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— Talvez um pouco forte de mais? — perguntou a si própria.

— As principais religiões da Terra contradizem-se umas às outras, a torto e a direito. Não podem ter todos razão. E se todos estiverem enganados? É uma possibilidade, como sabem. Devem importar-se com a verdade, certo? Bem, a maneira de joeirar, de escolher entre todas as afirmações divergentes, é ser cético. Não sou mais cética acerca das vossas crenças religiosas do que a respeito de todas as novas idéias científicas de que tomo conhecimento. Mas, no meu gênero de trabalho, essas coisas chamam-se hipóteses, e não inspiração nem revelação.

Joss mexeu-se um pouco, mas foi Rankin quem respondeu:

— As revelações, as predições confirmadas de Deus no Velho e no Novo Testamento, são inúmeras. A vinda do Salvador é profetizada em Isaías 53, em Zacarias 14 e nas Primeiras Crônicas 17. Que Ele nasceria em Belém foi profetizado em Miguel 5. Que Ele viria da linhagem de David foi profetizado em Mateus 1 e…

— Em Lucas. Mas isso deveria constituir um embaraço para vocês, e não uma profecia cumprida. Mateus e Lucas atribuem a Jesus genealogias totalmente diferentes. Pior do que isso, traçam a linhagem de David para José, e não de David para Marta. Ou não acreditam em Deus Pai?

Rankin continuou a falar suavemente. Talvez não a tivesse compreendido.

— O Ministério e o Sofrimento de Jesus são preditos em Isaías 22 e 53 e no 22º Salmo. Que Ele seria traído por trinta moedas de prata está explícito em Zacarias 11. Se é honesta, não pode ignorar a evidência da profecia cumprida.

«E a Bíblia fala ao nosso próprio tempo. Israel e os Árabes, Gog e Mago, América e Rússia, guerra nuclear… está tudo lá, na Bíblia. Qualquer pessoa com um mínimo de senso pode vê-lo. Não é preciso ser um ilustre professor de universidade.

— O seu mal — respondeu ela — é uma incapacidade de imaginação. Essas profecias são — quase todas — vagas, ambíguas, imprecisas, susceptíveis de fraude. Admitem uma enorme quantidade de interpretações possíveis. Das profecias claras, vindas diretamente do topo, tenta esquivar-se — como a promessa de Jesus de que o Reino de Deus chegaria durante a vida de algumas pessoas da sua audiência. E não me diga que o Reino de Deus está dentro de mim. A sua audiência interpretou-o literalmente. Você só cita as passagens que lhe parecem cumpridas e ignora o resto. E não se esqueça de que havia uma fome de ver profecias cumpridas.

«Mas imagine que a sua espécie de deus — onipotente, onisciente, clemente — queria deveras deixar um registro para futuras gerações, tornar a sua existência inequívoca, clara, digamos, aos remotos descendentes de Moisés. É fácil, basta apenas algumas frases enigmáticas e alguma ordem imperiosa para que fossem transmitidas imutáveis…

Joss inclinou-se quase imperceptivelmente para a frente.

— Como, por exemplo?…

— Como: «O Sol é uma estrela.» Ou: «Marte é um lugar inóspito com desertos e vulcões, como o Sinai.» Ou: «Um corpo em movimento tende a permanecer em movimento.» Ou… vejamos rabiscou rapidamente alguns números num livro de apontamentos — «A Terra pesa um milhão de milhões de milhões de milhões de vezes o que pesa uma criança.» Ou — reconheço que ambos parecem ter alguma dificuldade com a relatividade especial, mas ela é confirmada todos os dias rotineiramente em aceleradores de partículas e raios cósmicos —, que taclass="underline" «Não há sistemas de referências privilegiados»? Ou até: «Não viajarás mais depressa do que a luz.» Qualquer coisa que eles provavelmente não pudessem saber há três mil anos.

— Quaisquer outras? — perguntou Joss.

— Bem, há um número indefinido delas, ou, pelo menos, uma para cada princípio da física. Vejamos… «Calor e luz escondem-se ocultos na mais pequena pedra.» Ou mesmo: «O sistema da Terra equivale a dois, mas o sistema da magnetite equivale a três.» Estou a tentar sugerir que a força gravitacional segue uma lei quadrada inversa, enquanto a força bipolar magnética segue uma lei cúbica inversa. Ou, em biologia… — inclinou a cabeça na direção de Der Heer, que parecia ter feito voto de silêncio. — Que me dizem a: «Dois filamentos entrelaçados são o segredo da vida»?

