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— Posso ser o conselheiro científico da presidente — dissera ele —, mas sou apenas um biólogo. Por isso, queira explicar-me tudo devagar. Compreendo que, se a fonte de rádio se encontra a vinte e seis anos-luz de distância, então a mensagem teve de ser enviada há vinte e seis anos. Na década de sessenta, algumas pessoas de aspecto esquisito e orelhas pontiagudas pensaram que quereríamos saber que gostam de números primos. Mas números primos não são coisa difícil. Não dá a impressão de que estão a fanfarronar. Parece mais que estão a enviar-nos aritmética corretiva. Talvez devêssemos sentir-nos insultados.

— Não. Veja as coisas deste modo — pediu ela, a sorrir: — isto é um farol. É um sinal de comunicação. Destina-se a atrair a nossa atenção. Recebemos padrões estranhos de impulsos de quasars, pulsars, radiogaláxias e sabe Deus que mais. Mas números primos são muito específicos, muito artificiais. Nenhum número par é primo, por exemplo. É difícil imaginar algum plasma irradiante ou alguma galáxia em explosão a transmitir um conjunto regular de sinais matemáticos como este. Os números primos destinam-se a atrair a nossa atenção.

— Mas para quê? — perguntou ele, sinceramente intrigado.

— Não sei. Neste trabalho temos, porém, de ser muito pacientes. Talvez daqui a pouco tempo os números primos desapareçam e sejam substituídos por outra coisa qualquer, por qualquer coisa muito rica, a verdadeira mensagem. Temos apenas de continuar à escuta.

Esta era a parte mais difícil de explicar à imprensa, que os sinais não tinham essencialmente conteúdo algum, nenhum significado: tratava-se apenas das primeiras centenas de números primos por ordem, um retrocesso ao princípio e depois novamente as simples representações binárias aritméticas: 1, 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29, 31… nove não era um número primo, explicara ela, porque era divisível por três (assim como por nove e um, claro). Dez não era um número primo porque era divisível por cinco e dois (assim como por dez e um). Onze era um número primo porque era divisível somente por um e por si mesmo. Mas para quê transmitir números primos? Aquilo recordava-lhe um sábio idiota, uma daquelas pessoas que podem ser grosseiramente deficientes em aptidões sociais ou verbais, mas são capazes de proezas espantosas de aritmética mental — como calcular, por exemplo, depois de pensar um momento, em que dia da semana calharia 1 de Junho de 1977. Não faziam isso para nada; faziam-no porque gostavam, porque eram capazes de fazê-lo.

Ela sabia que a mensagem começara a chegar havia poucos dias apenas, mas sentia-se ao mesmo tempo eufórica e profundamente decepcionada. Ao fim de todos aqueles anos tinham finalmente recebido um sinal — uma espécie de sinal, enfim. Mas o seu conteúdo era superficial, oco, vazio. Imaginara que receberia a Enciclopédia Galáctica.

Só alcançamos a capacidade de utilizar a radioastronomia nas últimas décadas, recordava a si mesma, numa galáxia onde a idade média das estrelas é de milhares de milhões de anos. A possibilidade de receber um sinal de uma civilização exatamente tão avançada como a nossa é, naturalmente, ínfima. Se eles estivessem um bocadinho que fosse atrás de nós, faltar-lhes-ia a capacidade tecnológica de comunicar sequer conosco. Portanto, o sinal mais provável deveria vir de uma civilização muito mais avançada. Talvez fossem capazes de compor fugas-espelho completas e melódicas: o contraponto seria o tema escrito de trás para a frente. Não, concluiu. Embora isso fosse sem dúvida uma espécie de gênio e certamente além das suas aptidões, era uma pequena extrapolação daquilo que os seres humanos eram capazes de fazer. Bach e Mozart tinham pelo menos feito tentativas respeitáveis.

