CAPÍTULO VII
O etanol em W-3
Não se deve dar nenhum crédito à opinião… de que os demônios atuam como mensageiros e intérpretes entre os deuses e os homens para levarem todas as nossas petições aos deuses e para nos trazerem de volta a ajuda dos deuses. Pelo contrário, devemos acreditar que são espíritos muito ávidos de infligir mal, absolutamente alienados da retidão, inchados de orgulho, pálidos de inveja, sutis na falsidade…
De que surgirão heresias novas, temos a profecia de Cristo; mas de que antigas serão destruídas, não temos nenhuma predição.
Ela planejara esperar o avião de Vaygay em Albuquerque e conduzi-lo às instalações Argus no Thunderbird. O resto da delegação soviética viajaria nos carros do Observatório. Teria gostado de guiar a toda a velocidade para o aeroporto no ar fresco do alvorecer, passando talvez, de novo, por uma guarda de honra de numerosos coelhos. E imaginara com interesse uma longa e importante conversa particular com Vaygay, no regresso. Mas a nova gente da segurança da General Services Administration vetara a idéia. A atenção dos media e a comunicação sóbria da presidente no fim da sua conferência de imprensa de duas semanas atrás atraíra enormes multidões às isoladas instalações no deserto. Havia uma violência potencial, tinham dito a Ellie. De futuro, ela só deveria viajar em carros governamentais, e mesmo assim com escoltas discretamente armadas. O pequeno comboio ia seguindo o seu caminho sinuoso na direção de Albuquerque a uma velocidade tão respeitável e responsável que ela deu com o seu pé direito a carregar, por vontade própria, num acelerador imaginário no tapete de borracha à sua frente.
Seria bom passar de novo algum tempo com Vaygay. Vira-o pela última vez em Moscovo três anos antes, num daqueles períodos em que ele estava proibido de visitar o Ocidente. A autorização para viajar ao estrangeiro subira e descera como as marés ao longo das décadas, consoante as mutáveis modas políticas e o próprio comportamento imprevisível de Vaygay. Era-lhe negada permissão após alguma pequena provocação política da qual ele parecera incapaz de se conter e em seguida voltava a ser-lhe concedida quando não se conseguia encontrar mais ninguém de competência comparável para completar uma ou outra delegação científica. Ele recebia convites de todo o mundo para preleções, seminários, colóquios, conferências, grupos de estudo conjunto e comissões internacionais. Como laureado Nobel da Física e membro de pleno direito da Academia de Ciências Soviética, podia dar-se ao luxo de ser um pouco mais independente do que a maioria. Parecia Freqüentemente em equilíbrio precário nos limites extremos da paciência e da contenção da ortodoxia governamental.
O seu nome completo era Vasily Gregorovich Lunacharsky, conhecido em toda a comunidade global dos físicos como Vaygay, de acordo com as iniciais do seu primeiro nome e o seu patronímico. As suas relações flutuantes e ambíguas com o regime soviético intrigavam-na, a ela e a outros no Ocidente. Ele era um parente afastado de Anatoly Vasilyevich Lunacharsky, um antigo bolchevique colega de Górki, Lenine e Trotsky; o Lunacharsky mais idoso servira posteriormente como comissário do povo da Educação e embaixador soviético em Espanha até à sua morte, em 1933. A mãe de Vaygay fora judia. Ele tinha, constava, trabalhado em armas nucleares soviéticas, embora tivesse certamente sido demasiado jovem para ter desempenhado qualquer papel importante na realização da primeira explosão termonuclear soviética.
O seu instituto estava bem servido de pessoal e bem equipado e a sua produtividade científica era prodigiosa, o que indicava que as intromissões do Comitê de Segurança do estado eram, no máximo, infreqüentes. Não obstante o fluxo e refluxo da autorização para viajar no estrangeiro, ele fora um assistente freqüente de importantes conferências internacionais, incluindo os simpósios Rochester sobre física de alta energia, os encontros Texas sobre astrofísica relativista e as informais, mas ocasionalmente influentes, reuniões científicas políticas, sobre maneiras de reduzir a tensão internacional.
