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Voltaram para a choça e limparam a poeira do corpo. Depois de uma chuveirada, sentiram-se melhor.

— Oi, meu cupincha. — Timsen atravessou toda a extensão da choça e veio sentar-se. — Vocês ianques estão com medo de que lhes estourem os colhões, ou o quê? — Era alto e durão, e com olhos fundos.

— Do que está falando?

— Do jeito que vocês estão cavando trincheiras, dá para se imaginar que a merda da Força Aérea inteira está para cair em cima de Changi.

— Não faz mal ser cuidadoso. — O Rei se perguntou mais uma vez se deviam arriscar-se a incluir Timsen no negócio. — Não vai demorar muito para que ataquem Cingapura. E quando o fizerem, nós vamos estar nos subterrâneos.

— Jamais vão atacar Changi. Sabem que estamos aqui. Pelo menos os ingleses sabem. Claro que quando vocês ianques estão nos céus, nunca se pode saber onde, diabo, as bombas vão cair.

Levaram-no numa viagem de inspeção. E ele viu imediatamente a enormidade da organização e do plano.

— Meu Deus, camarada — disse Timsen, sem fôlego, quando estavam de volta à choça. — Tenho que cumprimentá-lo. Meu Deus. E a gente pensando que vocês só estavam com medo. Meu Deus, devem ter lugar para quinhentos ou seiscentos.

— Mil e quinhentos — interrompeu o Rei, displicentemente. — E no próximo Dia N vai ter...

— Dia N?

— Dia do Nascimento.

— Então isso é o que significa Dia N. — Timsen achou graça. — Passamos semanas tentando adivinhar essa. Puta que o pariu. — Riu com gosto. — Vocês são mesmo uns gênios.

— Tenho que admitir que a idéia foi minha. — O Rei tentou não deixar o orgulho transparecer, mas não conseguiu. Afinal de contas, a idéia fora mesmo dele. — No próximo Dia N estamos esperando pelo menos noventa filhotes. No seguinte, cerca de uns trezentos.

As sobrancelhas de Timsen quase encostaram no começo dos cabelos.

— Vou dizer-lhe o que estamos pensando em fazer. — O Rei fez uma pausa, repassando a oferta. — Você nos arranja o material para fazermos mais mil gaiolas. Limitaremos nosso estoque completo em mil... só o melhor. Você bota o produto no mercado e rachamos meio a meio. Num negócio dessa envergadura, vai haver o bastante para todos.

— Quando começamos a vender? — perguntou Timsen, imediatamente. Mesmo assim, a despeito das enormes possibilidades, sentia-se deprimido.

— Vamos dar-lhes dez patas traseiras dentro de uma semana. Usaremos os machos primeiro, e reservaremos as fêmeas. Achamos que só devemos aproveitar as patas traseiras. Aumentaremos o número gradativamente.

— Por que só dez para começar?

— Se entramos logo no mercado com mais, a turma vai desconfiar. Temos que ir com calma.

Timsen pensou durante um momento.

— Tem certeza de que... hã... a carne vai ser... legal?

Agora que havia assumido o compromisso do fornecimento, o próprio Rei estava com nojo. Mas, que diabo, carne é carne, e negócio é negócio.

— Estamos apenas oferecendo carne. Rusa tikus. Timsen meneou a cabeça, lábios comprimidos.

— Não me agrada a idéia de vendê-las aos meus australianos — falou, enjoado. — Puta que o pariu. Não me parece direito. Puta que o pariu, não. Não que eu... bem... não me parece nada direito. Não para o meu pessoal.

Peter Marlowe concordou, sentindo-se igualmente nauseado.

— Nem para os nossos rapazes.

Os três se entreolharam. É, disse o Rei consigo mesmo, não parece nada direito. Mas nós temos que sobreviver. E... de repente, fez-se ã luz em sua cabeça. Empalideceu, e disse tensamente:

— Vá... chamar... os... outros. Tive uma idéia genial.

Os americanos foram rapidamente reunidos. Tensos, observavam o Rei. Este achava-se mais calmo, porém ainda não abrira a boca. Apenas fumava, parecendo ignorar a presença deles. Peter Marlowe e Timsen se entreolharam, perturbados. O Rei se pôs de pé, e a eletricidade aumentou. Apagou o cigarro.

