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«Ian, podemos pedir-lhe o favor de o acompanhar enquanto estiver no seu céu? Mais tarde falo consigo a respeito de VLBI. Vou ver se consigo que outros radiobservatórios, distribuídos muito regularmente em longitude, o acompanhem até reaparecer aqui… Sim, mas não sei se é fácil fazer um telefonema direto para a China. Estou a pensar em enviar um telegrama IAU… Ótimo. Muito obrigada, Ian.

Ellie parou à porta da sala controle — chamavam-lhe assim com uma ironia consciente, pois eram os computadores que, noutra sala, faziam a maior parte do controle para admirar o pequeno grupo de cientistas que falavam com grande animação, observavam os dados que estavam a ser revelados e trocavam pequenos gracejos quanto à natureza do sinal. Não era gente de estilo, pensou. Não eram convencionalmente bem-parecidos. Mas havia neles um não sei quê de inequivocamente atraente. Eram excelentes no que faziam e, especialmente no processo de descoberta, absorviam-se por completo no seu trabalho. Quando se aproximou, calaram-se e olharam-na na expectativa. Os numerais estavam a ser convertidos automaticamente da base dois para a base dez… 881, 883, 887, 907… cada um deles confirmado como número primo.

— Willie, arranje-me um mapa-múndi. E, por favor, ligue-me a Mark Auerbach, Cambridge, Mass. Provavelmente está em casa. Dê-lhe o texto para um telegrama IAU dirigido a todos os observatórios, mas em especial a todos os grandes radiobservatórios. E veja se ele arranja o nosso número de telefone para o Radiobservatório de Beijing. Depois ligue-me para o conselheiro científico da presidente.

— Vai passar por cima da National Science Foundation?

— Depois do Auerbach ligue-me para o conselheiro científico da presidente.

Mentalmente, pareceu-lhe ouvir um grito jubiloso entre um clamor de outras vozes.

De bicicleta, furgoneta, carreiro a pé ou telefone, o único parágrafo foi entregue em centros astronômicos de todo o mundo. Nalguns radiobservatórios importantes — na China, na Índia, na União Soviética e na Holanda, por exemplo —, a mensagem foi recebida por telescritor. Enquanto ia chegando, matraqueante, era observada por um funcionário de segurança ou por algum astrônomo de passagem, arrancada e levada, com uma expressão de certa curiosidade, a um gabinete adjacente. Dizia:

ANÔMALA FONTE RÁDIO INTERMITENTE EM ASCENSÃO RETA 180 34M, DECLINAÇÃO MAIS 38 GRAUS 41 MINUTOS, DESCOBERTA POR EXPLORAÇÃO SISTEMÁTICA DO CÉU PELO ARGUS. FREQÜÊNCIA 9,24176684 GIGAHERTZ, PASSA-BANDA APROXIMADAMENTE 430 HERTZ. AMPLITUDES BIMODAIS APROXIMADAMENTE 174 E 179 JANSKYS. AMPLITUDES DE EVIDÊNCIA CODIFICAM SEQÜÊNCIA DE NÚMEROS PRIMOS. COBERTURA DE LONGITUDE COMPLETA URGENTEMENTE NECESSÁRIA. FAVOR COMUNICAR A COBRAR NO DESTINO PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE COORDENAÇÃO DE OBSERVAÇÕES. E. ARROWAY, DIRETORA, PROJETO ARGUS, SOCORRO, NOVO MÉXICO, EUA.

CAPÍTULO V

Algoritmo descriptografador

Oh, falai de novo, anjo luminoso!…

WILLIAM SHAKESPEARE. Romeu e Julieta

As instalações dos cientistas visitantes estavam agora todas ocupadas, melhor dizendo, sobreocupadas, por luminares selecionados da comunidade SETI. Quando a delegação oficial começou a chegar de Washington, os seus membros não encontraram acomodações adequadas nas instalações de Argus e tiveram de se aboletar em motéis da vizinha Socorro. Kenneth der Heer, o conselheiro científico da presidente, foi a única exceção. Chegara no dia a seguir à descoberta, em resposta a um apelo urgente de Eleanor Arroway. Funcionários da National Science Foundation, da National Aeronautics and Space Administration, do Departamento da Defesa, do President’s Science Advisory Committee, do National Security Council e da National Security Agency foram chegando durante os dias seguintes. Havia alguns funcionários governamentais cuja filiação institucional precisa permanecia obscura.

