Peter Marlowe ficou satisfeito por ter feito, direitinho, sua primeira transação de verdade, pelo que lhe parecia um preço justo. Mas estava num dilema. Se desse todo o dinheiro ao Sargento, o Rei ficaria muito chateado. Aquilo arruinaria a estrutura de preços que o Rei construíra com tanto cuidado. E Torusumi não deixaria de mencionar ao Rei a venda da caneta, e o preço. Contudo, se desse ao Sargento apenas o que ele pedira, e ficasse com o resto, não seria trapacear? Ou seria apenas um bom “negócio”? Na realidade, o Sargento pedira apenas 65 dólares, e isso é o que deveria receber. E Peter Marlowe devia muito dinheiro ao Rei!
Gostaria de nunca ter-se metido nesse negócio cretino. Agora, estava preso em sua própria armadilha. O seu problema, Peter, é que se acha importante demais. Se tivesse dito não ao Sargento, não estaria agora nesta fria. O que vai fazer? Seja lá o que for, está errado!
Voltou andando devagar, pensando. O Sargento já pusera os homens em forma, e afastou Peter para um lado, ansiosamente.
— Estão prontos, senhor. E já verifiquei as ferramentas. — Abaixou a voz. — Ele comprou?
— Comprou. — E então Peter Marlowe tomou sua decisão. Botou a mão no bolso e deu ao Sargento um maço de notas. — Pronto, eis aí: sessenta e cinco dólares.
— Mas o senhor é um grã-fino muito legal! — Tirou do maço uma nota de cinco dólares e ofereceu-a a Peter. — Devo-lhe um dólar e meio.
— Não me deve nada.
— Dez por cento são seus. É justo, e me dá prazer pagá-los. Vou dar-lhe o dólar e meio que falta logo que tiver trocado.
Peter Marlowe empurrou a nota de volta.
— Não — disse, sentindo-se culpado, de repente. — Fique com ela.
— Eu insisto — disse o Sargento, devolvendo-lhe a nota.
— Olhe, Sargento...
— Pelo menos aceite os cinco. Iria sentir-me muito mal, senhor, se não os aceitasse. Muito mal. Nem sei como lhe agradecer.
Enquanto voltavam para o campo de pouso, Peter Marlowe não abriu a boca. Sentia-se sujo, com aquele maço de notas monstruoso no bolso, mas ao mesmo tempo sabia que devia dinheiro ao Rei, e estava feliz por ter aquele dinheiro, que lhe permitiria comprar coisas, extras para a unidade. O único motivo pelo qual o Sargento o procurara era porque conhecia o Rei, e o Rei, não o Sargento, era seu amigo. Ainda estava remoendo aquela situação terrível, quando voltou para sua choça.
— Grey quer vê-lo, Peter — avisou Ewart.
— Para quê?
— Sei lá, Peterzinho. Mas parecia puto da vida com alguma coisa.
A mente cansada de Peter Marlowe adaptou-se ao novo perigo. Tinha que ser algo a ver com o Rei. Grey significava encrenca. Agora, pense, pense, Peter. A aldeia? O relógio? O diamante? Ó, meu Deus... a caneta? Não, isso é besteira. Ainda não dá para ele saber disso. Devo ir procurar o Rei? Talvez saiba do que se trata. É perigoso. Quem sabe foi por isso que Grey falou com o Ewart, para me forçar a cometer um erro. Devia saber que eu estava num grupo de trabalho.
Não há por que ir como um cordeiro para o matadouro todo sujo e encalorado. Primeiro uma chuveirada, depois uma caminhada tranqüila até a choça da cadeia. Vou com calma.
E assim, foi para o chuveiro. Johnny Hawldns estava sob um dos jatos.
— Alô, Peter — cumprimentou Hawkins.
Um sentimento de culpa repentino fez o rosto de Peter Marlowe enrubescer.
— Alô, Johnny. — Hawkins parecia doente. — Escute, Johnny, fiquei muito chateado com...
— Não quero falar nisso — disse Hawkins. — Agradeceria se nunca mais tocasse no assunto.
Será que ele sabe, Peter Marlowe se perguntou, estarrecido, que sou um dos que... comeram?... Mesmo agora... e fora apenas ontem?... o súbito pensamento foi revoltante: canibalismo. Não pode saber, caso contrário teria tentado matar-me. Sei que, se estivesse na pele dele, é o que faria. Será que faria mesmo?
