— Sim, senhor. Foi exatamente como lhe contei.
Smedly-Taylor sentou-se na cama, no pequeno bangalô, e enxugou o suor, pois estava quente e abafado.
— Não acredito — repetiu, balançando a cabeça.
— Eles dois eram os únicos que tinham acesso aos pesos...
— Eu sei. Não é que duvide de sua palavra, Grey, é só que, bem, é tão incrível.
Smedly-Taylor ficou calado durante longo tempo, e Grey esperou pacientemente.
— Grey. — O Coronel ainda examinava o peso e o furinho enquanto falava. — Preciso pensar no que vou fazer quanto a isso. A... história... toda é um perigo. Não deve mencionar isso a ninguém, ninguém, está-me ouvindo?
— Sim, senhor.
— Meu Deus, se é como você diz, bem, esses homens seriam massacrados. — Smedly-Taylor sacudiu a cabeça de novo. — Que dois homens... que o Tenente-Coronel Jones pudesse... as rações do campo. E todos os pesos são falsos?
— Sim, senhor.
— Quanto acha que pesam a menos, no todo?
— Não sei, mas calculo uma libra em cada quatrocentas libras. Imagino que estivessem ficando com cerca de dois quilos de arroz por dia. Sem contar o peixe seco ou os ovos. Talvez haja outros envolvidos nisso... teria que haver. Não podiam cozinhar o arroz sem perceber. Provavelmente uma das cozinhas também está metida nisso.
— Meu Deus! — Smedly-Taylor levantou-se e começou a andar de um lado para outro. — Obrigado, Grey, fez um belo trabalho. Providenciarei para que conste de sua folha de serviços. — Estendeu a mão. — Um belo trabalho, Grey.
Grey apertou a mão, com firmeza.
— Obrigado, senhor. Só lamento não ter descoberto antes.
— Não diga uma só palavra a ninguém. É uma ordem!
— Compreendo. — Bateu continência e saiu, com os pés mal tocando o solo.
Imagine só o Smedly-Taylor dizendo: “Providenciarei para que conste de sua folha de serviços!” Quem sabe o promoveriam, pensou Grey, com súbita esperança. Houvera algumas promoções no campo, e para ele seria uma boa o posto mais alto. Capitão Grey... como soava bem. Capitão Grey!
A tarde agora se arrastava. Sem trabalho, era difícil para Peter Marlowe manter os homens em pé. Então, organizou grupos de pilhagem, e ficava a toda hora trocando os vigias, pois Torusumi dormia de novo. O calor estava bárbaro, o ar seco, e todos xingavam o Sol e rezavam pela chegada da noite.
Finalmente, Torusumi acordou, fez suas necessidades na vegetação rasteira, pegou o fuzil e começou a andar para cima e para baixo, a fim de afastar o sono. Berrou com alguns dos homens que cochilavam e gritou para Peter Marlowe:
— Suplico-vos que mandeis esses porcos circularem e trabalharem, ou ao menos fazei com que pareça que estão trabalhando.
Peter Marlowe se aproximou:
— Lamento muito que estejais aborrecido. — A seguir, virou-se para o Sargento. — Pelo amor de Deus, você sabia que tinha que ficar de olho nele.
Mande esses malditos idiotas se levantarem e cavarem um buraco ou derrubarem aquela árvore ou cortarem umas folhas de palmeira, seu cretino!
O Sargento pediu muitas desculpas, e num instantinho tinha botado os homens para circular, fingindo que estavam ocupados. Sabiam fazê-lo com arte, a essa altura.
Algumas cascas de coco foram mudadas de lugar, algumas folhas empilhadas, alguns cortes de serrote feitos nas árvores. Se trabalhassem à mesma velocidade, dia após dia, bem, logo toda a área estaria limpa e plana.
O Sargento voltou, cansadamente, para junto de Peter Marlowe.
— Estão todos o mais ocupado possível, senhor.
— Ótimo. Agora não vai demorar muito.
— Escute, senhor, será que... será que faria uma coisa... para mim?
— O quê?
— Bem, é o seguinte. Já que... bem, o senhor... — Enxugou a boca num trapo que carregava para secar o suor, encabulado. Mas a oportunidade era boa demais para se perder. — Olhe para isso. — Mostrou a Peter Marlowe uma caneta-tinteiro. — Quer ver se o amarelo quer comprá-la?
— Está querendo que eu a venda para você? — perguntou Peter Marlowe, boquiaberto.
