Joss insistira em que a discussão fosse travada ali, no Bib e Science Research Institute and Museum, em Modesto, Califórnia. Ela olhou para além de Der Heer e através da divisória de vidro que separava a biblioteca da área de exposição. Logo à entrada havia um molde em gesso de uma pedra de arenito do mar Vermelho com pegadas de dinossauro intercaladas com outras de um pedestre de sandálias, provando, segundo dizia a legenda, que homem e dinossauro foram contemporâneos, pelo menos no Texas. Pareciam estar também implicados sapateiros mesozóicos. A conclusão tirada na legenda era que a evolução não passava de uma mentira. A opinião de muitos paleontólogos, segundo a qual a mentira era a pedra de arenito, continuava, conforme Ellie notara duas horas antes, a não ser mencionada. A mistura de pegadas fazia parte de uma vasta exposição chamada «A Derrota de Darwin». À sua esquerda ficava um pêndulo de Foucault demonstrando a afirmação científica, esta aparentemente incontestada, de que a Terra gira. À sua direita, Ellie distinguiu parte de uma profunda unidade de holografia Matsushita no pódio de um pequeno auditório, do qual imagens tridimensionais dos mais eminentes clérigos podiam comunicar diretamente com os fiéis. A comunicar ainda mais diretamente com ela estava, naquele momento, o reverendo Billy Jo Rankin. Ellie só soubera no último instante que Joss convidara Rankin, e o fato surpreendeu-a. Houvera contínua discordância teológica entre eles, sobre se estava eminente um advento, se o Juízo Final era um acompanhamento inevitável do Advento e sobre o papel dos milagres no ministério clerical, entre outras matérias. Mas recentemente tinham efetuado uma reconciliação largamente publicitada, feita, dizia-se, para o bem comum da comunidade fundamentalista da América. Os sinais de reaproximação entre os Estados Unidos e a União Soviética estavam a ter ramificações à escala mundial no arbítrio de disputas. Realizar o encontro ali era talvez parte do preço que Palmer Joss tinha de pagar pela reconciliação. Provavelmente, Rankin achava que o material exposto proporcionaria apoio factual à sua posição, caso fossem debatidos alguns pontos científicos. Agora, duas horas após o início da discussão, Rankin criticava e implorava alternadamente. O seu fato, de corte impecável, as unhas recém-manicuradas e o seu sorriso luminoso contrastavam com o aspecto amarrotado, distraído e mais marcado pelo tempo de Joss. Este,com o mais leve dos sorrisos no rosto, tinha os olhos semicerrados e a cabeça inclinada no que se parecia muito com uma atitude de prece. Ainda não falara muito. Até ali, as observações de Rankin — excetuando, parecia-lhe, no tocante à conversa sobre o Êxtase — eram doutrinariamente indistinguíveis das palavras de Joss na Televisão.
— Vocês, cientistas, são muito tímidos — dizia Rankin. — Gostam de esconder a vossa luz debaixo de um cesto de alqueire. Uma pessoa nunca imaginaria, pelos títulos, o que contêm aqueles artigos. O primeiro trabalho de Einstein sobre a teoria da relatividade chamava-se «A eletrodinâmica dos corpos móveis». Nada de E=mc2 à frente. Não senhor. «A eletromecânica dos corpos móveis». Creio que, se Deus aparecesse a todo um bando grasnador de cientistas, talvez numa dessas grandes reuniões da Associação, eles escreveriam alguma coisa a esse respeito e chamar-lhe-iam, por ventura, «Da combustão dendritoforme espontânea no ar». Apresentariam montes de equações, falariam de «economia de hipóteses», mas não diriam uma palavra a respeito de Deus.
«Compreendem, vocês, cientistas, são excessivamente céticos. — Pelo movimento lateral da sua mão, Ellie deduziu que Der Heer também estava incluído naquela classificação. — Põem tudo em causa, ou tentam pôr. Nunca ouviram dizer «Deixem em paz o que está bem», nem «Se não está partido, não o consertem». Querem sempre verificar se uma coisa é aquilo a que chamam «verdade». E «verdade» significa apenas dados empíricos, resultantes de estimulações sensoriais não analisadas, coisas que podem ver e tocar. No vosso mundo não há lugar para inspiração ou revelação. Logo, desde o princípio, excluem do julgamento quase tudo a que a religião respeita. Desconfio dos cientistas porque os cientistas desconfiam de tudo.
