Peter Marlowe admirou-se da paciência de todas aquelas formigas-operá-rias, e se perguntou o que suas mãos não seriam capazes de fazer, se pudessem utilizar equipamentos modernos.
Seus olhos se fecharam e ele dormiu.
— Ewart! Cadê o Marlowe? — perguntou Grey, secamente.
— Num grupo de trabalho no campo de pouso. Por quê?
— Diga a ele para se apresentar a mim no minuto em que voltar.
— Onde você vai estar?
— Como posso saber, que diabo! Basta dizer-lhe que me procure. Quando Grey saiu da choça, sentiu um espasmo crescendo e começou a andar depressa na direção das latrinas. Antes de chegar ao meio do caminho, o espasmo chegou ao auge, e um pouco do muco sanguinolento saiu de dentro dele, ensopando ainda mais o absorvente de grama que usava na calça. Atormentado e muito fraco, recostou-se contra uma choça, para recobrar as forças.
Grey sabia que estava na hora de trocar o absorvente de novo, pela quarta vez, hoje, mas não se importava. Pelo menos, o absorvente era higiênico, e poupava sua calça, a única que possuía. E sem o absorvente, não podia andar por aí. Que coisa repulsiva, pensou, parece absorvente feminino. Que merda! Mas, pelo menos, era eficiente.
Deveria ter avisado que estava doente, hoje, mas não podia, não quando tinha conseguido botar a mão no Marlowe. Ah, não, isso era bom demais para perder, e ele queria ver a cara do Marlowe quando lhe contasse. Valia a dor saber que ele estava ferrado. Aquele filho da mãe sujo, safado. E através do Marlowe, o Rei ia suar um pouco. Dentro de dois dias, teria ambos nas mãos. Pois sabia do diamante e sabia que o contato seria feito na semana seguinte. Não sabia exatamente quando, mas lhe diriam. Você é esperto, disse consigo mesmo, esperto de ter um sistema tão eficiente.
Foi até a sua choça-cadeia e mandou o PM esperar lá fora. Trocou o absorvente e esfregou as mãos, esperando lavar a mancha, a mancha invisível.
Sentindo-se melhor, Grey forçou-se a descer os degraus da varanda e dirigiu-se à choça de suprimentos. Hoje iria fazer a inspeção semanal dos suprimentos de arroz e alimentos. Os suprimentos sempre conferiam, pois o Tenente-Coronel Jones era eficiente e dedicado, e sempre pesava a ração diária de arroz pessoalmente, em público. Portanto, nunca havia chance de trapaça.
Grey admirava o Tenente-Coronel Jones e gostava do jeito que tinha de fazer tudo ele mesmo... assim, evitava qualquer deslize. Invejava-o, também, pois era muito moço para ser Tenente-Coronel. Só 33 anos. É de dar engulhos, pensou, ele é um Tenente-Coronel e você, apenas Tenente... e a única diferença é ter estado na função certa, na hora certa. Apesar de tudo, você está-se saindo bem, e fazendo amigos que o apoiarão quando a guerra acabar. Claro, Jones era um soldado civil, portanto não iria continuar nas Forças Armadas depois do fim da guerra. Mas Jones era amigão de Samson, e também de Smedly-Taylor, chefe de Grey, e jogava bridge com o Comandante do Campo. Filho da mãe de sorte. Jogo bridge tão bem quanto você, mas nunca me convidam, e trabalho mais do que qualquer um.
Quando Grey chegou à choça de suprimentos, ainda se estava processando a pesagem do arroz do dia.
— Bom-dia, Grey — disse Jones. — Já vou atendê-lo.
Era um homem alto, bonitão, bem-educado, quieto. Tinha um rosto de garoto, e o apelidaram de o Garoto Coronel.
— Obrigado, senhor. — Grey ficou olhando enquanto os representantes de uma cozinha — um Sargento e um soldado — vieram para junto da balança. Cada cozinha mandava dois homens virem apanhar sua ração (um para ficar de olho no outro). A contagem dos homens apresentada pelos representantes era verificada, e o arroz pesado. A seguir, rubricava-se a folha de contagem.
