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Sentado atrás de uma mesa tosca, com a bengala militar sobre a mesa, Smedly-Taylor ergueu os olhos frios para Peter Marlowe, e devolveu o cumprimento, formalmente. Orgulhava-se da maneira como cuidava da disciplina no campo. Tudo o que fazia era estritamente militar, segundo os regulamentos.

Examinou o rapaz diante de si, que se mantinha ereto. Pelo menos isto depõe a seu favor, pensou. Ficou calado por algum tempo, como era hábito seu. Aquilo sempre descontrolava o acusado. Finalmente, falou:

— E então, Capitão-Aviador Marlowe? O que tem a dizer em sua defesa?

— Nada, senhor. Não sei do que me acusam.

O Coronel Smedly-Taylor olhou para Grey, surpreso, depois voltou a olhar para Peter Marlowe, de testa franzida.

— Talvez infrinja tantas regras, que custe a lembrar-se delas. Esteve na cadeia ontem. Isso é contra as ordens. Não estava usando braçadeira. Isso é contra as ordens.

Peter Marlowe sentiu-se aliviado. Era apenas a cadeia. Mas, espere um minuto... e quanto à comida?

— Então — continuou o Coronel, secamente — esteve ou não esteve?

— Sim, senhor.

— Sabia que estava infringindo duas ordens?

— Sim, senhor.

— Por que entrou na cadeia?

— Fui só visitar alguns homens.

— É? — O Coronel esperou, depois disse, causticamente: — Só visitar alguns homens?

Peter Marlowe ficou calado, esperando. E a pergunta veio.

— O americano também estava na cadeia; você estava com ele?

— Durante algum tempo. Isso não é proibido, senhor. Mas desobedeci... às duas outras ordens.

— O que vocês estavam aprontando, desta vez?

— Nada, senhor.

— Então admite que vocês dois costumam aprontar, de vez em quando? Peter Marlowe ficou furioso consigo mesmo por não ter pensando antes de responder, sabendo que com este homem, um excelente homem, estava em desvantagem.

— Não, senhor. — Fitou o Coronel, mas ficou calado. Uma regra. Quando se está diante de uma autoridade, só se diz “não, senhor”, “sim, senhor”, e se fala a verdade. Era uma regra inviolável que os oficiais sempre diziam a verdade, e cá estava ele, contrariando toda a tradição familiar, contrariando tudo que sabia ser correto, contando mentiras e meias verdades. Isso era muito errado. Era mesmo?

Agora, o Coronel Smedly-Taylor começou a fazer o jogo que já fizera tantas vezes antes. Para ele, era fácil brincar com um homem e depois massacrá-lo, se estivesse com vontade.

— Escute, Marlowe — falou, tomando um ar paternal — comunicaram-me que você vem-se envolvendo com elementos indesejáveis. Seria aconselhável que considerasse sua posição como oficial e cavalheiro. Agora, quanto a essa associação com o americano. Ele lida com o mercado negro. Ainda não foi pegado com a mão na massa, mas nós sabemos, e portanto você deve saber. Aconselho-o a acabar com essa associação. Não posso mandar que o faça, é claro, mas lhe estou aconselhando que o faça.

Peter Marlowe ficou calado, sangrando por dentro. O que o Coronel dizia era verdade, e no entanto o Rei era seu amigo, e este amigo estava alimentando e ajudando tanto a ele quanto à sua unidade. E era um homem excelente, excelente.

Peter Marlowe sentia vontade de dizer: “Está errado, e não me importo. Gosto dele e é um bom homem e nos divertimos juntos, e rimos à grande”, e ao mesmo tempo queria admitir as vendas e admitir a aldeia, e admitir o diamante, e admitir a venda de hoje. Mas Peter Marlowe podia enxergar o Rei atrás das grades, sem sua imponência. Portanto, forçou-se a não confessar.

