— Não me diga o que posso ou não posso fazer!
— Desculpe — falou Grey, lutando para controlar-se. — Mas, senhor, esses homens são ladrões. Peguei-os com a mão na massa. O senhor está com o peso.
— Resolvi que não se fala mais no assunto. — A voz dele era calma. — Caso encerrado.
Grey descontrolou-se completamente.
— Por Deus, mas não está encerrado! Não deixarei que seja encerrado! Aqueles filhos da mãe estavam comendo enquanto passávamos fome! Merecem ser feitos em pedaços! E insisto...
— Cale-se Grey! — A voz de Smedly-Taylor abafou a histeria. — Não pode insistir coisa nenhuma. Caso encerrado. — Smedly-Taylor suspirou pesadamente, apanhou um pedaço de papel e disse: — Esta é a sua folha de serviço. Hoje lhe acrescentei algo. Vou ler para você: “Recomendo vivamente o Tenente Grey pelo seu trabalho como Chefe da Polícia Militar do Campo. Sua atuação é, sem dúvida alguma, excelente. Gostaria de recomendar que fosse promovido a Capitão.” — Ergueu os olhos do papel. — Pretendo enviar isso ainda hoje ao Comandante do Campo, e recomendar que sua promoção se torne efetiva a partir da data de hoje. — Sorriu. — Como sabe, ele tem autoridade para promovê-lo. Parabéns, Capitão Grey. O senhor merece. — E estendeu a mão para Grey.
Mas Grey não a aceitou. Simplesmente olhou para ela, e para o papel, e então entendeu.
— Ora, seu filho da mãe nojento! Está tentando comprar-me. Não presta, igual a... talvez também venha comendo o arroz. Ora, seu merda, seu merda sujo, nojento...
— Cale a boca, seu subalterno metido a besta! Fique em posição de sentido! Mandei ficar em posição de sentido!
— Você está metido na tramóia com eles, e não vou deixar que nenhum de vocês se safe dessa — berrou Grey, arrancando o peso de cima da mesa e recuando: — Ainda não posso provar nada contra você, mas tenho prova contra eles. Este peso...
— O que há com o peso, Grey?
Grey levou uma eternidade para baixar os olhos para o peso. A base não tinha uma só marca.
— Perguntei: “O que há com o peso?” — Pobre idiota, pensou Smedly-Taylor desdenhosamente, ao ver Grey procurar o furinho. Mas que tolo! Poderia arrasá-lo, sem o menor esforço.
— Não foi este o peso que lhe entreguei — dizia Grey, com voz abafada. — Não é o mesmo. Não é o mesmo.
— Está enganado. É o mesmo. — O Coronel estava bem calmo, agora. Continuou, com voz gentil e solícita. — Bem, Grey, você é moço. Creio que vai querer continuar no Exército, depois que a guerra acabar. Isso é bom. Sempre podemos aproveitar oficiais inteligentes e trabalhadores. A vida militar é maravilhosa. Sem dúvida. E o Coronel Samson estava-me dizendo que o tem em alta conta. Como sabe, ele é amigo meu. Estou certo de que posso convencê-lo a apoiar minha recomendação para que lhe seja dada uma comissão permanente. Você está apenas extenuado, o que não é de admirar. Estamos vivendo uma época terrível. Acho que é melhor esquecermos o assunto. Seria desaconselhável envolver o campo num escândalo. Muito desaconselhável. Estou certo de que compreende a sabedoria de agirmos assim.
Ficou à espera, desprezando Grey. Na hora exata (pois era um perito) perguntou:
— Quer que envie ao Comandante do Campo a recomendação para sua promoção a Capitão?
Grey virou-se devagar para o documento, olhando-o com horror. Sabia que o Coronel podia dar e tomar, e como podia dar e tomar, também podia massacrar. Grey sabia que estava derrotado. Derrotado. Tentou falar, mas seu sofrimento era tão imenso que não conseguiu. Fez um aceno de cabeça, e ouviu Smedly-Taylor dizer:
— Ótimo, pode dar como certa sua promoção a Capitão. Estou convencido de que a minha recomendação e a do Coronel Samson influirão tremendamente para que lhe seja dada uma comissão permanente, depois da guerra.
