“ ‘Não, Peter. Quero que fique.’
“E então pegou uma bolsa de mulher que estava na penteadeira, tirou de lá um batom e começou a se pintar.
“Fiquei estupefato. ‘O que está fazendo!’, exclamei.
“ ‘Botando batom, Peter.’
“ ‘Pare com isso, Sean. Brincadeira tem hora. O espetáculo já acabou faz meia hora.’
“Mas ele continuou, e quando os lábios estavam perfeitamente pintados, empoou o nariz e escovou o cabelo, e por Deus se não era a bela garota de novo. Eu não podia acreditar. Ainda achava que estava fazendo comigo uma brincadeira de péssimo gosto.
“Ajeitou uma madeixa aqui e ali e depois recostou-se na cadeira, examinou-se no espelho e pareceu absolutamente satisfeito com o que via. Foi então que me viu pelo espelho, fitando-o, e deu uma risada. ‘O que há, Peter? Nunca esteve num camarim antes?’
“ ‘Já’, retruquei. ‘Num camarim feminino.’
“Ele me olhou durante longo tempo. A seguir, endireitou o négligée e cruzou as pernas. ‘Este é um camarim feminino’, falou.
“ ‘Pare com isso, Sean’, disse, ficando irritado. ‘Sou eu, Peter Marlowe. Estamos em Changi, está lembrado? O espetáculo acabou e agora tudo voltou ao normal.’
“ ‘Sim’, falou, perfeitamente calmo. ‘Tudo está normal.’
“Levei muito tempo até conseguir dizer alguma coisa. ‘Bem’, consegui, finalmente, falar, ‘não vai tirar essas roupas e essa porcaria da cara?’
“ ‘Gosto dessas roupas, Peter’, falou, ‘e agora sempre uso maquiagem.’ Levantou-se e abriu um armário, e por Deus se não estava cheio de sarongues, vestidos, calcinhas, sutiãs e coisas assim. Virou-se para mim, e estava perfeitamente calmo. ‘Estas são as únicas roupas que uso, hoje em dia’, falou. ‘Sou uma mulher.’
‘Deve estar maluco!’, exclamei.
“Sean veio para junto de mim e me fitou e não pude tirar da cabeça a idéia de que, sei lá como, ali estava uma moça... parecia uma moça, agia, falava e cheirava como uma moça. ‘Olhe, Peter’, falou, ‘sei que é difícil para você entender, mas mudei. Não sou mais homem, sou mulher.’
“‘Porra, você não é mais mulher do que eu!’, berrei. Mas aquilo não pareceu afetá-lo em, nada. Ficou ali parado, sorrindo feito uma madona, e depois falou:
‘ ‘Sou mulher, Peter.’ Tocou no meu braço, como faria uma moça, e disse: ‘Por favor, trate-me como mulher.’
“Alguma coisa pareceu partir-se dentro da minha cabeça. Agarrei-o pelo braço, arranquei-lhe o négligée dos ombros, rasguei o sutiã com enchimento que usava, e empurrei-o para diante do espelho.
‘Você diz que é mulher?’, berrei. ‘Olhe para você! Porra, cadê seus seios?’
“Mas Sean não ergueu os olhos. Ficou parado diante do espelho, de cabeça baixa, o cabelo caindo em cima do rosto. O négligée pendia do seu corpo, e ele estava nu até a cintura.
“‘Olhe-se bem, seu maldito pervertido!’, berrei. ‘Por Deus, você é um homem, e sempre será!’
“Ficou ali parado, sem nada dizer, e finalmente dei-me conta de que ele estava chorando. E então Rodrick e Frank Parrish entraram correndo e me afastaram rudemente do caminho, e Parrish envolveu Sean no négligée e tomou-o nos braços, e Sean apenas chorava sem parar.
“Frank ficava abraçando-o e dizendo: ‘Tudo bem, Sean, está tudo bem.’ Depois, olhou para mim e percebi que tinha vontade de me matar. ‘Dê o fora daqui, seu sacana nojento’, falou.
“Nem mesmo sei como saí dali... quando dei conta de mim, estava andando a esmo pelo campo, e começava a perceber que não tinha direito, direito algum de fazer o que fizera. Era uma loucura.
O rosto de Peter Marlowe era uma máscara de angústia.
— Voltei ao teatro. Precisava tentar fazer as pazes com Sean. Sua porta estava trancada, mas pensei tê-lo ouvido lá dentro. Bati e bati, mas ele não respondia, nem abria a porta, e fiquei zangado de novo e arrombei a porta. Queria pedir desculpas cara a cara, não através de uma porta fechada.
