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— Não ligue para o que ele diz, senhor — interrompeu Blakely, quase balbuciando. — Sempre pesa o arroz pessoalmente. Sempre. E tem a chave do cofre em que guarda os pesos. O senhor mesmo sabe como ele faz tudo sozinho. E qualquer um que lide com os pesos tem que olhar para a base, de vez em quando. Não importa que os furos estejam bem camuflados, não dá para deixar de notá-los. E isso já vem acontecendo há um ano, ou mais.

— Cale-se, Blakely! — berrou Jones. — Cale-se. Silêncio.

— Coronel, há quanto tempo esses pesos vêm sendo usados? — perguntou Grey, em seguida.

— Não sei.

— Um ano? Dois anos?

— Porra, como vou saber? Se os pesos estão viciados, não tenho nada a ver com isso.

— Mas o senhor tem a chave e os mantém trancados?

— É, mas isso não quer dizer...

— Já olhou alguma vez para a base dos pesos?

— Não, mas...

— Isso é um tanto estranho, não acha? — continuou Grey, implacável.

— Não é, não, e não vou ser interrogado por...

— É melhor que esteja dizendo a verdade, para seu próprio bem.

— Está-me ameaçando, Tenente? Vou levá-lo à corte marcial...

— Duvido, Coronel. Estou aqui legalmente e os pesos foram adulterados, não foram?

— Escute aqui, Grey...

— Não foram? — Grey levou o peso para perto do rosto exangue de Jones, que não tinha mais ar de garoto.

— Eu... suponho... que sim — respondeu Jones — mas isso não significa...

— Significa que Blakely ou você é o responsável. Quem sabe os dois. Sã”o os dois únicos que têm acesso a este lugar. Os pesos estão marcando menos, e um de vocês, ou ambos, estão ficando com a ração extra.

— Não fui eu, senhor — choramingou Blakely. — Só recebo meio quilo em cada dez...

— Mentiroso! — berrou Jones.

— Não sou, não. Disse ao senhor mais de mil vezes que nos íamos dar mal. — Virou-se para Grey, torcendo as mãos. — Por favor, senhor, por favor, não diga nada. Os homens nos fariam em pedaços.

— Seu filho da mãe, espero que façam. — Grey estava contente de ter encontrado os pesos falsos. Sim, estava muito contente. Jones pegou sua caixa de cigarros e começou a preparar um.

— Quer um? — ofereceu, o rosto de garoto flácido e estranhamente doentio, sorrindo especulativamente.

— Não, obrigado. — Há quatro dias Grey não punha um cigarro na boca,’ e estava com muita vontade.

— Podemos dar um jeito nisso — falou Jones, com o jeito de garoto e a boa educação retornando. — Talvez alguém tenha adulterado os pesos. Mas a quantidade é insignificante. Posso facilmente arranjar outros pesos, certos...

— Então admite que estes são viciados?

— Grey, estou só dizendo... — Jones se interrompeu. — Saia, Blakely. Espere lá fora.

Imediatamente, Blakely voltou-se para a porta.

— Fique onde está, Blakely — disse Grey. A seguir, voltou a olhar para Jones, com ar respeitoso. — Não há necessidade de ele sair, há, senhor?

Jones examinou-o em meio à fumaça, depois falou:

— Não. As paredes não têm ouvidos. Muito bem. Receberá meio quilo de arroz por semana.

— Só isso?

— Digamos um quilo por semana, e meio quilo de peixe seco. Uma vez por semana.

— Nada de açúcar? Nem de ovos?

— Esses vão para o hospital, sabe disso.

Jones ficou esperando, Grey ficou esperando, e Blakely soluçava, atrás. Então, Grey começou a se retirar, guardando o peso no bolso.

— Grey, espere um minuto. — Jones apanhou dois ovos, oferecendo-os a ele. — Tome, vai ganhar um por semana, junto com o resto das provisões. E um pouco de açúcar.

— Vou dizer-lhe o que vou fazer, Coronel. Vou direto ao Coronel Smedly-Taylor, contar-lhe o que me falou e mostrar-lhe os pesos... e se houver um grupo de linchamento, e espero que haja, vou estar lá também, e vou empurrá-los para dentro das fossas, mas não muito depressa, porque quero vê-los morrer. Quero ouvi-los gritar, e vê-los morrer, por um longo tempo. Vocês dois.