— Homens — começou, e sua voz estava débil, estranhamente exausta. — Faltam quatro dias para o Dia N. Esperamos — consultou o gráfico escrito na parede de folhas — aumentar nossa criação para um pouco acima de cem. Fiz um trato com nosso amigo e associado, Timsen. Ele vai fornecer o material para mil gaiolas; portanto, quando chegar a hora de desmamar as ninhadas, o problema de alojamento já estará resolvido. Ele e seu grupo vão botar a produção no mercado. Nós vamos apenas nos concentrar em reproduzir os melhores espécimes. — Parou, e olhou com firmeza para cada homem. — Homens. De hoje a uma semana começam as vendas.

Agora que a data aterradora estava marcada, todos ficaram assustados.

— Acha mesmo que devemos? — perguntou Max, apreensivo.

— Espere um minuto, sim, Max?

— Essa história de vendas — disse Byron Jones III, mexendo no seu tapa-olho. — A idéia me dá...

— Puta que o pariu, querem esperar um pouco! — exclamou o Rei, impaciente. — Homens. — Todos se inclinaram para frente enquanto o Rei, quase extenuado, falou no mais baixo dos sussurros: — Vamos apenas vender para os oficiais! Para as Autoridades! De Major para cima!

— Ó, meu Deus! — murmurou Timsen.

— Meu Jesus Santíssimo! — disse Max.

— O quê! — exclamou Peter Marlowe, apalermado. O Rei se sentia como um deus.

— É, oficiais. São os únicos filhos da mãe que têm o dinheiro para comprar. Ao invés de comerciamos em massa, vamos transformá-los em artigos de luxo.

— E os sacanas que têm o dinheiro para comprar são aqueles que a gente gostaria de ver comendo a carne! — disse Peter Marlowe.

— Mas que grã-fino safado você é! — exclamou Timsen, embasbacado. — Genial. Ora, eu daria o meu braço direito para ver três filhos da mãe comendo carne de rato, e depois poder contar-lhes...

— Conheço dois — disse Peter Marlowe — a quem de bom grado daria a carne ao invés de vendê-la. Mas se a gente der para os sacanas... ora, são tão unhas-de-fome que vão desconfiar de algo podre!

Max levantou-se e gritou, abafando as risadas.

— Escutem, caras. Escutem. Só um minuto. — Virou-se para o Rei. — Sabe, nem sempre, bem... — Estava tão emocionado que tinha dificuldade em falar. — Nem sempre estive do seu lado. Não há mal nisso. O país é livre. Mas esta... esta é uma idéia tão... tão... que, bem... — Estirou a mão, solenemente.

— Gostaria de apertar a mão do homem que bolou esta idéia! Acho que todos deveríamos apertar a mão de um verdadeiro gênio. Falando por todos os soldados do mundo... estou orgulhoso de você. O Rei!

Max e o Rei trocaram um aperto de mão.

Tex oscilava exuberantemente de um lado para o outro.

— Sellars, Prouty e Grey... ele está na lista...

— Este não tem dinheiro — disse o Rei.

— Que diabo, a gente dá um pouco para ele — falou Max.

— Não podemos fazer isso. Grey não é nenhum idiota. Iria desconfiar -disse Peter Marlowe.

— E quanto ao Thorsen... aquele filho da mãe...

— Nenhum oficial ianque. Bem — falou o Rei, delicadamente — quem sabe um ou dois.

Os vivas foram logo abafados.

— E quanto aos australianos?

— Deixe comigo, camarada — falou Timsen. — Já pensei em três dúzias de fregueses.

— E quanto aos ingleses? — perguntou Max.

— Todos podemos escolher alguns. — O Rei sentiu-se imenso, poderoso e eufórico. — Que sorte que os sacanas que têm a grana, ou os meios de conseguir a grana, sejam aqueles que a gente quer que comam e depois saibam o que comeram — falou.

Pouco antes do toque de apagar as luzes, Max entrou depressa pelo vão da porta sem porta, e murmurou para o Rei:

— Há um guarda vindo para cá.

— Quem é?

— Shagata.

— Está bem — disse o Rei, tentando manter a voz inalterada. — Verifique se todos os vigias estão em posição.

— Certo. — Max afastou-se rapidamente. O Rei falou bem junto de Peter Marlowe.