No fim-de-semana antes do encontro marcado com Joss estavam deitados na cama, com o sol do fim da tarde, que as fendas das gelosias deixavam entrar, a desenhar padrões nos seus corpos enlaçados.
— Numa conversa normal — dizia ela — posso falar do meu pai sem sentir mais do que… uma leve punhalada de perda. Mas, se me permito lembrar-me realmente dele — do seu sentido do humor, por exemplo, ou daquela… apaixonada lealdade —, então a fachada desmorona-se e apetece-me chorar porque ele partiu.
— Não admira; a linguagem pode libertar-nos de sentir, ou quase — respondeu Der Heer, a afagar-lhe o ombro. — Talvez essa seja uma das suas funções, para que possamos compreender o mundo sem sermos totalmente avassalados por ele.
— Sendo assim, então a invenção da linguagem não é apenas uma bênção. Sabes, Ken, daria tudo — refiro-me realmente a tudo quanto tenho — se pudesse passar apenas alguns minutos com o meu Paizinho.
Imaginou um céu com todas aquelas boas mãezinhas e todos aqueles bons paizinhos a flutuar ou a voar para uma nuvem próxima. Teria de ser um lugar espaçoso para acomodar todas as dezenas de milhares de milhões de pessoas que tinham vivido e morrido desde a emergência da espécie humana. Era capaz de estar muito cheio, pensou, a não ser que o Céu religioso fosse construído numa escala mais ou menos parecida com a do céu astronômico. Assim, haveria espaço de sobra.
— Deve haver um número qualquer — disse — capaz de medir a população total de seres inteligentes da Via Láctea. Quantos calculas que sejam? Se há um milhão de civilizações, cada uma com cerca de mil milhões de indivíduos, isso é… hum… dez à décima quinta potência de seres inteligentes. Mas se a maioria deles é mais avançada do que nós, talvez a idéia de indivíduos se torne inapropriada; talvez isso seja apenas outro chauvinismo da Terra.
— Decerto. E então podes calcular a taxa de produção galáctica de Gauloises, Twinkies, sedans Volga e comunicadores Sony de bolso. Assim poderíamos calcular o produto galáctico bruto. Uma vez possuidores desse dado, poderíamos dedicar-nos ao cálculo do produto cósmico…
— Estás a troçar de mim — interrompeu ela, com um sorriso meigo, nada aborrecida. — Mas pensa em tais números. Quero dizer, pensa realmente neles. Todos esses planetas com todos esses seres mais avançados do que nós. Não sentes uma espécie de excitação ao pensar nisso?
Adivinhou o que ele estava a pensar, mas apressou-se a prosseguir:
— Olha, vê isto. Tenho estado a ler, para o encontro com Joss.
Estendeu a mão para a mesa-de-cabeceira, onde estava o volume dezesseis de uma antiga Encyclopaedia Britannica Macropaedia, com o título de «rubens a Somália», e abriu-o numa página marcada com um printout de computador. Apontou para um artigo chamado «Sagrado ou Santo».
— Os teólogos parecem ter reconhecido um aspecto especial, não-racional — não lhe chamaria irracional — do sentimento de sagrado ou santo. Chamam-lhe «numinoso». O termo foi utilizado pela primeira vez por… deixa ver… alguém chamado Rudolph Otto num livro de 1923, A Idéia do Sagrado. Ele acreditava que os humanos tinham predisposição para detectar e reverenciar o numinoso. Chama-lhe o misterium tremendum. Até o meu latim é suficiente para compreender o significado da expressão.
«Na presença do misterium tremendum, as pessoas sentem-se absolutamente insignificantes, mas, se bem interpreto, não pessoalmente alienadas. O autor pensava no numinoso como uma coisa «inteiramente outra» e na reação humana a ele como «espanto absoluto». Ora, se é disso que as pessoas religiosas falam quando utilizam palavras como «sagrado» ou «santo», estou com elas. Senti algo parecido só por esperar escutar um sinal, quanto mais por recebê-lo de fato. Penso que toda a ciência elicia esse sentimento de temor.
«Agora escuta isto — e leu o texto:
Ao longo das últimas centenas de anos, um número de filósofos e cientistas sociais afirmaram o desaparecimento do sagrado e predisseram a morte da religião. Um escudo da história das religiões mostra que as formas religiosas mudam e que nunca existiu unanimidade sobre a natureza e a expressão da religião. Se ou não o homem…
«Os sexistas também escrevem e compilam artigos religiosos, claro. — Voltou ao texto:
Se ou não o homem se encontra agora numa situação nova para desenvolver estruturas de valores supremos radicalmente diferentes daqueles dados na percepção tradicionalmente afirmada do sagrado é uma questão vital.
— E então?
— Então penso que as religiões burocráticas tentam institucionalizar a nossa percepção do numinoso em vez de fornecerem os meios para que possamos apreender o numinoso diretamente — como se se olhasse através de um telescópio de seis polegadas. Se pressentir o numinoso está no cerne da religião, quem dirias que é mais religioso: as pessoas que seguem as religiões burocráticas ou as que ensinam ciência a si próprias?
— Vejamos se percebi bem — redargüiu ele, utilizando uma frase dela, de que se apropriara. — Está uma indolente tarde de sábado e este casal está deitado nu na cama a ler a Encyclopaedia Brittanica um ao outro e a discutir se a Galáxia da Andrômeda é mais «numinosa», do que a Ressurreição. Sabem ou não passar um bom bocado?
PARTE II
A MÁQUINA
O Preletor Todo-Poderoso, ao dispor os princípios da ciência na estrutura do universo, convidou o homem a estudar e a imitar. É como se ele tivesse dito aos habitantes deste globo a que chamamos nosso: «Fiz uma terra para o homem habitar nela e tornei visível o firmamento estrelado para lhe ensinar ciência e as artes. Ele pode agora prover ao seu próprio conforto e aprender com a minha munificência para todos a ser generoso com os outros.»
CAPÍTULO X
Precessão dos equinócios
Estaremos nós, ao defender que os deuses existem, a enganar-nos com sonhos e mentiras insubstanciais, enquanto somente a sorte e a mudança descuidadas e ocasionais controlam o mundo?
Foi estranha a maneira como as coisas aconteceram. Ela imaginara que Palmer Joss iria às instalações Argus, observaria o sinal a ser recebido pelos radiotelescópios e prestaria atenção à imensa sala cheia de fitas magnéticas e discos em que estavam armazenados os dados de muitos meses passados. Faria algumas perguntas científicas e depois examinaria, na sua multiplicidade de zeros e uns, algumas das resmas de printouts de computadores contendo a Mensagem ainda incompreensível. Não imaginara que iria passar horas a discutir filosofia ou teologia. Mas Joss recusara-se a ir a Argus. Não eram fitas magnéticas que queria examinar, disse, era o caráter humano. Peter Valerian teria sido ideal para essa discussão: despretensioso, capaz de comunicar claramente e escorado por uma genuína fé cristã, em que diariamente se empenhava. Mas, aparentemente, a presidente vetara essa idéia, quisera uma pequena reunião e pedira explicitamente que Ellie assistisse.