“Ele estava deitado na cama, com um corte grande no pulso esquerdo, e sangue por todo o canto. Fiz-lhe um torniquete e saí em busca do Dr. Ken-nedy, e de Rodrick e Frank. Sean parecia um cadáver, e não emitiu um som durante rodo o tempo em que o Dr. Kennedy costurava o corte de tesoura. Quando Kennedy acabou, Frank me disse: ‘Está satisfeito agora, seu filho da mãe nojento?’
“Não pude responder. Fiquei ali, calado, odiando-me.
“‘Dê o fora e não apareça mais’, disse Rodrick.
“Já ia saindo, quando ouvi Sean chamar-me, numa espécie de murmúrio fraco, débil. Virei-me e vi que olhava para mim, não com raiva, mas como se tivesse pena de mim. ‘Desculpe, Peter’, falou. ‘Não foi culpa sua.’
“‘Meu Deus, Sean’, consegui murmurar, ‘não lhe quis fazer nenhum mal.’
“‘Eu sei. Por favor, seja meu amigo, Peter.’ A seguir, virou-se para Parrish e Rodrick e disse: ‘Eu queria ir embora, mas agora’, e deu aquele seu sorriso maravilhoso, ‘estou muito contente por estar em casa de novo.’
O rosto de Peter Marlowe estava sem cor. O suor escorria por seu pescoço e peito. O Rei acendeu um Kooa.
Peter Marlowe alçou ligeiramente os ombros, desanimado, depois levantou-se e foi embora, imerso em seu remorso.
17
— Vamos, andem depressa — disse Peter Marlowe para os homens que bocejavam, enfileirados sem ânimo algum diante da choça. Passava um pouco do alvorecer, e o café da manhã já ficara na lembrança, e sua deficiência servia apenas para aumentar a irritação dos homens. Além disso, o dia longo e escaldante, no campo de pouso, os esperava. A não ser que tivessem sorte.
Corria o boato de que hoje um destacamento iria para o extremo oeste do campo de pouso, onde cresciam os coqueiros. Corria o boato de que três árvores iriam ser derrubadas. E o cerne de um coqueiro era não apenas comestível como muito nutritivo, e uma grande iguaria. Era chamado de “repolho de milionário”, pois um coqueiro inteiro tinha morrido para fornecê-lo. Juntamente com o repolho de milionário haveria também cocos. Mais do que o suficiente para um destacamento de 30 homens. Assim, tanto os oficiais quanto os soldados estavam tensos. O Sargento encarregado da choça aproximou-se de Peter Marlowe e fez continência.
— Estão todos aí, senhor. Vinte homens, eu inclusive.
— Deveríamos ter trinta.
— É, mas só temos vinte. O resto está doente, ou cortando lenha. Nada posso fazer.
— Está certo. Vamos seguir para o portão.
O Sargento botou os homens em marcha, e eles começaram a andar ao longo do muro da cadeia, negligentemente, para ir se juntar ao resto do destacamento do campo de pouso, perto do portão-barricada oeste. Peter Marlowe fez sinal para o Sargento e arrebanhou seus homens, dirigindo-os para a melhor posição... perto do fim da fila, onde seria mais provável que fossem escolhidos para derrubar as árvores. Quando os homens notaram que seu oficial os havia manobrado para a posição acertada, começaram a prestar atenção e se ajeitaram rapidamente.
Todos eles haviam enfiado as camisas velhas nos sacos-de-bóia. Os sacos-de-bóia eram uma instituição, e existiam nas mais diversas formas. Às vezes eram sacos de provisões regulamentares, às vezes malas, às vezes cestas de palha, às vezes sacolas, às vezes um pano e um pedaço de pau, às vezes um pedaço de fazenda. Mas todos os homens carregavam um recipiente para o provável saque. Num destacamento de trabalho sempre havia qualquer coisa a saquear, e se não fosse um repolho de milionário ou um coco, poderia ser um pedaço de madeira lançado à costa pelo mar, madeira para lenha, cascas de coco, bananas, nozes, raízes comestíveis, folhas de muitos tipos, ou até mesmo mamão.
A maioria dos homens usava tamancos de madeira ou de borracha de pneu. Alguns estavam com sapatos com a parte dos dedos cortada fora. E outros usavam botas. Peter Marlowe calçava as botas do Mac. Estavam apertadas, mas, para uma marcha de quase cinco quilômetros e um dia de trabalho, eram melhores do que os tamancos.