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— Quem sabe houve algum furo — disse, nervoso. — Vamos, é melhor nos prepararmos.

Saiu pela janela, certificando-se de que o toldo de lona estava em posição. E então, ele e Peter Marlowe sentaram-se sob o toldo para esperar.

Shagata enfiou a cabeça sob o toldo, e quando reconheceu o Rei, veio juntar-se a eles. Apoiou o fuzil contra a parede e ofereceu um pacote de Kooas.

— Tabe — cumprimentou.

— Tabe — replicou Peter Marlowe.

— Oi — falou o Rei. A mão dele tremia, ao pegar o cigarro.

— Tendes algo para me vender, esta noite? — perguntou Shagata, com voz sibilante.

— Está perguntado se tem alguma coisa para lhe vender, hoje.

— Diga que não!

— Meu amigo está aborrecido por não ter nada para tentar um homem de bom gosto, esta noite.

— Será que seu amigo teria um tal artigo, digamos em três dias?

O Rei deu um suspiro de alívio, quando Peter Marlowe fez a tradução.

— Diga que sim. E que ele fez bem em verificar.

— Meu amigo diz que é provável que nesse dia tenha algo para tentar um homem de bom gosto. E meu amigo acrescenta que acha que negociar com um homem tão cauteloso é um bom presságio para a conclusão satisfatória da referida transação.

— Sempre é aconselhável, quando os assuntos precisam ser tratados na desolação da noite. — Shagata-san inspirou fundo. — Se eu não chegar dentro de três noites, espere cada noite por mim. Um amigo mútuo insinuou que talvez não consiga cumprir sua parte com absoluta precisão. Mas estou certo de que será de hoje a três noites.

Shagata levantou-se e deu um maço de cigarros para o Rei. Uma ligeira reverência, e a escuridão voltou a envolvê-lo.

Peter Marlowe contou ao Rei o que Shagata acabara de dizer, e o Rei abriu um sorriso.

— Ótimo. Ótimo mesmo. Quer dar uma passadinha aqui amanhã cedo? Podemos discutir os planos.

— Tenho que trabalhar no campo de pouso, amanhã.

— Quer que arranje alguém para ir no seu lugar? Peter Marlowe riu e fez que não com a cabeça.

— É melhor mesmo você ir — falou o Rei. — Para o caso do Cheng San querer fazer contato.

— Acha que tem alguma coisa errada?

— Não. Shagata fez bem em verificar. Eu teria feito o mesmo. Tudo está seguindo de acordo com o planejado. Mais uma semana e o negócio estará fechado.

— Espero que sim. — Peter Marlowe pensou na aldeia, e rezou para que o negócio desse certo. Queria desesperadamente voltar lá de novo, e se voltasse, sabia que teria que possuir Sulina, ou enlouqueceria.

— Q que foi? — O Rei mais pressentira do que vira o estremecimento de Peter Marlowe.

— Estava só pensando que gostaria de estar nos braços de Sulina neste minuto — replicou Peter Marlowe, contrafeito.

— Sim. — O Rei ficou imaginando se ele poderia entornar o caldo por causa da fulana.

Peter Marlowe percebeu a expressão dele, e sorriu de leve. _ Não tem com que se preocupar, meu velho. Eu não faria nenhuma bobagem, se é o que estava pensando.

— Claro. — O Rei sorriu. — Temos muita coisa boa pela frente... e amanhã é o show. Já sabe do que se trata?

— Só sei que se chama Triângulo. E que Sean é a estrela. — A voz de Peter Marlowe ficou subitamente inexpressiva.

— Como foi que quase matou o Sean? — O Rei nunca perguntara isso assim francamente, pois sabia que, com um homem como Peter Marlowe, era sempre perigoso fazer perguntas diretas sobre assuntos pessoais. Mas, agora, sentia instintivamente que a hora era esta.

— Não há muito o que contar — respondeu Peter Marlowe, imediatamente, satisfeito porque o Rei lhe perguntara. — Sean e eu éramos da mesma esquadrilha, em Java. Um dia antes de a guerra acabar ali, Sean não voltou de uma missão. Pensei que tinha morrido.