Tentou dar um salto maior para a mente de alguém que fosse enormemente, ordens de magnitude, mais inteligente do que ela, mais esperto do que Drumlin, digamos, ou Eda, o jovem físico nigeriano que acabara de ganhar o Prêmio Nobel. Mas era impossível. Conseguia apenas cismar com a demonstração do último teorema de Ferma ou a conjectura de Goldbach nalgumas linhas de equações. Conseguia imaginar problemas que ficavam enormemente além da nossa capacidade, mas que seriam canja para eles. Mas não conseguia meter-se na sua mente; não conseguia imaginar o que seria pensar se uma pessoa fosse muito mais apta do que um ser humano. Naturalmente. Não era surpresa nenhuma. Que esperava? Era como tentar visualizar uma nova cor primária ou um mundo no qual fosse possível reconhecer individualmente várias centenas de conhecidos apenas pelo seu cheiro… Era capaz de falar dessas coisas, mas não de as experimentar. Por definição, tem de ser tremendamente fácil compreender o comportamento de um ser muito mais inteligente do que nós. Mas mesmo assim, mesmo assim… por quê apenas números primos?

Os radioastrônomos de Argus tinham feito progressos nos últimos dias. Vega tinha um movimento conhecido — uma componente conhecida da sua velocidade na direção da Terra ou afastando-se dela, uma componente conhecida lateralmente, através do céu, contra o fundo de estrelas mais distantes. Os telescópios de Argus, a trabalhar juntamente com radiobservatórios da Virgínia Ocidental e da Austrália, tinham determinado que a fonte se movia com Vega. Não só o sinal vinha, tão exatamente quanto podiam medir, do lugar onde Vega se situava no céu, como também compartilhava os movimentos peculiares e característicos de Vega. A não ser que se tratasse de uma brincadeira de proporções heróicas, a fonte dos impulsos dos números primos encontrava-se realmente no sistema de Vega. Não havia nenhum efeito Doppler adicional devido ao movimento do emissor, talvez preso a um planeta nas imediações de Vega. Os extraterrestres tinham efetuado a compensação necessária para o movimento orbital. Talvez fosse uma espécie de cortesia interestelar.

— «A maldita coisa mais maravilhosa de que jamais ouvi falar. E não tem nada a ver com a nossa instituição» — disse um funcionário da Defense Advanced Research Projects Agency ao preparar-se para regressar a Washington.

Assim que se fizera a descoberta, Ellie destinara um certo número dos telescópios para a observação de Vega numa faixa de outras freqüências. Inequivocamente, eles tinham encontrado o mesmo sinal, a mesma monótona sucessão de números primos, a «bipar» na linha de hidrogênio de mil quatrocentos e vinte megahertz, na linha de oxidrilo de mil seiscentos e sessenta e sete megahertz e em muitas outras freqüências. Em todo o espectro-rádio, com uma orquestra eletromagnética, Vega debitava números primos.

— Não faz sentido — disse Drumlin, a tocar distraidamente na fivela do cinto. — Não nos podia ter escapado antes. Toda a gente tem observado Vega. Há anos. A Arroway observou-a de Arecibo há uma década. Subitamente, na terça-feira passada, Vega começa a transmitir números primos? Por que agora? Que há de tão especial neste momento? Como se explica que tenham começado a transmitir apenas alguns anos depois de Argus ter começado a escutar?

— Talvez o seu emissor tenha estado parado para reparações durante dois séculos — sugeriu Valerian — e tenham acabado de o recolocar em linha. Talvez o seu ciclo de serviço seja transmitir para nós apenas um ano em cada milhão. Há todos os outros planetas candidatos que podem abrigar vida, bem sabe. Nós não somos provavelmente o único miúdo do quarteirão. — Mas Drumlin, visivelmente descontente, limitou-se a abanar a cabeça.

Embora a sua natureza fosse o oposto da conspirativa, Valerian pensou ter captado uma insinuação disfarçada na última pergunta de Drumlin: não seria tudo aquilo uma tentativa temerária e desesperada dos cientistas de Argus para impedir um encerramento prematuro do projeto? Não era possível. Valerian abanou a cabeça. Ao passar, Der Heer viu-se confrontado com dois peritos de categoria superior do problema SETI a abanar silenciosamente a cabeça um ao outro.