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— Agradeço-vos — disse Peter Marlowe, e fez sinal para o Sargento. — Temos que ir com ele.

— Esse cretino trabalha na zona leste — falou o Sargento, irritado. — Mas que azar!

— Eu sei — replicou Peter Marlowe, igualmente irritado e, enquanto os homens se adiantavam para pegar as ferramentas, disse para Torusumi. — Espero que hoje nos leveis para o lado oeste. Lá é mais fresco.

— Temos que ir para o leste. Sei que é mais fresco no lado oeste, mas sempre me mandam para o leste.

Peter Marlowe decidiu arriscar-se.

— Talvez devêsseis pedir um melhor tratamento. — Era perigoso fazer uma sugestão a um coreano ou a um japonês. Torusumi observou-o com frieza, depois virou-se abruptamente e caminhou até Azumi, um Cabo japonês, que estava num canto, de cara fechada. Azumi era conhecido por seu mau gênio.

Apreensivamente, Peter Marlowe viu Torusumi inclinar-se e começar a falar rápida e asperamente em japonês. E sentiu o olhar de Azumi sobre si.

Ao lado de Peter Marlowe, o Sargento também observava ansiosamente a conversa.

— O que foi que disse, senhor?

— Disse que seria uma boa idéia se fôssemos para a extremidade oeste, para variar.

O Sargento fez uma careta. Se um oficial era esbofeteado, o Sargento também o era, automaticamente.

— Está-se arriscando... — Interrompeu-se abruptamente ao ver que Azumi vinha na direção deles, acompanhado por Torusumi, dois passos atrás, respeitosamente.

Azumi, um homem pequeno, de pernas arqueadas, parou a cinco passos de Peter Marlowe, depois ficou olhando na cara dele por uns 10 segundos. Peter Marlowe preparou-se para a bofetada que com certeza viria. Mas não veio. Ao invés disso, Azumi sorriu de repente, mostrou os dentes de ouro, chupou o ar entredentes e apanhou um maço de cigarros. Ofereceu um deles a Peter Marlowe e disse algo em japonês que Peter Marlowe não compreendeu, mas percebeu Shoko-san, e ficou ainda mais espantado, pois nunca fora chamado de Shoko-san antes. “Shoko”é “oficial”e “san” quer dizer “senhor”, e ser chamado de Sr. Oficial por um filho da mãe malvado como Azumi era um alto elogio.

— Arignato — disse Peter Marlowe, aceitando o fogo. “Obrigado” era só o que sabia de japonês, além de “À vontade”, “Sentido”, “Marcha rápida”, “Continência” e “Venha cá, seu filho da mãe branco”. Mandou que o Sargento, obviamente intrigado, fosse formar os homens.

— Sim, senhor — disse o Sargento, satisfeito de ter uma desculpa para afastar-se dali.

Então Azumi deu uma ordem rápida em japonês a Torusumi, e este também se adiantou e disse “Hotchatore”, que quer dizer “Marcha rápida”. Quando já tinham cruzado metade do campo de pouso, e estavam fora do alcance dos ouvidos de Azumi, Torusumi sorriu para Peter Marlowe.

— Vamos para a extremidade oeste, hoje. E vamos derrubar as árvores.

— Vamos? Não entendi.

— É simples. Contei a Azumi-san que sois o intérprete do Rei, e que achei que ele devia saber disso, já que fica com dez por cento dos nossos lucros. Assim — Torusumi deu de ombros — é claro que temos que cuidar um do outro. E talvez possamos discutir uns negócios, durante o dia.

Peter Marlowe ordenou debilmente a seus homens que parassem.

— O que foi, senhor? — perguntou o Sargento.

— Nada, Sargento. Ouçam, todos! Sem barulho. As árvores são nossas.

— Puta que o pariu, que maravilha. Houve um começo de vivas, logo abafado.

Quando chegaram às três árvores, Spence e seu grupo de trabalho já estavam lá, com o guarda deles. Torusumi acercou-se do guarda e tiveram o maior bate-boca em coreano. Mas Spence e seus homens irados foram postos em fila e levados embora pelo furioso guarda.

— Que diabo, por que ficou com as árvores, seu sacana? Chegamos aqui primeiro! — gritou Spence.

— Pois é — disse Peter Marlowe, solidariamente. Sabia muito bem como Spence se sentia.

Torusumi fez sinal para Peter Marlowe e veio sentar-se na sombra, encostando o fuzil a uma árvore.

