— Aprecio essas palavras, doutora Arroway — declarou a presidente. — Mas as coisas estão a acontecer depressa. Demasiado depressa. E há demasiados «talvez». Ainda não fiz sequer uma comunicação pública a respeito de tudo isto. Nem sequer dos números primos, quanto mais da baralhada do Hitler. Agora temos de pensar nesse «livro» que diz estarem eles a enviar. E, em virtude de vocês, cientistas, não se coibirem nada de falar uns com os outros, os boatos voam. Phyllis, onde está aquela pasta? Cá está, olhe para estes cabeçalhos.
Brandidos sucessivamente de braço estendido, todos eles transmitiam a mesma mensagem com pequenas variações de arte jornalística: «Doutora espacial fala de radiespetáculo de monstros com olhos de insetos», «Telegrama astronômico aponta para existência de inteligência extraterrestre», «Voz do céu?» «Vêm aí os alienígenas! Vêm aí os alienígenas!». A presidente deixou os recortes cair para a mesa.
— Pelo menos a história do Hitler ainda não transpirou. Estou à espera desses cabeçalhos: «Hitler vivo e bem no espaço, dizem EUA.» E pior. Muito pior. Acho que seria conveniente interromper esta reunião e voltarmos a reunir-nos mais tarde.
— Se me permite, senhora Presidente — interveio Der Heer hesitantemente, com evidente relutância. — Peço que me desculpe, mas há algumas implicações internacionais que creio deverem ser debatidas agora.
A presidente limitou-se a suspirar, aquiescente. Der Heer continuou:
— Diga-me se o que vou dizer está certo, doutora Arroway. Todos os dias a estrela Vega nasce sobre o deserto do Novo México e depois vocês recebem seja qual for a página desta complexa transmissão — seja ela o que for — que suceda eles estarem a enviar para a Terra nesse momento. Oito horas mais tarde, ou coisa parecida, a estrela põe-se. Certo até agora? Muito bem. No dia seguinte, a estrela volta a nascer a oriente, mas vocês perderam algumas páginas durante o tempo em que foi impossível observá-la, depois de ela se ter posto na noite anterior. Certo? Portanto, é como se estivessem a receber páginas que passam de trinta para cinqüenta e depois de oitenta para cem, etc. Por muito pacientemente que observemos, vão-nos faltar enormes quantidades de informação. Lacunas. Mesmo que eventualmente a mensagem se repita, vamos ter lacunas.
— É inteiramente certo. — Ellie levantou-se e aproximou-se de um enorme globo do mundo. Era evidente que a Casa Branca se opunha à obliqüidade da Terra; o eixo daquele globo era desafiadoramente vertical. Hesitante, ela fê-lo girar. — A Terra gira. Precisamos de radiotelescópios regularmente distribuídos por muitas longitudes, se não queremos lacunas. Qualquer outra nação que observe apenas o seu próprio território vai imergir na mensagem e emergir da mensagem — talvez até nas partes mais interessantes. Este é um problema do mesmo tipo que uma nave espacial interplanetária americana enfrenta. Transmite as suas descobertas para a Terra quando passa por algum planeta, mas os EUA podem estar voltados para o outro lado nessa altura. Por isso, a NASA tratou do necessário para que três estações radiorrastreadoras fossem regularmente distribuídas em longitude à volta da Terra. Ao longo das décadas têm desempenhado soberbamente o seu papel. Mas a sua voz emudeceu timidamente e ela olhou de frente para P. L. Garrison, o administrador da NASA.
Homem magro, macilento e de ar amigável, ele pestanejou.
— Obrigado. Sim. Chama-se Deep Space Network e orgulhamo-nos muito dela. Temos estações no deserto do Mojave, em Espanha e na Austrália. Claro que os fundos não chegam, mas, com uma pequena ajuda, creio que conseguiríamos acelerar.
— Espanha e Austrália? — perguntou a presidente.
— Para trabalho puramente científico — disse o secretário de Estado. — Estou certo de que não há nenhum problema. No entanto, se este programa de investigação tivesse implicações políticas, poderia tornar-se um pouco arriscado.
As relações americanas com ambos os países tinham arrefecido ultimamente.
— Não existe dúvida nenhuma de que isto tem implicações políticas — declarou a presidente, um pouco agastada.