Tinham dito a Ellie que, na década de sessenta, Vaygay visitara a Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ficara encantado com a proliferação de slogans irreverentes, escatológicos e politicamente escandalosos impressos em «botões» baratos. Podia-se, recordava ela com certa nostalgia, avaliar as preocupações sociais mais prementes de uma pessoa com um simples olhar. Os botões também eram populares e ferozmente comercializados na União Soviética, mas geralmente enalteciam a equipe de futebol do Dínamo ou uma das bem sucedidas naves espaciais da série Luna, que tinham sido as primeiras astronaves a pousar na Lua. Os botões de Berckeley eram diferentes. Vaygay comprara dúzias deles, mas deliciava-o usar um em particular. Era do tamanho da palma da sua mão e dizia: «Rezem pelo sexo.» Até o exibia em reuniões científicas. Quando o interrogavam acerca da atração que sentia pelo objeto, respondia: «No vosso país é ofensivo apenas num aspecto. No meu país é ofensivo em dois aspectos independentes.» Se insistiam mais com ele, limitava-se a comentar que o seu famoso parente bolchevique escrevera um livro sobre o lugar da religião numa sociedade socialista. Desde então, o seu inglês melhorara enormemente — muito mais do que o russo de Ellie —, mas a sua propensão para usar botões de lapela ofensivos diminuíra tristemente.
Uma vez, durante uma discussão acalorada sobre os méritos relativos dos dois sistemas políticos, Ellie vangloriara-se de que fora livre de marchar defronte da Casa Branca a protestar contra o envolvimento americano na guerra do Vietnam. Vaygay respondera que, no mesmo período, ele fora igualmente livre de marchar defronte do Kremlin a protestar contra o envolvimento americano na guerra do Vietnam.
Ele nunca se mostrara inclinado, por exemplo, a fotografar as barcaças de lixo carregadas de resíduos malcheirosos e barulhentas gaivotas que passavam ronceiramente defronte da Estátua da Liberdade, como fizera outro cientista soviético quando, para o distrair, ela o acompanhara no ferry de Staten Island durante um intervalo de uma reunião na cidade de Nova Iorque. Tão-pouco, ao contrário de alguns dos seus colegas, fotografara sofregamente os tugúrios em ruínas e as barracas de chapa ondulada dos porto-Riquenhos pobres durante uma excursão de autocarro de um luxuoso hotel da praia ao Observatório de Arecibo. Ellie perguntava a si mesma a quem mostravam eles essas fotografias. Invocou mentalmente uma imensa biblioteca do KGB dedicada às infelicidades, injustiças e contradições da sociedade capitalista. Animá-los-ia, quando desconsolados com alguns dos malogros da sociedade soviética, dar uma vista de olhos aos instantâneos evanescentes dos seus imperfeitos primos americanos?
Havia na União Soviética muitos cientistas brilhantes que, por delitos desconhecidos, não eram autorizados a sair da Europa do Leste havia décadas. Konstantinov, por exemplo, nunca estivera no Ocidente até meados da década de sessenta. Quando, numa reunião internacional em Varsóvia — a uma mesa cheia de copos vazios de brande do Azerbaijão, depois de concluídas as respectivas missões —, tinham perguntado a Konstantinov por quê, ele respondera: «Porque os pulhas sabem: deixam-me sair, eu nunca mais volto.» No entanto, eles tinham-no deixado realmente sair durante o degelo das relações científicas entre os dois países nos fins da década de sessenta e nos princípios da de setenta e ele voltara todas as vezes. Mas agora já não o deixavam sair mais e ele estava reduzido a enviar aos seus colegas ocidentais cartões de Ano Novo em que se representava tristemente sentado de pernas cruzadas e cabeça inclinada numa esfera debaixo da qual estava a equação de Schwarzchild referente ao raio de um buraco negro. Encontrava-se num profundo poço potencial, costumava dizer a visitantes de Moscovo nas metáforas da física. Eles nunca mais voltariam a deixá-lo sair.