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«Conseguirá sempre imaginar qualquer espécie de exploração que não foi feita. Inventará sempre qualquer explicação para o fato de os extraterrestres gostarem de emitir precisamente onde não procuramos.

— Oh, Dave, já discutimos isto cem vezes! Se falharmos, aprenderemos alguma coisa acerca da raridade da vida inteligente — ou, pelo menos, da vida inteligente que pensa como nós e quer comunicar com civilizações atrasadas como a nossa! E, se tivermos êxito, ganharemos o jackpot cósmico! Não é possível imaginar maior descoberta.

— Há projetos de primeira categoria que não dispõem de tempo de utilização de telescópio. Há trabalhos sobre evolução de quasars, pulsars binários, as cromosferas de estrelas próximas e até aquelas loucas proteínas interestelares. Estes projetos aguardam em bicha, porque esta instalação — de longe a distribuição melhor faseada do mundo — está a ser utilizada quase inteiramente para a SETI.

— Setenta e cinco por cento para a SETI, Dave, vinte e cinco por cento para radioastronomia rotineira.

— Não lhe chame rotineira. Temos a oportunidade de olhar para trás, para o tempo em que as galáxias estavam a ser formadas, ou talvez mesmo antes disso. Podemos examinar os núcleos de nuvens moleculares gigantes e os buracos negros do centro de galáxias. Está prestes a dar-se uma revolução na astronomia e você está a atravessar-se no caminho.

— Dave, tente não pessoalizar isto. Argus nunca teria sido construída se não houvesse apoio público à SETI. A idéia da Argus não é minha. Sabe que me escolheram para diretora quando os últimos quarenta discos ainda estavam a ser construídos. A NSA apóia inteiramente…

— Não inteiramente, e não se eu tiver alguma palavra a dizer. Isto é exibicionismo. Isto é fazer tagatés a chalados dos OVNis e da banda desenhada e a adolescentes de espírito fraco.

Nesta altura, Drumlin estava praticamente a gritar e Ellie sentiu uma tentação irresistível de lhe reduzir o volume de som. Devido à natureza do seu trabalho e à sua relativa eminência, encontrava-se constantemente em situações em que era a única mulher presente, tirando as que serviam café ou trabalhavam com as máquinas de estenografar. Apesar do que parecia uma vida inteira de esforço da sua parte, ainda havia uma hoste de cientistas do sexo masculino que só falavam uns com os outros, teimavam em interrompê-la e ignoravam, quando podiam, o que ela tinha a dizer. Ocasionalmente, haviam aqueles que, como Drumlin, demonstravam uma franca antipatia. Mas, pelo menos, ele tratava-a como tratava muitos homens. Era imparcial nas suas explosões, que distribuía igualmente por cientistas de ambos os sexos. Havia um pequeno punhado de colegas seus do sexo masculino que não revelavam modificações de personalidade constrangedoras na sua presença. Precisava de passar mais tempo com eles, pensou. Pessoas como Kenneth der Heer, o biólogo molecular do Instituto Salk, que fora nomeado recentemente conselheiro científico presidencial. E Peter Valerian, claro.

Ela sabia que a impaciência de Drumlin com Argus era partilhada por muitos astrônomos. Ao fim dos primeiros dois anos, uma espécie de melancolia infiltrara-se na instalação. Na messe, ou durante os longos e pouco exigentes períodos de vigilância, havia debates apaixonados acerca das intenções dos putativos extraterrestres. Não era possível imaginar como seriam diferentes de nós. Para dificuldade, bastava a de imaginar as intenções dos nossos representantes eleitos em Washington. Quais seriam as intenções de tipos de seres fundamentalmente diferentes de mundos fisicamente diferentes a centenas ou milhares de anos-luz de distância? Alguns estavam convencidos de que o sinal não seria transmitido no espectro de rádio, mas sim no infravermelho, ou no visível, ou algures entre os raios gama. Ou talvez os extraterrestres estivessem a transmitir avidamente, mas com uma tecnologia que não inventaríamos ainda durante mil anos.

