Выбрать главу

Sentou-se diante de uma das consolas e ligou os auscultadores. Sabia que era inútil, pedante, pensar que ela, à escuta num ou dois canais, detectaria um padrão, quando o imenso sistema de computadores que monitorizavam mil milhões de canais não detectara. Mas dava-lhe uma modesta ilusão de utilidade. Recostou-se, de olhos semicerrados, com uma expressão quase sonhadora a envolver os contornos do seu rosto. É realmente encantadora, permitiu-se pensar o técnico.

Ouviu, como sempre, uma espécie de estática, um ruído contínuo, repetitivo, sem método. Uma vez, quando escutava uma parte do céu que incluía a estrela AC+73888, na Cassiopéia, parecera-lhe ouvir uma espécie de canto, a esbater-se e a renascer tantalicamente, situado imediatamente além da sua capacidade de se convencer de que havia ali, de fato, alguma coisa. Aquela era a estrela em cuja direção a nave espacial Voyager 1, agora nas imediações da órbita de Netuno, acabaria por viajar. A nave transportava um registro fonográfico de ouro, no qual estavam gravadas saudações, imagens e canções da Terra. Será possível que eles nos estejam a enviar a sua música à velocidade da luz, enquanto nós lhes enviamos a nossa apenas a um décimo-milésimo dessa velocidade? Noutras ocasiões, como agora, quando a estática era claramente isenta de padrão, Ellie recordava a si mesma a famosa máxima de Shannon a respeito da teoria da informação, segundo a qual a mensagem mais eficientemente codificada era indistinguível do ruído, a não ser que se possuísse de antemão a chave da codificação. Premiu rapidamente alguns botões da consola à sua frente e ligou duas das freqüências de banda estreita uma contra a outra, uma em cada auscultador. Nada. Escutou os dois planos de polarização das ondas de rádio e depois o contraste entre polarização linear e circular. Havia mil milhões de canais por onde escolher. Podia-se passar a vida a tentar levar a palma ao computador, a escutar com ouvidos e cérebros humanos pateticamente limitados a procurar um padrão.

Os humanos são bons, pensou, no discernimento de padrões sutis que realmente existem, mas são-no igualmente a imaginá-los quando estão por completo ausentes. Devia haver alguma seqüência de impulsos, alguma configuração da estática, capazes de produzir por um instante um ritmo sincopado ou uma breve melodia. Mudou a ligação para um par de radiotelescópios que escutavam uma conhecida fonte de rádio galáctica. Ouviu um glissando pelas radiofreqüências abaixo, um whistler devido à dispersão de ondas de rádio por elétrons no tênue gás interestelar entre a fonte de rádio e a Terra. Quanto mais pronunciado o glissando, maior o número de elétrons que se encontravam no caminho e mais distante a fonte estava da Terra. Fizera aquilo tantas vezes que lhe bastava ouvir um whistler de rádio pela primeira vez para ficar com uma idéia exata da sua distância. Este, calculou, encontrava-se a mil anos-luz de distância — muito para lá da vizinhança local de estrelas, mas ainda bem no interior da grande Galáxia da Via Láctea.

Ellie voltou a prestar atenção ao modo de exploração celeste do Projeto Argus. Voltou a não encontrar nenhum padrão. Era como um músico a escutar o ribombar de uma trovoada distante. As ocasionais pequenas extensões de padrão perseguiam-na e introduziam-se-lhe na memória com tal insistência que por vezes se via forçada a voltar atrás, às gravações de determinado período de observação, para ver se havia alguma coisa que a sua mente tivesse captado e houvesse escapado aos computadores.