— Ponde alguém de vigia — bocejou. — Sereis o responsável, se eu for pego dormindo por algum japonês peçonhento ou coreano.

— Podeis dormir descansado, confiando em mim — replicou Peter Marlowe.

— Acordai-me na hora de comer.

— É o que será feito.

Peter Marlowe colocou vigias nos pontos principais, depois liderou o ataque furioso às árvores. Queria as árvores derrubadas e retalhadas antes que alguém mudasse as ordens.

Ao meio-dia, as três árvores estavam no chão, e o repolho de milionário tinha sido retirado delas. Os homens estavam exaustos e mordidos de formiga, mas não se importavam, pois o saque do dia fora imenso. Havia dois cocos por cabeça para levar para casa, e mais 15 de reserva. Peter Marlowe disse que guardariam cinco para Torusumi e rachariam os outros dez no almoço. Dividiu dois repolhos de milionário e falou que o outro devia ser guardado para Torusumi e Azumi, para o caso de o quererem. Se não quisessem, também ele seria dividido.

Peter Marlowe estava encostado a uma árvore, ofegando de cansaço, quando um súbito assobio, avisando que havia perigo, fez com que se pusesse rapidamente de pé e corresse para junto de Torusumi, sacudindo-o para que acordasse.

— Um guarda, Torusumi-san, depressa.

Torusumi ficou de pé rapidamente e ajeitou o uniforme.

— Ótimo. Volte para as árvores e pareça ocupado — falou, suavemente. A seguir Torusumi foi andando, naturalmente, para a clareira. Quando reconheceu o guarda, descontraiu-se, fez sinal para o homem vir para a sombra, e ambos encostaram os fuzis nas árvores, recostaram-se e começaram a fumar.

— Shoko-san — chamou Torusumi. — Tranqüilize-se, é só o meu amigo. Peter Marlowe sorriu, e depois chamou:

— Ei, Sargento. Abra dois dos melhores cocos frescos e leve-os para os guardas. — Ele próprio não podia levá-los, não ficaria bem.

O Sargento escolheu os dois com cuidado, e cortou fora as tampas. A casca externa era castanho-esverdeada, tinha cinco centímetros de espessura e era resistente. A polpa branca que forrava o interior do fruto era bem macia, dava para se comer de colher, se a gente tivesse vontade, e a água era fresca e doce.

— Smith — chamou.

— Pronto, Sargento.

— Leve isso aqui para aqueles malditos amarelos.

— Por que eu? Sempre tendo que fazer mais do que...

— Trate de ir-se mandando pra lá.

Smith, um cockney baixo e miúdo, ficou de pé resmungando, e obedeceu.

Torusumi e o outro guarda beberam com gosto. Depois, Torusumi dirigiu-se a Peter Marlowe:

— Nós vos agradecemos.

— A paz esteja convosco — replicou Peter Marlowe.

Torusumi tirou do bolso um maço amassado de Kooas e entregou-os a Peter Marlowe.

— Agradeço-vos — disse Peter Marlowe.

— A paz esteja convosco — replicou, delicadamente, Torusumi.

Havia sete cigarros. Os homens insistiram para que Peter Marlowe ficasse com dois. Os outros cinco foram divididos, um para cada quatro homens, e com o consentimento geral, seriam fumados após o almoço.

Este se constituía de arroz, água de peixe e chá fraco. Peter Marlowe aceitou apenas o arroz, e misturou nele um pouquinho de blachang. Como sobremesa, saboreou sua parte do coco. Depois, recostou-se, cansado, no toco de uma das árvores, e ficou olhando para o campo de pouso, esperando acabar a hora do almoço.

Para o sul havia uma colina, e cercando a colina milhares de cules chineses. Todos carregavam dois cestos de bambu numa vara de bambu, sobre os ombros; subiam a colina, enchiam os dois cestos de terra, desciam a colina e esvaziavam os cestos. O movimento deles era perpétuo, e quase se podia ver a colina ir desaparecendo. Sob o Sol escaldante.

Há quase dois anos que Peter Marlowe vinha ao campo de pouso quatro, cinco vezes por semana. Quando ele e Larkin viram pela primeira vez o local, cheio de morros, pântanos e areia, tinham dado risada e afirmado que aquilo nunca viraria um campo de pouso. Afinal de contas, os chineses não tinham tratores ou buldôzeres. Mas agora, dois anos depois, já havia uma pista funcionando, e a pista grande, para os bombardeiros, estava quase pronta.