A fila indiana de homens começou a marchar através do portão oeste, um oficial responsável por cada companhia. Na frente ia um grupo de coreanos, e no fim da fila um único guarda coreano.
O grupo de Peter Marlowe aguardou perto do final o espaço para unir-se à marcha. Ele esperava ansioso a jornada e a perspectiva das árvores. Ajeitou a camisa mais confortavelmente na tira do bornal, e ajustou o cantil... não o cantil, pois levá-lo num destacamento de trabalho seria perigoso. Nunca se podia saber quando um guarda, ou outra pessoa qualquer, pediria um gole.
Finalmente, chegou a hora de se pôr a caminho, e ele e seus homens começaram a caminhar para o portão. Ao passarem pela casa da guarda, bateram continência, e o Sargento japonês baixo e atarracado ficou de pé na varanda e retribuiu a continência, empertigado. Peter Marlowe deu o número dos seus homens ao outro guarda, que o verificou junto ao total já registrado.
E então estavam fora do campo, pisando na estrada de macadame e alcatrão. Ela se enrascava suavemente, por entre colinas baixas e vales, depois cortava um seringal. As seringueiras estavam malcuidadas e não haviam sido sangradas. Peter Marlowe achou aquilo estranho, pois a borracha valia uma fortuna e era alimento vital para a guerra.
— Alô, Duncan — disse, quando o Capitão Duncan e seu grupo começaram a passar. Marchou em cadência ao lado de Duncan, sempre de olho no seu grupo, que era logo o seguinte.
— Não é ótimo poder saber as notícias de novo? — comentou Duncan.
— É — replicou, automaticamente — se for verdade.
— Devo admitir que parece bom demais para ser verdade.
Peter Marlowe gostava de Duncan. Era um escocês pequeno, ruivo e de meia-idade. Nada parecia abatê-lo. Sempre tinha um sorriso e uma palavra otimista. Peter Marlowe tinha a sensação de que havia algo diferente nele, hoje. O que seria?
Duncan notou sua curiosidade e fez uma careta para mostrar a dentadura nova.
— Ah, então é isso — disse Peter Marlowe. — Estava-me perguntando o que havia de diferente.
— Que tal estão?
— Bem, é melhor do que nada.
— Mas que belo comentário. Achei que estão muito bons.
— Não consigo acostumar-me aos dentes de alumínio. São muito esquisitos.
— Comi o pão que o diabo amassou para arrancá-los. O pão que o diabo amassou!
— Graças a Deus meus dentes estão bem. Precisei obturá-los, no ano passado. Um negror. Você provavelmente agiu bem em tirar todos os seus. Quantos...
— Dezoito — falou Duncan, raivosamente. — Dá vontade de agente cuspir sangue. Mas estavam completamente podres. O dentista falou que tinha algo a ver com a água, a falta de mastigação, dieta de arroz e falta de cálcio. Mas por Deus, sinto-me ótimo com esta dentadura. — Mastigou em seco uma ou duas vezes, refletidamente, depois continuou: — Esses dentistas são muito inteligentes, fazendo esses dentes postiços. Um bocado de engenhosidade. Claro que tenho que admitir que não deixa de ser um choque, não ter os dentes brancos. Mas quanto ao conforto, ora, meu rapaz, há anos que não me sinto tão bem, brancos ou de alumínio, não faz diferença alguma. Sempre tive problemas com os dentes. Eles que vão para o diabo, afinal.
Mais à frente, a coluna de homens chegou para o lado da estrada para deixar passar um ônibus. Era um velharia, bufava e resfolegava, e tinha lugar para 25 passageiros. Mas lá dentro havia quase 60 homens, mulheres e crianças, e do lado de fora havia mais 10 pingentes. No topo do ônibus empilhavam-se gaiolas com galinhas, bagagens e esteiras. Enquanto o asmático ônibus ia passando, os nativos olhavam com curiosidade para os homens, e estes fitavam os gradeados de galinhas semimortas, e esperavam que o maldito ônibus quebrasse ou caísse numa vala, para que pudessem ajudar a empurrá-lo para fora da vala, e soltar cerca de uma dúzia de galinhas. Mas hoje o ônibus passou direto, e muita gente praguejou.