Quando a última cozinha foi servida, o que restava no saco de arroz foi levado para dentro da choça pelo Sargento-Intendente Blakely. Grey entrou na choça atrás do Tenente-Coronel Jones e escutou, distraído, os números que este lhe apresentava, com voz cansada:
— Nove mil, quatrocentos e oitenta e três oficiais e soldados. Hoje foram entregues dois mil, trezentos e setenta e três quartos de libras de arroz, quatro onças por homem. Aproximadamente doze sacos. — Fez um sinal para os sacos vazios de juta. Grey ficou vendo Jones contá-los, sabendo que seriam 12.
Um dos sacos tinha dez libras a menos, o que não era incomum, e restam vinte e um quarto de libras.
O Tenente-Coronel foi pegar o saco quase vazio e colocou-o na balança que o Sargento-Intendente Blakely trouxera para dentro da choça. Colocou os pesos no outro prato, marcando 20 e 1/4 de libras, cerca de 10 quilos. O saco levantou-se e ficou equilibrado.
— Confere — sorriu, satisfeito, olhando para Grey.
Tudo o mais — uma costela de boi, 16 barris de peixe seco, 20 quilos de gula malacca, cinco dúzias de ovos, 25 quilos de sal e sacos de grãos de pimenta e pimenta-malagueta seca — conferia perfeitamente, também.
Grey assinou a tabela da Intendência, e fez uma careta ao sentir novo espasmo.
— Disenteria? — perguntou Jones, preocupado.
— Só um pouquinho, senhor. — Grey correu os olhos pela semi-escuridão, depois bateu continência. — Obrigado, senhor. Até para a semana.
— Obrigado, Tenente.
Ao sair da choça, Grey foi acometido de novo espasmo e tropeçou na balança, derrubando-a e espalhando os pesos pelo chão de terra batida.
— Desculpe — pediu Grey — foi muito descuido de minha parte. Ergueu a balança do chio, e começou a tatear em busca dos pesos, mas
Jones e Blakely já estavam de joelhos, apanhando-os.
— Não se incomode, Grey — disse Jones; depois, falou asperamente para Blakely: — Já lhe falei para botar a balança no canto.
Mas Grey já pegara do chão um peso de duas libras. Não podia acreditar no que via, e levou o peso para perto da porta, inspecionando-o bem junto da luz, para se certificar de que seus olhos não o estavam enganando. Não estavam. Na base do peso de ferro havia um buraquinho cheio até a borda com barro. Ele tirou o barro com a ponta da unha, o rosto cor de cera.
— O que foi, Grey? — indagou Jones.
— Adulteraram este peso.
As palavras eram uma acusação.
— O quê? Impossível! — Jones acercou-se de Grey. — Deixe ver. — Durante uma eternidade, ele o ficou examinando, depois sorriu. — Não o adulteraram. Este é simplesmente um furo corretivo. O peso provavelmente era uma fração mais pesado do que devia ser. — Deu um riso débil. — Meu Deus, por um momento você me deixou preocupado.
Grey foi rapidamente até onde estavam os outros pesos e apanhou mais um. Também este apresentava um furo.
— Santo Deus! Foram todos adulterados.
— Isso é um absurdo — falou Jones. — São apenas furos cor...
— Sei o bastante sobre pesos e medidas para saber que não são permitidos furos. Não furos corretivos. Se o peso estiver errado, não entra em circulação.
Virou-se violentamente para Blakely, que se encolhia junto à porta.
— O que sabe sobre isso?
— Nada, senhor — disse Blakely, apavorado.
— É melhor me contar!
— Não sei de nada, senhor, juro...
— Muito bem, Blakely. Sabe o que vou fazer? Vou sair daqui e ir contando a todo mundo que encontrar pelo caminho sobre você, a todo mundo... e vou mostrar-lhes este peso, e antes de poder dar queixa ao Coronel Smedly-Taylor, você será feito em pedaços. — Grey dirigiu-se para a porta. ‘
— Espere, senhor — falou Blakely, com voz entrecortada. — Vou contar-lhe. Não fui eu, foi o Coronel. Foi ele que me obrigou a fazer isso; pegou-me surripiando um tiquinho de arroz e jurou que me denunciaria se eu não o ajudasse...
— Cale-se, seu idiota! — exclamou Jones. Depois, num tom de voz mais calmo, disse para Grey. — Este idiota está querendo envolver-me. Nunca soube de nada...