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— Então por que pensa que Deus optou por falar com cientistas? Por que não com pregadores, como você?

— Deus fala comigo constantemente. — O indicador de Rankin bateu-lhe audivelmente no esterno. — E aqui, com o reverendo Joss. Deus disse-me que está iminente uma revelação. Quando o fim do mundo se aproximar, o êxtase cairá sobre nós, o julgamento dos pecadores, a ascensão ao Céu dos eleitos…

— Ele disse-lhe que ia anunciar isso no espectro do rádio? A sua conversa com Deus está registrada nalgum lado, para que possamos verificar que realmente ocorreu? Ou temos apenas a sua palavra? Por que escolheria Deus fazer o anúncio a radioastrônomos, e não a homens e mulheres do clero? Não acha um pouco estranho que a primeira mensagem de Deus em dois mil anos ou mais seja em números primos… e Adolf Hitler nas Olimpíadas de 1936? O seu Deus deve ter um grande sentido do humor.

— O meu Deus pode ter o sentido seja do que for que Lhe apeteça.

Der Heer sentia-se claramente alarmado com a primeira demonstração de verdadeiro rancor.

— Bem… talvez deva recordar a todos o que esperamos conseguir com este encontro… — começou.

Lá está o Ken na sua faceta apaziguadora, pensou Ellie. Nalguns problemas é corajoso, mas principalmente quando não tem nenhuma responsabilidade no tocante a ação. É um valente falador… na intimidade. Mas em política científica, e especialmente quando representa a presidente, torna-se muito acomodatício, mostra-se disposto a estabelecer um compromisso até com o próprio Diabo. Meteu travões aos pensamentos. A linguagem teológica estava a pegar-se-lhe…

— Isso é outra coisa — declarou, interrompendo a sua própria linha de pensamento, assim como a de Der Heer. — se aquele sinal é de Deus, por que razão vem apenas de um lugar no céu, nas imediações de uma estrela próxima particularmente brilhante? Por que não vem de todo o céu ao mesmo tempo, como a radiação de fundo do corpo negro cósmico? Vindo de uma estrela, parece um sinal de outra civilização. Vindo de todo o lado, pareceria muito mais um sinal do vosso Deus.

— Deus pode fazer com que um sinal venha do olho do cu da Ursa Menor, se quiser. — O rosto de Rankin estava a ficar muito vermelho. -Desculpe, mas irritou-me. Deus pode fazer tudo.

— Tudo quanto você não compreende, Mister Rankin, atribui-o a Deus. Deus, para si, é o tapete para debaixo do qual varre todos os mistérios do mundo, todos os desafios à sua inteligência. Não pode desligar pura e simplesmente o seu pensamento e dizer foi Deus que fez.

— Minha senhora, não vim aqui para ser insultado…

— Veio aqui? Julgava que vivia aqui.

— Minha senhora… — Rankin ia dizer qualquer coisa, mas mudou de idéias. Respirou fundo e continuou: — Este é um país cristão e os cristãos têm verdadeiro conhecimento desta questão, uma responsabilidade sagrada de se certificarem de que a sagrada palavra de Deus é compreendida…

— Eu sou cristã e o senhor não fala por mim. Fechou-se a si próprio numa espécie qualquer de mania religiosa do século V. Desde então aconteceu a Renascença, aconteceu o Iluminismo. Onde esteve metido?

Tanto Joss como Der Heer soergueram-se das cadeiras.

— Por favor — implorou Ken, a olhar diretamente para Ellie. — Se não se cingir mais à agenda, não vejo como conseguiremos cumprir o que a presidente nos pediu.

— Bem, queriam «uma troca de opiniões francas»…

— É quase meio-dia — lembrou Joss. — Por que não fazemos um pequeno intervalo para o almoço?

Fora da sala de conferências da biblioteca, encostada ao gradeamento que cercava o pêndulo de Foucault, Ellie iniciou uma breve conversa murmurada com Der Heer:

— Apetecia-me esmurrar aquele fanfarrão, aquele sabichão, aquele santarrão…

— Exatamente por quê, Ellie? Não são a ignorância e o erro suficientemente penosos?

— Sim, se ele calasse a boca. Mas ele está a corromper milhões.

— Queridinha, ele pensa o mesmo a teu respeito.

Quando ela e Der Heer regressaram do almoço, Ellie notou imediatamente que Rankin parecia subjugado, enquanto Joss, que foi o primeiro a falar, se mostrava alegre, sem dúvida para além dos requisitos da mera cordialidade.