Astrônomos de outras instituições estavam a fazer descobertas extraordinárias entre as estrelas e as galáxias, a localizar aqueles objetos que, fosse por que mecanismo fosse, geravam ondas de rádio intensas. Outros radioastrônomos publicavam ensaios científicos, assistiam a encontros, eram encorajados por uma sensação de progresso e propósito. Os astrônomos de Argus tinham tendência para não publicar e eram geralmente ignorados quando se fazia apelo à apresentação de ensaios na reunião anual da American Astronomical Society ou nos simpósios trienais e nas sessões plenárias da International Astronomical Union. Por isso, consultada a National Science Foundation, a diretoria de Argus reservara vinte e cinco por cento do tempo de observação para projetos não relacionados com a busca de inteligência extraterrestre. Tinham sido feitas algumas descobertas importantes sobre os objetos extra galácticos que pareciam, paradoxalmente, mover-se mais depressa do que a luz; sobre a temperatura da superfície da grande lua de Netuno, Tritão; e sobre a matéria escura dos espaços exteriores das galáxias próximas onde não se podiam ver estrelas nenhumas. O moral começava a melhorar. O pessoal de Argus sentia que estava a contribuir para aguçar o gume da descoberta astronômica. É verdade que o tempo para completar uma exploração total do céu tinha sido aumentado. Mas, agora, as suas carreiras profissionais tinham uma certa rede de segurança. Podiam não ser bem sucedidos no objetivo de encontrar sinais de outros seres inteligentes, mas tinham a possibilidade de colher outros segredos do tesouro da natureza.

A procura de inteligência extraterrestre — referida em toda a parte pela abreviatura SETI, exceto por aqueles que falavam um tanto ou quanto mais otimistamente de comunicação com inteligência extraterrestre (CETI) — era essencialmente uma rotina de observação, o enfadonho objetivo principal para o qual a maior parte da instalação tinha sido construída. Mas durante uma quarta parte do tempo podia-se ter a certeza de utilizar o mais potente conjunto de radiotelescópios da Terra para outros projetos. Bastava apenas suportar a parte enfadonha. Uma pequena porção de tempo fora também reservada a astrônomos de outras instituições. Embora o moral tivesse melhorado notoriamente, havia muitos que concordavam com Drumlin; olhavam cobiçosamente o milagre tecnológico que os cento e trinta e um radiotelescópios de Argus representavam e imaginavam utilizá-los para os seus próprios e indubitavelmente meritórios programas. Ela mostrou-se alternadamente conciliadora e contestadora com Dave, mas nem uma coisa nem outra produziu qualquer efeito. Ele não estava com disposição amigável.

O colóquio de Drumlin foi em parte uma tentativa para demonstrar que não havia extraterrestres em parte alguma. Se nós realizáramos tanto apenas nuns poucos milhares de anos de alta tecnologia, de que seria capaz — perguntou — uma espécie verdadeiramente avançada? Seriam capazes de deslocar estrelas, de reconfigurar galáxias. E, no entanto, não existia em toda a astronomia nenhum sinal de um fenômeno que não pudesse ser compreendido por processos naturais, sem que fosse necessário fazer qualquer apelo a inteligência extraterrestre. Por que não detectara já Argus um sinal de rádio? Imaginavam a existência de apenas um radiemissor em todo o firmamento? Faziam idéia de quantos milhares de milhões de estrelas já tinham observado? A experiência era meritória, mas agora acabara. Não tinham de explorar o resto do céu. A resposta era evidente. Nem no espaço mais profundo nem perto da Terra havia qualquer sinal de extraterrestres. Eles não existiam.

No período destinado a perguntas, um dos astrônomos de Argus interrogou-o acerca da Hipótese Zôo, o argumento de que os extraterrestres existiam, de fato, mas preferiam não tornar a sua presença conhecida, a fim de ocultarem aos humanos o fato de haver outros seres inteligentes no cosmo — no mesmo sentido em que um especialista no comportamento de primatas poderia desejar observar um bando de chimpanzés na selva, mas não interferir nas suas atividades. Em resposta, Drumlin fez uma pergunta diferente: É provável que, com um milhão de civilizações na Galáxia o gênero de número, disse, que era «propalado» em Argus, não haja um único «caçador furtivo»? Como se explica que todas as civilizações da Galáxia respeitem uma ética de não interferência? É provável que nem uma delas ande a bisbilhotar a Terra?