Mal-grado seu, Ellie pensou que Rankin expusera bem a sua causa. E ele era considerado o estúpido entre os modernos vídeo-evangelistas. Não, estúpido, não, corrigiu-se: ele era aquele que considerava os seus paroquianos estúpidos. Por tudo quanto ela sabia, podia até ser muito esperto. Deveria responder-lhe? Tanto Der Heer como o pessoal local do museu estavam a gravar a discussão e, embora ambos os grupos tivessem concordado em que as gravações não seriam para utilização pública, ela preocupava-se com a possibilidade de causar embaraços ao Projeto ou à presidente se dissesse o que pensava. Mas os comentários de Rankin tinham-se tornado gradualmente mais ofensivos e não se verificavam quaisquer intervenções da parte de Der Heer ou Joss.
— Suponho que quer uma resposta — deu consigo a dizer. — Não há uma posição científica «oficial» sobre qualquer destas questões e eu não posso ter a pretensão de falar por todos os cientistas ou sequer pelo Projeto Argus. Mas posso fazer alguns comentários, se quiser.
Rankin acenou veementemente com a cabeça, a sorrir, encorajador. Languidamente, Joss limitava-se a esperar.
— Quero que compreenda que não estou a atacar o sistema de crença de ninguém. Pela parte que me toca, tem o direito a qualquer doutrina que lhe agrade, mesmo que ela seja demonstravelmente errada. E muitas das coisas que tem estado a dizer e que o reverendo Joss disse — vi-o falar na Televisão há algumas semanas — não podem ser imediatamente postas de lado. Exigem um pouco de trabalho. Mas permita-me que tente explicar porque motivo penso que são improváveis.
Até agora, pensou, fui o verdadeiro espírito do comedimento.
— Não se sente à vontade com o ceticismo científico. Mas ele desenvolveu-se porque o mundo é complicado. É sutil. A primeira idéia de qualquer pessoa não é necessariamente correta. Além disso, as pessoas são capazes de se auto-iludirem. Os cientistas também. Todas as espécies de doutrinas socialmente detestáveis foram, numa ou noutra ocasião, apoiadas por cientistas, por cientistas conhecidos, por cientistas famosos, de nomeada. E, claro, por políticos. E dirigentes religiosos respeitados. A escravatura, por exemplo, ou a marca de racismo nazi. Os cientistas cometem erros, os teólogos cometem erros, toda a gente comete erros. Faz parte do ser humano. Vocês mesmos o dizem: «Errar é humano.»
«Por conseguinte, a maneira de evitar erros, ou, pelo menos, de reduzir a possibilidade de cometer algum, é ser cético. Pomos as idéias à prova. Verificamo-las mediante rigorosos padrões de evidência. Não creio que exista uma coisa que possa considerar-se uma verdade reconhecida. Mas, quando deixamos debater as diferentes opiniões, quando qualquer cético pode efetuar a sua própria experiência para conferir determinada contenção, então a verdade tende a emergir. É essa a experiência de toda a história científica. Não é uma abordagem perfeita, mas é a única que parece funcionar.
«Ora, quando olho para a religião, vejo uma quantidade de opiniões opostas. Por exemplo, os cristãos pensam que o universo tem um número finito de anos de idade. A julgar pelos testemunhos ali expostos, é evidente que alguns cristãos (e judeus e muçulmanos) pensam que o universo tem apenas seis mil anos. Os Hindus, por outro lado — e há muitos hindus no mundo —, pensam que o universo é infinitamente velho, com um número infinito de criações e destruições subsidiárias ao longo do caminho. Não podem ter razão uns e outros. Ou o universo tem um certo número de anos de idade, ou é infinitamente velho. Os vossos amigos dali — fez um gesto para fora da porta de vidro, na direção de diversos trabalhadores do museu que passavam pela «Derrota de Darwin» — deviam discutir com os Hindus pois Deus parece ter-lhes dito algo diferente do que disse a vocês. Mas vocês têm tendência para falar só uns com os outros.