Smedly-Taylor podia facilmente detectar o tumulto no jovem à sua frente. Seria tão simples para ele dizer:

“Espere lá fora, Grey.” E depois: “Escute, meu filho, entendo o seu problema. Meu Deus, tenho bancado o pai de um regimento desde que me entendo por gente. Conheço o problema... não quer dedurar seu amigo. Muito elogiável. Mas é oficial de carreira, oficial hereditário... pense em sua família e nas gerações de oficiais que serviram à pátria. Pense neles. A sua honra está em jogo. Tem que dizer a verdade, é o regulamento.” E depois o seu pequeno suspiro, praticado há mais de uma geração, e em seguida: “Vamos esquecer essa bobagem de infração de regras por ter entrado na cadeia. Eu mesmo já o fiz, diversas vezes. Mas se quiser abrir-se comigo...”, e deixaria as palavras no ar, com a quantidade exata de gravidade, e lá viriam os segredos do Rei, e este seria posto na cadeia do campo... mas com que finalidade?

No momento, o Coronel tinha uma preocupação bem maior... os pesos. Esta sim, podia ser uma catástrofe de proporções infinitas.

O Coronel Smedly-Taylor sabia que conseguiria obter a informação que quisesse desse garoto, quando lhe desse na telha... conhecia os homens muito bem. Sabia que era um comandante esperto... seria de admirar que nato fosse, depois de tanto tempo! E a primeira regra era manter o respeito dos seus oficiais, tratá-los com brandura até que realmente saíssem da linha, depois devorar um deles implacavelmente, como exemplo para os outros. Mas era preciso escolher a hora certa, o crime certo, e o oficial certo.

— Muito bem, Marlowe — falou, com firmeza. — Vou multá-lo em um mês de soldo. Não anotarei nada em sua folha de serviço, e não falaremos mais no assunto. Porém, não infrinja mais nenhuma regra.

— Obrigado, senhor. — Peter Marlowe bateu continência e foi embora, satisfeito porque a entrevista terminara. Estivera bem perto de contar tudo. O Coronel era um homem bom e generoso, e tinha a reputação de ser muito justo.

— Sua consciência o está incomodando? — perguntou Grey do lado de fora da cabana, notando o suor de Peter Marlowe. Este nem deu resposta. Ainda estava perturbado, e imensamente aliviado por ter escapado.

— Grey! — chamou o Coronel. — Quer vir até aqui um momento?

— Sim, senhor. — Grey olhou para Peter Marlowe pela última vez. Um mês de soldo! Não era muito, considerando-se que o Coronel o tinha nas mãos. Grey ficou surpreso, e até um tanto irritado, de Marlowe ter escapado daquela com tanta facilidade. Mas, ao mesmo tempo, já tinha visto Smedly-Taylor agir antes. E sabia que o Coronel era tenaz como um buldogue, que sabia como manobrar os homens. Devia ter um plano, para deixar Marlowe safar-se daquela maneira.

Grey desviou-se de Peter Marlowe e entrou de novo no bangalô.

— Hã... feche a porta, Grey.

— Sim, senhor.

Quando estavam sozinhos, o Coronel Smedly-Taylor disse:

— Já falei com o Tenente-Coronel Jones e o Sargento-Intendente Blakely.

— Sim, senhor? — Agora, sim, estamos fazendo progressos!

— Dispensei-os de suas funções, a partir do dia de hoje — continuou o Coronel, brincando com o peso.

O sorriso de Grey era amplo.

— Sim, senhor. — E agora, quando seria a corte marcial, e como seria feita... seria sob segredo de justiça, e os dois seriam rebaixados? Logo todo o mundo no campo saberia que ele, Grey, os pegara em flagrante, na sua traição; ele, Grey, era um anjo da guarda, e meu Deus, que maravilha seria.

— E vamos esquecer o assunto — concluiu o Coronel. O sorriso de Grey desapareceu.

— Como?

— É, resolvi esquecer o assunto. E você também vai esquecer. Repito minha ordem. Não diga uma palavra dessa história a ninguém, e trate de esquecê-la.

Grey ficou tão pasmo que se deixou cair sentado na cama, fitando o Coronel.

— Mas não podemos fazer isso, senhor! — explodiu. — Nós o pegamos em flagrante. Roubando a comida do campo. A sua comida e a minha comida. E tentaram subornar-me. Subornar-me! — Sua voz tornou-se histérica. — Santo Deus, eu os peguei, são ladrões, merecem ser enforcados e esquartejados!

— É verdade. — O Coronel Smedly-Taylor sacudiu a cabeça, solenemente. — Mas acho que, em face das circunstâncias, esta é a decisão mais sensata.

Grey se pôs de pé, num salto.

— Não pode fazer isso! — berrou. — Não pode deixar que saiam impunes! Não pode...