“Há cerca de um ano... no dia seguinte à minha chegada aqui, vindo de Java... fui assistir a um dos espetáculos do campo. Quando finalmente reconheci Sean no palco, não pode imaginar o choque que senti. Fazia o papel de uma garota, mas aquilo não me chamou a atenção... alguém sempre tinha que fazer os papéis de garotas... portanto refestelei-me e apreciei o espetáculo. Não cansava de me congratular por encontrá-lo vivo e bem-disposto, e não cansava de admirar seu desempenho sensacional como moça... o jeito que andava, falava e se sentava... e suas roupas e peruca eram perfeitas. Fiquei impressionadíssimo com a atuação dele... e no entanto, sabia que nunca se metera com teatro antes.

“Depois do espetáculo, fui aos bastidores para vê-lo. Havia alguns outros esperando, também, e depois de algum tempo tive a sensação estranha de que aqueles caras eram como os tipos que ficam rondando as portas de saída dos teatros, pelo mundo todo... sabe, rapazes babando à espera das namoradas.

“Finalmente, a porta do camarim se abriu e todo o mundo entrou de roldão. Entrei por último, fiquei no vão da porta. Foi então que percebi, chocado, que todos aqueles caras eram homossexuais! Sean estava sentado numa cadeira, e todos eles pareciam derramar-se sobre ele, paparicando-o e chamando-o de ‘querida’, abraçando-o e dizendo-lhe como fora ‘maravilhosa’... tratando-o como a bela estrela do espetáculo. E Sean... Sean estava adorando aquilo! Santo Cristo, estava realmente adorando toda aquela bolinação! Como uma cadela no cio.

“Foi então que ele me viu, e também ficou chocado, é claro.

“Falou ‘Alô, Peter’, mas eu não pude responder nada. Fitava um daqueles malditos camaradas que estava com a mão no joelho de Seah. Este usava uma espécie de négligée, meias de seda e calcinhas, e tive o pressentimento de que chegara até a ajeitar as dobras do négligée para realçar as pernas acima das meias... e parecia que tinha seios, por baixo do négligée. Foi então que me dei conta de que não estava usando peruca... de que todo aquele cabelo era dele mesmo, tão longo e ondulado quanto o de uma garota.

“Então, Sean pediu a todos que se retirassem. ‘Peter é um velho amigo que pensei que estivesse morto’, falou. ‘Preciso falar com ele. Saiam, por favor.’

“Quando eles se haviam retirado, perguntei a Sean: ‘Em nome de Deus, o que lhe aconteceu? Você estava gostando de verdade da bolinação daquela escória.’

“ ‘Em nome de Deus, o que aconteceu a todos nós?’, respondeu Sean. Depois falou, com aquele seu sorriso maravilhoso: ‘Que bom vê-lo, Peter. Pensei que estava morto. Sente-se um momento enquanto tiro a maquiagem. Temos muito que conversar. Veio para cá no destacamento de trabalho de Java?’

“Fiz que sim com a cabeça, ainda em estado de choque, e Sean virou-se para o espelho e começou a tirar a maquiagem com creme de limpeza. ‘O que lhe aconteceu, Peter?’, perguntou. ‘Foi abatido?’

“Quando começou a tirar a maquiagem, comecei a me descontrair... tudo parecia mais normal. Disse a mim mesmo que bancara o cretino, que tudo aquilo fazia parte do espetáculo... sabe como é, manter viva a lenda... e estava certo de que ele apenas fingira estar gostando. Então, pedi desculpas, dizendo: ‘Desculpe, Sean... deve estar-me achando um idiota chapado! Meu Deus, é bom saber que está vivo. Também pensei que você tinha batido as botas.’

“Sean me contou que fora bombardeado por quatro Zeros, e tivera que soltar de pára-quedas. Quando finalmente conseguiu voltar ao campo de pouso e encontrou o meu avião, este era só destroços. Contei-lhe como ateara fogo ao meu avião antes de fugir... não queria que os malditos amarelos consertassem a asa.

“ ‘Oh’, disse ele, ‘imaginei que você se tinha espatifado ao aterrar... que tinha morrido. Fiquei em Bandung, no quartel-general, com o resto do pessoal, e depois fomos enviados para um campo de concentração. Logo depois, fomos mandados para Batávia, e de lá para cá.’

“Sean não parou de se olhar no espelho o tempo todo, e o rosto dele era liso e macio como o de qualquer garota. De repente, tive a estranha sensação de que se havia esquecido completamente de mim. Não sabia o que fazer. Então, ele deu as costas ao espelho e olhou direto para mim, e estava de testa franzida, de modo estranho. Imediatamente percebi o quanto estava infeliz, portanto, perguntei-lhe se queria que me retirasse.