E então saiu da choça para o Sol, e o calor do dia o atingiu e a dor rasgou-lhe as entranhas. Mas forçou-se a andar e começou a descer o morro devagar.

Jones e Blakely, parados à porta da choça de provisões, acompanharam sua trajetória. E ambos estavam apavorados.

— Ah, Jesus, senhor, o que vai acontecer? — choramingava Blakely. — Vão nos enforcar...

Jones puxou-o com violência para dentro da choça, bateu a porta e deu-lhe um bofetão, com as costas da mio.

— Cale a boca!

Blakely balbuciava, largado no chão, com as lágrimas correndo pelo rosto, e Jones levantou-o com brutalidade, dando-lhe novo bofetão.

— Não me bata, não tem o direito de me...

— Cale-se e escute. — Jones sacudiu-o de novo. — Escute, seu maldito. Já lhe disse mil vezes para usar os pesos verdadeiros no dia de inspeção de Grey, seu incompetente dos diabos. Pare de choramingar e escute. Primeiro, tem que negar o que foi dito. Está entendendo? Não fiz nenhuma oferta para Grey, entendeu?

— Mas, senhor...

— Tem que negar, entendeu?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Ambos negaremos, e se você ficar firme, tirarei a gente dessa confusão.

— Será que pode? Será que pode, senhor?

— Posso, se você negar. Segundo, não sabe nada dos pesos, e nem eu. Compreendeu?

— Mas nós somos os únicos...

— Compreendeu?

— Sim, senhor.

— Terceiro. Nada aconteceu aqui, exceto que Grey descobriu os falsos pesos e você e eu ficamos tão espantados quanto ele. Compreendeu?

— Mas...

— Agora, conte-me o que se passou. Que merda, conte! — berrou Jones, debruçando-se sobre ele.

— Nós... estávamos acabando a verificação, e então... Grey caiu sobre a balança e os pesos foram derrubados e... e então descobrimos que os pesos eram falsos. Certo, senhor?

— O que aconteceu depois?

— Bem, senhor. — Blakely pensou por um momento, depois seu rosto se iluminou. — Grey nos perguntou sobre os pesos, e eu nunca percebera que eram falsos, e o senhor ficou igualmente surpreso. Depois, o Grey foi embora.

Jones ofereceu-lhe um pouco de fumo.

— Esqueceu o que Grey disse? Não se lembra? Ele disse: “Se me derem um pouco de arroz por fora, meio quilo por semana, e um ovo ou dois, não apresentarei queixa.” E então mandei que ele fosse para o diabo, que eu mesmo relataria o caso dos pesos falsos, e daria queixa dele, também, e eu estava desnorteado de preocupação com os pesos falsos. Como teriam chegado aqui? Quem seria o cafajeste?

Os olhinhos de Blakely ficaram cheios de admiração.

— É, sim, senhor, lembro-me claramente. Ele pediu meio quilo de arroz e um ou dois ovos. Exatamente como o senhor contou.

— Então não se esqueça, seu cretino! Se você tivesse usado os pesos certos e ficado de boca calada, não estaríamos nesta situação. Não me falhe de novo, ou ponho a culpa em você. Será sua palavra contra a minha.

— Não falharei, senhor, prometo...

— De qualquer modo, é a nossa palavra contra a de Grey. Portanto, não há com que se preocupar. Se você ficar de cabeça fria e não esquecer!

— Não vou esquecer, senhor, não vou.

— Ótimo.

Jones trancou o cofre e a porta da frente da cabana e foi embora.

Jones é vivo, Blakely tentou convencer-se, vai-nos tirar dessa. Agora que o choque de ter sido descoberto diminuíra, estava-se sentindo mais seguro. É, e o Jones vai ter que salvar o próprio pescoço para salvar o meu. É, Blakely, meu velho, você também é esperto, esperto o bastante para se certificar de que tem como enrascá-lo, se tentar atraiçoá-lo.

O Coronel Smedly-Taylor inspecionou o peso, minuciosamente.

— Espantoso! — exclamou. — Não posso acreditar. — Ergueu os olhos, vivamente. — Está falando sério, quando diz que o Tenente-Coronel Jones ofereceu-lhe subornai Com provisões do campo?