«Diga-se, a propósito, que não conseguimos encontrar nenhum registro dos arquivos alemães do que estava naquela transmissão primitiva. Não podemos ter a certeza absoluta de que a gente de Vega não efetuou alguma modificação no conteúdo antes de no-la reenviar. Podemos reconhecer Hitler, sem dúvida, e a parte do estádio olímpico que vemos corresponde exatamente a Berlim em 1936. Mas não temos nenhuma maneira de saber se, naquele momento, Hitler estava realmente a coçar o bigode ou a sorrir, como mostram na transmissão.
Ellie chegou ligeiramente ofegante, seguida por Valerian. Tentaram ocupar cadeiras afastadas, encostadas à parede, mas Der Heer reparou e chamou a atenção da presidente para eles.
— Doutora Arow… Arroway? Apraz-me que tenha chegado sem problemas. Primeiro deixe-me felicitá-la pela sua esplêndida descoberta. Esplêndida. Hum, Marvin…
— Cheguei a um ponto final, senhora Presidente.
— Ótimo. Doutora Arroway, sabemos que tem uma novidade qualquer. Importa-se de nos falar a esse respeito?
— Peço desculpa de chegar atrasada, senhora Presidente, mas creio que acabamos de ganhar o jackpot cósmico. Nós… É… Permita que tente explicar deste modo: em tempos clássicos, há milhares de anos, quando o pergaminho escasseava, as pessoas voltavam a escrever sobre um antigo pergaminho, dizendo aquilo que se chama um «palimpsesto». Havia escrita sob escrita sob escrita. Este sinal de Vega é, evidentemente, muito forte. Como sabe, há os números primos e, «debaixo» deles, naquilo que se chama «modulação de polarização», essa fantástica história do Hitler. Mas debaixo da seqüência dos números primos e debaixo da transmissão olímpica retransmitida acabamos de descobrir uma mensagem incrivelmente rica — pelo menos estamos muito convencidos de que é uma mensagem. Tanto quanto podemos dizer, esteve lá sempre. Nós acabamos de a detectar. É mais fraca do que o sinal de anúncio, mas sinto-me embaraçada por não a ter descoberto mais cedo.
— Que diz? — perguntou a presidente. — De que trata?
— Não fazemos a mais vaga idéia, senhora Presidente. Algumas das pessoas do Projeto Argus descobriram-na inesperadamente esta manhã, hora de Washington. Estivemos a trabalhar no assunto toda a noite.
— Através de um telefone vulgar? — perguntou Kitz.
— Com codificação comercial-padrão.
Ellie estava um pouco afogueada. Abriu a caixa do telefax, preparou rapidamente um printout de transparência e, com um projetor de teto, projetou a sua imagem num écran.
— Está aqui tudo quanto sabemos até agora. Obteremos um bloco de informação contendo cerca de mil bits. Haverá uma pausa e depois o mesmo bloco será repetido, bit por bit. Em seguida haverá outra pausa e passaremos ao bloco seguinte. Também é repetido. A repetição de todos os blocos pretende provavelmente minimizar a possibilidade de erros de transmissão. Eles devem pensar que é muito importante recebermos com toda a precisão seja o que for que estão a transmitir. Chamemos a cada um destes blocos de informação uma página. Argus está a captar algumas dúzias destas páginas por dia. Mas não sabemos de que tratam. Não são um simples código pictográfico como a mensagem olímpica. Isto é algo muito mais profundo e muito mais rico. Parece ser, pela primeira vez, informação que eles criaram. A única pista que temos até agora é a de que as páginas parecem estar numeradas. Ao princípio de cada página há um número em aritmética binária. Estão a ver este aqui? E, todas as vezes que aparece outro par de páginas idênticas, está rotulado com o número seguinte mais alto. Neste momento estamos na página… dez mil quatrocentos e treze. É um grande livro. Por cálculo retroativo, parece que a mensagem começou há cerca de três meses. Tivemos sorte em captá-la assim tão ao princípio.
— Eu tinha razão, não tinha? — Kitz inclinou-se por cima da mesa para Der Heer. — Não se trata do gênero de mensagem que queiramos entregar aos Japoneses, ou aos Chineses, ou aos Russos, pois não?
— Vai ser fácil decifrá-la? — perguntou a presidente falando acima do murmúrio de Kitz.
— Claro que faremos os nossos melhores esforços nesse sentido. E provavelmente será útil se a National Security Agency também trabalhar nela. Mas, sem uma explicação de Vega, sem um livro de instruções, digamos, acho que não vamos progredir muito. Não parece, a esse respeito não restam dúvidas, estar escrito em inglês, alemão ou qualquer outra língua da Terra. A nossa esperança é que a mensagem chegue ao fim, talvez na página vinte mil ou na trinta mil, e depois recomece do princípio, para que possamos colmatar as brechas, as partes que faltam. Talvez antes de a Mensagem integral se repetir haja um livro de instruções, uma espécie de McGuffey’s Reader, que nos permita compreendê-la.
— Se me permite, senhora Presidente…
— Senhora Presidente, este é o doutor Peter Valerian, do California Institute of Technology, um dos pioneiros neste campo.
— Queira dizer, doutor Valerian.
— Esta é uma transmissão intencional para nós. Eles sabem que estamos aqui. Fazem alguma idéia, em virtude de terem interceptado a nossa transmissão de 1936, do alcance da nossa tecnologia, da nossa inteligência. Não se dariam a todo este trabalho se não quisessem que compreendêssemos a mensagem. Algures, nesta, encontra-se a chave para nos ajudar a compreendê-la. É apenas uma questão de acumular todos os dados e analisá-los muito cuidadosamente.
— Bem, de que lhe parece que a Mensagem trata?
— Não encontro maneira nenhuma de o dizer, senhora Presidente. Posso apenas repetir o que a doutora Arroway disse. «É uma Mensagem intrincada e complexa. A civilização emissora está ansiosa por que a recebamos. Talvez tudo isto seja um pequeno volume da Encyclopaedia Galactica. A estrela Vega tem cerca de três vezes mais massa do que o Sol e é cerca de cinqüenta vezes mais luminosa. Em virtude de queimar o seu combustível nuclear tão depressa, tem uma duração de vida muito mais curta do que o Sol…
— Sim, talvez algo esteja prestes a correr mal em Vega — interrompeu o diretor da Central Intelligence. — Talvez o seu planeta vá ser destruído. Talvez eles queiram que quaisquer outros saibam da sua civilização antes de desaparecerem.
— Ou — opinou Kitz — talvez andem à procura de um novo lugar para se mudarem, e a Terra convir-lhes-ia perfeitamente. Talvez não tenha sido por acaso que optaram por enviar-nos uma imagem de Adolph Hitler.
— Calma — pediu Ellie —, há uma quantidade de possibilidades, mas nem tudo é possível. Não existe nenhuma maneira de a civilização emissora saber se estamos a receber a Mensagem, e muito menos se estamos a fazer algum progresso na sua decifração. Se considerarmos a Mensagem ofensiva, não somos obrigados a responder. E, mesmo que respondêssemos, eles só receberiam a resposta ao fim de vinte e seis anos, e passariam mais vinte e seis anos antes de poderem responder-lhe. A velocidade da luz é grande, mas não é infinitamente grande. Estamos muito bem isolados de Vega. E, se houver alguma coisa que nos preocupe a respeito desta nova Mensagem, dispomos de décadas para decidir o que fazer a seu respeito. Não entremos já em pânico. Pronunciou as últimas palavras ao mesmo tempo que dirigia um sorriso agradável a Kitz.