Sentiu que havia saído do bangalô do Coronel, e que estava subindo a escada que levava à choça da cadeia e dispensando o PM, e pouco se lhe dava que o homem estivesse olhando para ele como se fosse maluco. Então, ficou sozinho na choça da cadeia. Fechou a porta e se sentou na beira da cama dentro da cela, e todo seu sofrimento veio à tona, e ele chorou.
Destruído.
Destroçado.
As lágrimas molhavam-lhe as mãos e o rosto. Seu espírito rodopiava aterrorizado, equilibrando-se no limiar do desconhecido, depois caiu na eternidade...
Quando Grey voltou a si, estava deitado numa maça que dois PMs carregavam. O Dr. Kennedy ia à frente da maça. Grey sabia que estava morrendo, mas não se importava. Foi então que viu o Rei, de pé ao lado da trilha, olhando para ele.
Grey notou os sapatos engraxados, o vinco da calça, o Kooa comprado pronto, a fisionomia bem alimentada. E lembrou-se de que tinha um serviço a fazer. Ainda não podia morrer. Ainda não. Não, enquanto o Rei estava bem vincado e engraxado e bem alimentado. Não com o diamante para ser negociado. Por Deus, não!
— É melhor acabarmos o jogo nesta rodada — dizia o Coronel Smedly-Taylor. — Não podemos perder o show.
— Mal posso esperar para ver o Sean — disse Jones, ajeitando suas cartas. Abriu a rodada, com ar satisfeito: — Dois ouros.
— Tem uma sorte dos diabos — disse Sellars, vivamente. — Duas espadas.
— Passo.
— Nem sempre uma sorte, dos diabos, parceiro — disse Smedly-Taylor, com um sorriso seco. Seus olhos de granito fixaram-se em Jones. — Foi bem burro, hoje.
— Foi azar, só isso.
— Não há desculpa para o azar — disse Smedly-Taylor, examinando suas cartas. — Deveria ter verificado. Foi incompetência não verificar.
— Já pedi desculpas. Pensa que não sei que foi burrice? Nunca mais agirei assim. Nunca. Jamais tinha entrado em pânico antes.
— Dois sem trunfos. — Smedly-Taylor sorriu. Depois, virou-se novamente para Jones. — Já recomendei ao Samson que o substituísse... você está precisando de um “descanso”. Isso vai tirar o Grey da pista... ah, sim, e o Sargento Donovan será o Sargento-Intendente de Samson. — Deu uma risada curta. — É uma pena termos que mudar o sistema, mas não faz mal. Teremos apenas que nos certificar de que Grey esteja ocupado nos dias em que os pesos falsos forem utilizados. — Voltou os olhos para Sellars. — Isso será responsabilidade sua.
— Pois não.
— Oh, a propósito, multei o Marlowe em um mês de soldo. Ele está numa das suas choças, não é?
— Está — disse Sellars.
— Fui tolerante com ele, mas é um bom homem, vem de boa família... não como aquele cafajeste de classe inferior, o Grey. Meu Deus, mas que audácia... imaginar que eu vá recomendá-lo para uma comissão permanente. Ele é o tipo de ralé de que não precisamos no Exército Regular. Meu Deus, não! Aquele só receberá comissão permanente passando por cima do meu cadáver.
— Concordo inteiramente — disse Sellars, com cara de nojo. — Mas quanto ao Marlowe, devia tê-lo multado em três meses de soldo. Pode muito bem passar sem o dinheiro. Aquele maldito americano tem o campo inteiro nas mãos.
— Por enquanto. — Smedly-Taylor resmungou e examinou as cartas, mais uma vez, tentando encobrir o escorregão.
— Descobriu alguma coisa contra ele? — perguntou Jones, especulativamente. A seguir, acrescentou: — Três ouros.
— Que droga! — exclamou Sellars. — Quatro espadas.
— Passo.
— Seis espadas — disse Smedly-Taylor.
— Tem mesmo alguma coisa para enrascar o americano? — perguntou Jones de novo.
O Coronel Smedly-Taylor manteve a fisionomia inexpressiva. Sabia da história do anel de diamantes, e ouvira contar que já se fechara negócio, e que o anel em breve trocaria de mãos. E quando o dinheiro estivesse no campo, bem, já bolara um plano, um plano bom, seguro, particular, para botar a mão no dinheiro. Portanto; apenas resmungou, deu um dos seus sorrisos secos e falou, displiscentemente.
— Se tivesse, não lhes contaria. Não merecem confiança. Quando Smedly-Taylor sorriu, todos sorriram, aliviados.