— Sim, senhor. Bem... é que... como o senhor é amigo do Rei, achei que... talvez o senhor soubesse como cuidar disso.
— É proibido vender para os guardas, é contra as ordens deles e as nossas.
— Ah, qual é, senhor, pode confiar em mim. Ora, o senhor e o Rei...
— O que é que tem, eu e o Rei?
— Nada, senhor — respondeu o Sargento, cautelosamente. Qual é a desse sacana? Quem está tentando tapear? — Só pensei que poderia ajudar-me. E à minha unidade, é claro.
Peter Marlowe olhou para o Sargento e para a caneta e se perguntou por que tinha ficado tão brabo. Afinal de contas, tinha vendido para o Rei — ou, pelo menos, tentado vender para o Rei — e na verdade era amigo do Rei. E não havia nada de mal nisso. Se não fosse pelo Rei, jamais teriam conseguido a área das árvores. O mais provável é que estivesse de queixo quebrado ou, no mínimo, de cara esbofeteada. Portanto, deveria mesmo preservar a reputação do Rei. Sem ele, não teriam conseguido os cocos.
— Quanto quer por ela?
O Sargento abriu um sorriso.
— Bem, não é uma Parker, mas tem pena de ouro. — Tirou a tampa e mostrou-a. — Portanto, deve valer alguma coisa. Quem sabe o senhor poderia ver o que ele daria.
— Ele vai querer saber quanto você está pedindo. Vou falar com ele, mas dê um preço.
— Se o senhor pudesse arranjar-me... sessenta e cinco dólares, ficaria feliz.
— Será que vale tanto?
— Acho que sim.
A caneta tinha mesmo pena de ouro e uma marca de 14 quilates, e pelo que Peter Marlowe podia ver, era artigo genuíno. Não como a outra caneta.
— Onde a arranjou?
— É minha, senhor. Estava guardando-a para um dia de chuva, e tem chovido muito ultimamente.
Peter Marlowe fez um gesto breve de cabeça. Acreditava no sujeito.
— Muito bem, verei o que posso fazer. Fique de olho nos homens, e ponha alguém de vigia.
— Não se preocupe, senhor. Os sacanas não vão nem piscar o olho. Peter Marlowe encontrou Torusumi encostado numa árvore baixa, em que se enroscava uma trepadeira.
— Tabe — cumprimentou.
— Tabe. — Torusumi lançou um olhar para o relógio, depois bocejou. — Podemos partir dentro de uma hora. Ainda não está na hora. — Tirou o quepe e enxugou o suor do rosto e do pescoço. — Este calor nojento e esta ilha nojenta!
— É. — Peter Marlowe tentou fazer com que as palavras soassem importantes, como se fosse o Rei falando, e não ele. — Um dos homens tem uma caneta que gostaria de vender. Ocorreu-me que, vós, como amigo, poderíeis querer comprá-la.
— Astaghfaru ‘llah! É uma Parker?
— Não. — Peter Marlowe pegou a caneta e tirou a tampa e deixou o Sol refletir-se na pena. — Mas tem pena de ouro.
Torusumi examinou-a. Ficou desapontado por não ser uma Parker, mas isso seria pedir demais. Especialmente no campo de pouso. Uma Parker seria negociada pessoalmente pelo Rei.
— Não vale muito — disse.
— Claro. Se não quereis levá-la em consideração... — Peter Marlowe voltou a botar a caneta no bolso.
— Posso levá-la em consideração. Quem sabe poderemos passar a hora que falta, levando em consideração este artigo sem valor. — Deu de ombros. — Valeria apenas setenta e cinco dólares.
Peter Marlowe ficou espantado de que o primeiro lance fosse tão alto. O Sargento nem tem idéia do seu valor. Deus, como gostaria de saber quanto realmente vale.
E assim, ficaram sentados pechinchando. Torusumi ficou zangado e Peter Marlowe fez pé firme, e finalmente chegaram a um acordo: 120 dólares e um maço de Kooas.
Torusumi levantou-se e bocejou de novo.
— Está na hora de ir. — Sorriu. — O Rei é um bom mestre. Da próxima vez em que o vir, dir-lhe-ei como vos aproveitastes da minha amizade, endurecendo tanto o negócio. — Sacudiu a cabeça, com autopiedade fingida. — Um preço desses por uma caneta tio insignificante! O Rei certamente se rirá de mim. Diga-lhe, suplico-vos, que estarei de guarda de hoje a sete dias. Quem sabe poderá arranjar-me um relógio. Mas um que preste... desta vez!