Peter Marlowe seguia ao lado de Duncan, que continuava a tagarelar sobre os dentes e a mostrá-los num amplo sorriso. Mas o sorriso era um negror, grotesco.
Atrás deles um guarda coreano, que se arrastava letargicamente, berrou com um homem que saiu da fila e correu para o lado da estrada, mas o homem simplesmente arriou a calça, evacuou rapidamente e gritou “Sakit ma-rah “ (disenteria), portanto o guarda deu de ombros, pegou um cigarro e acendeu-o enquanto esperava, e não demorou para que o homem estivesse de volta á fila.
— Peter — disse Duncan, baixinho — dê-me cobertura.
Peter Marlowe olhou para frente. A uns 20 metros da estrada, numa trilhazinha perto da vala de escoamento de chuvas, estavam a mulher e a filha de Duncan. Ming Duncan era chinesa de Cingapura. Como era oriental, não foi colocada num campo junto com as mulheres e filhos dos outros prisioneiros, mas vivia em liberdade nos arredores da cidade.. A menina era bonita como a mãe, alta para a idade, e tinha um rosto que não era talhado para suspiros. Uma vez por semana, as duas passavam por ali, “por acaso”, para que
Duncan pudesse vê-las. Ele sempre dizia que, enquanto pudesse vê-las, Changi não era tão ruim.
Peter Marlowe meteu-se entre o guarda e Duncan, ocultando-o, e deixou que Duncan voltasse para junto dos seus homens.
Enquanto a coluna passava, mãe e filha não fizeram nenhum sinal. Quando Duncan passou, os olhos delas encontraram-se com os dele, por um breve instante, e depois viram que ele largara um pedacinho de papel à beira da estrada, mas elas continuaram a caminhar, e então Duncan já tinha passado e se perdera na massa de homens. Mas ele sabia que elas haviam visto o papelzinho, e sabia que continuariam a caminhar até que todos os homens e guardas tivessem desaparecido. Então, voltariam e achariam o papel e leriam o que estava escrito, e este pensamento deixava Duncan feliz. Eu as amo, sinto sua falta, e as duas são a minha vida, escrevera ele. O recado era sempre o mesmo, mas era sempre novo, para ele e para elas, pois as palavras eram escritas a cada nova vez, e valiam a pena serem repetidas, vezes sem conta. Para sempre.
— Não acha que ela está com boa aparência? — perguntou Duncan, juntando-se a Peter Marlowe, de novo.
— Maravilhosa, você tem muita sorte. E Mordeen está ficando uma beleza.
— É, uma beleza de verdade. Vai fazer seis anos em setembro. — A felicidade desapareceu, e Duncan ficou calado. — Como gostaria que esta guerra acabasse — falou, em seguida.
— Agora não vai demorar muito.
— Quando você se casar, Peter, case-se com uma chinesa. São as melhores “mulheres do mundo. — Duncan já dissera a mesma coisa muitas vezes. — Sei que é duro ficar no ostracismo, e é difícil para os filhos... mas morrerei contente se morrer nos braços dela. — Deu um suspiro. — Mas você não me dará ouvidos. Casará com uma inglesa e pensará que está vivendo. Que desperdício! Eu sei. Já experimentei os dois tipos.
— Tenho que esperar para ver, não é, Duncan? — Peter Marlowe riu. A seguir, acelerou o passo, para se posicionar à frente dos seus homens. — Até logo mais.
— Obrigado, Peter — disse Duncan, enquanto ele se afastava.
Estavam quase chegando à pista de pouso. Logo adiante achava-se um grupo de guardas esperando para levar os grupos de homens para as diversas áreas de trabalho. Ao lado dos guardas havia enxadões, pás e picaretas. Muitos dos homens já cruzavam o campo de pouso, sob guarda.
Peter Marlowe olhou para o oeste. Um dos grupos já se dirigia para as árvores. Que merda!
Deteve seus homens e fez continência para os guardas, notando que um deles era Torusumi.
Este reconheceu Peter Marlowe, e sorriu:
— Tabe!
— Tabe — replicou Peter Marlowe, embaraçado pela camaradagem óbvia de Torusumi.
— Levar-vos-ei, e aos vossos homens — disse Torusumi, fazendo sinal para as ferramentas.