Meu Deus, a que estado chegamos. Tudo que parece errado é certo, e vice-versa. É demais para se compreender. Demais mesmo. Merda de mundo cretino. E os 60 dólares e o maço de Kooas a que fiz jus, e ao mesmo tempo roubei... ou ganhei... o que foi? Devo devolvê-los? Isso seria erradíssimo.
— Marlowe!
Virou-se e viu Grey de pé ao lado do chuveiro, com ar malévolo.
— Disseram-lhe que se apresentasse a mim ao voltar!
— Disseram-me que queria ver-me. Logo que acabasse o banho, ia...
— Deixei ordens para que se apresentasse a mim imediatamente. — Havia um sorrizinho no rosto de Grey. — Mas não faz mal. Está sob prisão domiciliar.
Fez-se silêncio nos chuveiros, e todos os oficiais estavam prestando atenção.
— Por que motivo?
Grey adorou a súbita preocupação que o outro deixou transparecer.
— Por desobedecer ordens.
— Que ordens?
— Sabe tão bem quanto eu. — Isso mesmo, sue frio! Sua consciência culpada vai incomodá-lo um pouco... se é que tem consciência, o que duvido.
— Apresente-se ao Coronel Smedly-Taylor depois do jantar. E vá vestido como oficial, não feito uma piranha!
Peter Marlowe desligou o chuveiro, enfiou-se no sarongue, deu o nó com uma torção habilidosa, cônscio dos olhares curiosos dos demais oficiais. Sua mente estava em tumulto, perguntando-se qual seria o problema, mas tentou disfarçar a ansiedade que sentia. Para que dar essa satisfação a Grey?
— Você é mesmo muito mal-educado, Grey. Muito chato — falou.
— Aprendi bastante hoje sobre berço e educação, seu cafajeste — disse Grey. — Ainda bem que não pertenço à sua classe nojenta, seu sacana safado. Todos uns canalhas, vigaristas, ladrões...
— Pela última vez, Grey, cale o bico, ou juro por Deus que o calo por você.
Grey tentou controlar-se. Queria enfrentar este homem, aqui e agora. Podia derrotá-lo, sabia que podia. A qualquer hora. Com ou sem disenteria.
— Se conseguirmos sair dessa joça com vida, vou procurar você. Será a primeira coisa que vou fazer. A primeira.
— Será um prazer. Mas até lá, se me insultar de novo, vou dar-lhe uma surra. Peter Marlowe virou-se para os outros oficiais. — Todos me ouviram. Eu lhe estou avisando. Não vou agüentar xingamentos deste macaco de classe inferior. — Virou-se, violentamente, para Grey. — Trate de ficar longe de mim.
— Como posso, se você infringe a lei?
— Que lei?
— Esteja na cabana do Coronel Smedly-Taylor depois do jantar. E mais uma coisa... está sob prisão domiciliar até a hora de se apresentar ao Coronel.
— Grey se afastou. A maior parte de sua euforia desaparecera. Era burrice xingar Marlowe. Burrice, quando não havia necessidade.
18
Quando Peter Marlowe chegou diante do bangalô do Coronel Smedly-Taylor, Grey já estava lá.
— Vou avisar ao Coronel que chegou — disse Grey.
— Quanta gentileza. — Peter Marlowe sentia-se pouco à vontade. O boné da Força Aérea que pedira emprestado o incomodava. A camisa puída mas
limpa que usava o incomodava. Os sarongues são muito mais confortáveis, pensou, e mais sensatos. E ao pensar em sarongues pensou no dia seguinte. Era o dia da troca do dinheiro. Pelo diamante. Amanhã, Shagata deveria trazer o dinheiro, e depois, dentro de três dias, a volta à aldeia. E talvez Sulina... Você é um idiota de estar pensando nela. Trate de ficar atento e alerta, vai precisar estar de posse de todas as suas faculdades.
— Muito bem, Marlowe. Sentido — ordenou Grey.
Peter Marlowe ficou em posição de sentido e começou a marchar para dentro dos aposentos do Coronel, da forma mais militarmente correta possível. Ao passar por Grey, sussurrou “Vá tomar no cu”, e sentiu-se um pouco melhor, e logo chegou diante do Coronel. Bateu uma continência perfeita, e olhou fixamente por cima do Coronel.