Toda a sua vida, os sonhos tinham sido seus amigos. Os seus sonhos eram invulgarmente pormenorizados, bem estruturados, coloridos. Conseguia perscrutar atentamente o rosto do pai, digamos, ou a parte de trás de uma velha telefonia, e o sonho fazia-lhe a vontade com pormenores visuais completos. Conseguira sempre recordar-se dos seus sonhos, até às mais pequenas minúcias — exceto nas ocasiões em que se encontrara sob grande pressão, como antes da prova oral do seu doutorado, ou quando ela e Jesse estavam a afastar-se. Mas agora estava a ter dificuldade em recordar as imagens dos seus sonhos. E, desconcertantemente, começara a sonhar sons — como sucede às pessoas cegas de nascença. Nas primeiras horas da manhã, a sua mente inconsciente criava algum tema ou alguma cantilena que nunca ouvira antes. Ellie acordava, dava uma ordem audível à luz da sua mesa-de-cabeceira, pegava na caneta que ali deixara para esse fim, riscava uma pauta e transpunha a música para o papel. Às vezes, após um longo dia, passava-a no seu gravador e perguntava a si mesma se a ouvira em Ofitico ou Capricórnio. Estava, admitia-o relutantemente, a ser atormentada pelos elétrons e pelos buracos móveis que habitam receptores e amplificadores e pelas partículas carregadas e pelos campos magnéticos do gás frio e rarefeito entre as tremeluzentes estrelas distantes.

Era uma única nota repetida, aguda e rouca nas margens. Precisou de um momento para a reconhecer. Depois teve a certeza de que não a ouvia havia trinta e cinco anos. Tratava-se da roldana metálica da corda da roupa que protestava todas as vezes que a mãe puxava e punha outra bata acabada de lavar a secar ao sol. Quando era garotinha, adorara o exército de molas de roupa em ordem de marcha; e, quando não estava ninguém perto, afundava o rosto nos lençóis acabados de secar. O cheiro, simultaneamente doce e acre, encantava-a. Seria aquilo agora uma baforada dele? Lembrava-se de si mesma a rir e a afastar-se, em passos ainda pouco firmes, dos lençóis, quando a mãe, num dos seus movimentos graciosos, a levantava no ar — parecia erguê-la para o céu — e a levava no côncavo do braço, como se ela fosse apenas uma trouxinha de roupa para ser bem arrumada na cômoda do quarto dos pais.

— Doutora Arroway? Doutora Arroway?

O técnico olhou-lhe para as pálpebras trêmulas e reparou na sua respiração superficial. E a pestanejou duas vezes, tirou os auscultadores e lançou-lhe um pequeno sorriso apologético. Às vezes, os seus colegas tinham de falar muito alto se queriam ser ouvidos acima do ruído de rádio cósmico amplificado. Por sua vez, ela dava desconto ao volume do ruído — detestava tirar os auscultadores para conversas breves —, gritando também. Quando estava suficientemente preocupada, uma troca de gracejos casual ou até jovial podia parecer a um observador inexperiente um fragmento de uma discussão violenta e não provocada, inesperadamente desencadeada no meio do silêncio da vasta instalação de rádio. Mas desta vez ela disse apenas:

— Desculpe. Devo ter passado pelas brasas.

— O doutor Drumlin está ao telefone. Está no gabinete do Jack e diz que tem um encontro marcado consigo.

— Com a breca, esqueci-me!

Com o passar dos anos, o brilho de Drumlin permanecera intacto, mas tinham surgido diversas idiossincrasias pessoais adicionais que não eram evidentes quando ela trabalhara brevemente como sua aluna graduada no Cal Tech. Por exemplo, agora tinha o hábito desconcertante de verificar, quando julgava que ninguém estava a observar, se tinha a braguilha aberta. Ao longo dos anos aumentara a sua convicção de que não existiam extraterrestres, ou, pelo menos, se existiam, eram tão raros e tão distantes que não seria possível detectá-los. Fora a Argus para o colóquio científico semanal. Mas ela descobriu que também ali o levara outro propósito.

Drumlin escrevera uma carta à National Science-Foundation insistindo em que Argus terminasse a sua procura de inteligência extraterrestre e se dedicasse em tempo inteiro a radioastronomia mais convencional. Tirou-a de uma algibeira interior e insistiu com ela para que a lesse.

— Nós só trabalhamos no projeto há quatro anos e meio! Exploramos menos de um terço do céu setentrional. Esta é a primeira investigação que está a detectar todo o ruído rádio no mínimo em bandas e freqüência ótimas. Por que quereria você parar agora?

— Não, Ellie, isto é interminável. Ao fim de doze anos não encontrará nenhum sinal de nada. Argumentará que tem de ser construída outra instalação Argus pelo custo de centenas de milhões de dólares na Austrália ou na Argentina, para explorar o céu meridional. E, quando isso falhar, falará da construção de alguma parabolóide com antena de vôo livre em órbita terrestre, para poder obter ondas milimétricas.