— Mas nós não temos de ficar presos à superfície da Terra — interveio um general da Força Aérea. — Podemos vencer o período de rotação. Precisamos apenas de um grande radiotelescópio em órbita terrestre.
— Muito bem — disse a presidente, a olhar em redor da mesa. — Temos um radiotelescópio espacial? Quanto tempo levaria a pôr um no ar? Quem percebe disso? Doutor Garrison?
— Hum… não, senhora Presidente. Nós na NASA apresentamos uma proposta para o Maxwell Observatory em cada um dos últimos três anos fiscais, mas o OMB retirou-a todas as vezes do orçamento. Temos um estudo de concepção pormenorizado, evidentemente, mas seriam precisos anos em, pelo menos três anos — para podermos pô-lo no ar. E acho que devo recordar a toda a gente que, até ao último Outono, os Russos tiveram a funcionar em órbita terrestre um telescópio de onda milimétrica a submilimétrica. Não sabemos por que motivo falhou, mas eles estariam em melhor situação para enviar uns cosmonautas lá acima, arranjá-lo, do que nós para construir e lançar um a partir do zero.
— É assim? — perguntou a presidente. — A NASA tem um telescópio vulgar no espaço, mas não tem nenhum grande radiotelescópio. Não há já lá em cima alguma coisa apropriada? A respeito da comunidade da informação? A National Security Agency? Ninguém?
— Portanto, para acompanhar esta linha de raciocínio — interveio Der Heer —, temos de convir que se trata de um sinal forte e numa quantidade de freqüências. Depois de Vega se pôr nos Estados Unidos da América, há radiotelescópios em meia dúzia de países que estão a detectar e a registrar o sinal. Não são tão sofisticados como o Projeto Argus, e provavelmente ainda não se deram conta da modulação de polarização. Se aguardarmos até prepararmos e lançarmos um radiotelescópio, a mensagem pode acabar entretanto, desaparecer para sempre. Não parece, então, que a única solução é a cooperação imediata com um certo número de outras nações, doutora Arroway?
— Não creio que qualquer nação seja capaz de realizar este projeto sozinha. Serão necessárias muitas nações, dispostas em longitude, a toda a volta da Terra. Envolverá a utilização de todas as grandes instalações de radioastronomia agora em funcionamento — os grandes radiotelescópios da Austrália, da China, da Índia, da União Soviética, do Médio Oriente e da Europa Ocidental. Seria irresponsável se acabássemos por ficar com lacunas na cobertura porque alguma parte crítica da Mensagem tivesse chegado quando não se encontrava nenhum telescópio apontado a Vega. Teremos de fazer alguma coisa a respeito do Pacífico oriental entre o Havaí e a Austrália, e talvez alguma coisa a respeito do Médio Atlântico.
— Bem — observou a contragosto o diretor da Central Intelligence —, os Soviéticos têm diversos navios rastreadores de satélites que são bons em banda S para banda X, o Akademik Keldysh, por exemplo. Ou o Marshal Nedelin. Se chegarmos a algum acordo com eles, talvez possam estacionar navios no Atlântico ou no Pacífico e preencher as lacunas.
Ellie franziu os lábios para responder, mas a presidente já estava a falar:
— Está bem, Ken, talvez tenha razão. Mas eu repito que esta coisa está a andar demasiado depressa. Há alguns outros assuntos que tenho de resolver neste momento. Gostaria que o diretor da Central Intelligence e o pessoal da National Security trabalhassem durante a noite para se saber se temos quaisquer opções além da cooperação com outros países especialmente com países que não são nossos aliados. Gostaria que o secretário de Estado preparasse, em cooperação com os cientistas, uma lista contingencial de nações e indivíduos a serem abordados se tivermos de cooperar e uma certa avaliação das conseqüências. Haverá alguma nação susceptível de ficar furiosa conosco se a não convidarmos para ficar à escuta? Poderemos ser vítimas de chantagem da parte de alguém que prometa os dados e depois os sonegue? Devemos tentar ter mais de um país em cada longitude? Analisem as implicações. E, pelo amor de Deus — os seus olhos passaram de rosto em rosto à volta da comprida mesa polida —, não abram a boca a este respeito. Você também, Arroway. Já temos problemas suficientes.