as gaiolas ficarem prontas.
— Timsen é a solução — disse o Rei. — Se alguém nos puder arranjar o material de que precisamos, será ele com seu bando de ladrões.