Na noite anterior, alguns deles tinham-se reunido na base do Telescópio 101 e Vega fora-lhes mostrada pela primeira vez.

Cortesmente, a sua luz azul-branca tremeluzira maravilhosamente.

— Quero dizer, já a tinha visto antes, mas nunca soube como se chamava — observou um deles.

Vega parecia mais brilhante do que as outras estrelas do firmamento, mas não se tornava notória em nenhum outro aspecto. Era apenas uma dos poucos milhares de estrelas visíveis a olho nu.

Os cientistas efetuavam um seminário de investigação contínua sobre a natureza, a origem e o possível significado dos rádio-impulsos. O gabinete de relações públicas do projeto — maior do que na maioria dos observatórios em virtude do grande interesse existente na procura de inteligência extraterrestre — recebeu o encargo de esclarecer os funcionários das categorias mais baixas. Cada recém-chegado necessitava de um extenso esclarecimento pessoal. Ellie, que tinha de informar os funcionários superiores, superintender na investigação em curso e responder à curiosidade cética, perfeitamente compreensível, demonstrada com algum vigor por colegas seus, sentia-se exausta. O luxo de uma noite inteira de sono tinha-lhe sido recusado desde a descoberta.

Ao princípio haviam tentado guardar silêncio sobre o caso. No fim de contas, não tinham a certeza absoluta de que se tratava de uma mensagem extraterrestre. Um anúncio prematuro ou errado seria um desastre no capítulo de relações públicas. E, pior ainda, interferiria na análise dos dados. Se a imprensa avançasse, a ciência sofreria com certeza. Tanto Washington como Argus estavam interessados em manter a história abafada. Mas os cientistas tinham dito às suas famílias, o telegrama da União Astronômica Internacional fora enviado a todo o mundo, e sistemas ainda rudimentares de bancos de dados astronômicos da Europa, da América do Norte e do Japão estavam todos a transportar notícias da descoberta.

Embora tivesse havido uma série de planos de contingência para a divulgação pública de quaisquer descobertas, as circunstâncias reais tinham-nos surpreendido em grande parte mal preparados. Redigiam uma declaração tão inócua quanto possível e só a divulgavam quando tinha de ser.

O assunto causou, claro, sensação.

Tinham pedido aos media que fossem pacientes, mas sabiam que dispunham apenas de um breve período antes de a imprensa atacar em força. Tinham tentado desencorajar os repórteres de visitar o local, explicando que não havia nenhuma informação real nos sinais que estavam a receber, que se tratava apenas de números primos enfadonhos e repetitivos. A imprensa sentia-se impaciente com a falta de notícias concretas. «Podemos apenas escrever algumas linhas sobre ‘Que é um número primo?’«, perguntou um repórter a Ellie pelo telefone.

Equipes de filmagem de televisão, em táxis aéreos de asa fixa e helicópteros alugados, começaram a sobrevoar baixo as instalações, ocasionando por vezes uma forte radiointerferência facilmente detectada pelos telescópios. Alguns repórteres seguiam os funcionários de Washington quando eles regressavam aos motéis, à noite. Um pequeno número dos mais empreendedores tentara entrar nas instalações sem ser notado — de carro de praia, motocicleta e, num caso, a cavalo. Ellie vira-se obrigada a informar-se do preço para uma grande quantidade de cerca anticiclônica.

Imediatamente após a sua chegada, Der Heer ouvira uma primeira versão do que entretanto se tornara a informação-padrão de Ellie: a surpreendente intensidade do sinal, a sua localização muito aproximadamente na parte do céu onde se encontrava a estrela Vega é a natureza dos impulsos.