— Essa é interessante — admitiu Joss. — Está a falar, claro, do ADN. Mas conhece o bordão do médico, o símbolo da medicina? Os médicos do Exército usam-no na lapela. Chama-se «caduceu» e representa duas serpentes entrelaçadas. É uma hélice dupla perfeita. Desde tempos antigos que esse tem sido o símbolo de preservar a vida. Não é exatamente este o gênero de conexão que pretende sugerir?

— Bem, eu pensava que era uma espiral, e não uma hélice. Mas, se há símbolos suficientes, e profecias suficientes e mitos e folclore suficientes, eventualmente alguns deles acabam por ajustar-se a algum conhecimento científico corrente, puramente por acaso. Não posso, no entanto, ter a certeza. Talvez você tenha razão. Talvez o caduceu seja uma mensagem de Deus. Claro que não é um símbolo cristão nem um símbolo de qualquer das principais religiões de hoje. Não creio que pretenda argumentar que os deuses falaram somente para os antigos Gregos. O que estou a dizer é que, se Deus quisesse enviar-nos uma mensagem, e os escritos antigos fossem a única maneira através da qual lhe ocorresse fazê-lo, podia ter feito obra melhor. E dificilmente teria de se confinar aos escritos. Por que não há um crucifixo monstruoso a orbitar a Terra? Por que não está a superfície da Lua coberta com os Dez Mandamentos? Por que haveria Deus de ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?

Aparentemente, Joss estivera preparado para responder algumas frases atrás, com uma expressão de genuíno prazer a brilhar inesperadamente no rosto, mas o jorro de palavras de Ellie estava a adquirir balanço e talvez ele tivesse achado descortês interrompê-la.

— Além disso, por que haveriam vocês de pensar que Deus nos abandonou? Ele costumava conversar com patriarcas e profetas terça-feira sim, terça-feira não, segundo vocês acreditam. Ele é onipotente, dizem, e onisciente. Por conseqüência, não significaria nenhum esforço especial para ele recordar-nos diretamente, e sem ambigüidades, dos seus desejos, pelo menos algumas vezes em cada geração. Como se explica então, amigos? Por que não o vemos com cristalina clareza?

— Nós vemos. — Rankin encheu a frase de enorme sentimento. — Ele está a toda a nossa volta. As nossas orações são ouvidas. Dezenas de milhões de pessoas deste país renasceram e testemunharam a graça gloriosa de Deus. A Bíblia fala-nos tão claramente no tempo presente como falou no tempo de Moisés e Jesus.

— Oh, deixe-se disso! Sabe o que quero dizer. Onde estão as sarças ardentes, as colunas de fogo, a grande voz que diz «eu sou aquele que sou», a troar sobre nós vinda do Céu? Por que haveria Deus de se manifestar de maneiras tão sutis e controversas quando pode revelar-nos a sua presença completamente despida de ambigüidades?

— Mas uma voz vinda do Céu é precisamente o que você diz que descobriu — comentou Joss casualmente, enquanto Ellie fazia uma pausa para tomar fôlego, a fitá-la nos olhos.

Rankin aproveitou-se logo da idéia:

— Absolutamente. Era isso mesmo que eu ia dizer. Abraão e Moisés não tinham rádios nem telescópios. Não podiam ter ouvido o Todo-Poderoso falar em FM. Talvez hoje Deus nos fale de novas maneiras e nos permita ter uma nova compreensão. Ou talvez não seja Deus…

— Sim, Satanás. Ouvi algumas conversas a esse respeito. Parece-me loucura. Deixemos esse aspecto sossegado durante uns momentos, se não se importam. Pensam que talvez a Mensagem seja a voz de Deus, do vosso Deus. Onde, na vossa religião, responde Deus a uma prece reenviando-a para cá?

— Pessoalmente, não chamaria uma prece a uma notícia de televisão nazi — disse Joss. — Você disse que é para atrair a nossa atenção.