— Doutora Arroway — começou —, compreendo que esteja impaciente para nos mostrar as suas descobertas e que não tenha vindo aqui para discussões teológicas. Mas, por favor, tenha um pouco mais de paciência conosco. Tem uma língua afiada. Não me recordo da última vez em que o Irmão Rankin tenha ficado tão agitado por questões de fé. Devem ter passado anos.

Olhou momentaneamente para o colega, que rabiscava, aparentemente distraído, num livro de apontamentos amarelo, com o colarinho desabotoado e a gravata desapertada.

— Fiquei surpreendido com uma ou duas coisas que a senhora disse esta manhã. Chamou a si mesma cristã. Permite a pergunta? Em que sentido é cristã?

— Sabe, isso não fazia parte da descrição do cargo quando aceitei a diretoria do Projeto Argus — respondeu ela, de ânimo leve. — Sou cristã no sentido em que considero Jesus Cristo uma figura histórica admirável. Penso que o Sermão da Montanha é uma das maiores declarações éticas e um dos melhores discursos da história. Penso que «ama o teu inimigo» pode até ser a surpreendente solução do problema da guerra nuclear. Gostaria que ele estivesse vivo hoje. Beneficiaria todos os habitantes do planeta. Mas penso que Jesus; foi apenas um homem. Um grande homem, um homem corajoso, um homem com uma percepção das verdades impopulares. Não penso, porém, que tenha sido Deus, ou o filho de Deus, ou o sobrinho-neto de Deus.

— Não quer acreditar em Deus. — Joss disse as palavras como quem faz uma verificação simples. — Acha que pode ser uma cristã e não acreditar em Deus. Permita que lhe pergunte sem rodeios: acredita em Deus?

— A pergunta tem uma estrutura peculiar. Se eu respondo «não», quero dizer que estou convencida de que deus não existe, ou quero dizer que não estou convencida de que ele existe? São duas declarações muito diferentes.

— Vejamos se são assim tão diferentes, doutora Arroway. Posso tratá-la apenas por «doutora»? Acredita na Navalha de Occam, não é verdade? Se tem duas explicações diferentes, mas igualmente boas, da mesma experiência, escolhe a mais simples. Toda a história da ciência a apóia, diz. Ora, se tem dúvidas sérias quanto a se há um deus — dúvidas suficientes para não lhe permitirem comprometer-se com a Fé —, então tem de poder imaginar um mundo sem Deus: um mundo que nasceu sem Deus, um mundo que vive a sua vida de todos os dias sem Deus, um mundo onde as pessoas morrem sem Deus. Sem castigo. Sem recompensa. Todos os santos e profetas, todos os fiéis que jamais existiram… enfim, teria de acreditar que foram idiotas. Que se iludiram a si mesmos, diria provavelmente. Esse seria um mundo em que não estávamos aqui na Terra por uma qualquer boa razão — quero dizer, com qualquer objetivo. Resumir-se-ia tudo apenas a complicadas colisões de átomos — não é assim? Incluindo os átomos que estão dentro dos seres humanos.

«Para mim, esse seria um mundo odioso e desumano. Não quereria viver nele. Mas, se pode imaginar esse mundo, por que a indecisão? Por que ocupar um terreno intermédio qualquer? Se já acredita em tudo isso, não é muito mais simples dizer que não há Deus nenhum? Não está a ser fiel à Navalha de Occam. Penso que está a hesitar. Como pode uma cientista radicalmente conscienciosa ser uma agnóstica se é até capaz de imaginar um mundo sem Deus? Não preferiria apenas ter de ser uma ateia?

— Pensei que ia argumentar que Deus é a hipótese mais simples — redargüiu Ellie —, mas este ponto é muito melhor. Se fosse apenas uma questão de discussão científica, concordaria consigo, reverendo Joss. A ciência preocupa-se essencialmente com o estudo e a correção de hipóteses. Se as leis da natureza explicassem todos os fatos disponíveis sem intervenção sobrenatural, ou mesmo se servissem apenas tão bem como a hipótese de Deus, então, por enquanto, classificar-me-ia como ateia. Mas depois, se se descobrisse que um simples bocadinho de evidência não se ajustava, eu recuaria do ateísmo. Somos inteiramente capazes de detectar qualquer desacerto nas leis da natureza. A razão por que não me classifico como ateia é porque não se trata principalmente de um problema científico. É um problema religioso e é um problema político. A natureza experimental da hipótese científica não se estende a esses campos. Vocês não falam de Deus como uma hipótese. Vocês pensam que encurralaram a verdade e, por isso, eu sublinho que lhes podem ter escapado uma ou duas coisas. Mas, se me pergunta, respondo-lhe sem hesitar: não posso ter a certeza de que tenho razão.