— Sempre pensei que um agnóstico é um ateu sem a coragem das suas convicções.
— Poderia igualmente dizer que um agnóstico é uma pessoa profundamente religiosa com, pelo menos, um conhecimento rudimentar da falibilidade humana. Quando digo que sou agnóstica, só quero dizer que as provas não chegam. Não há provas compelativas de que Deus existe — pelo menos a vossa espécie de deus — e não há provas compelativas de que não existe. Como mais de metade das pessoas da Terra não são judaicas, ou cristãs, ou muçulmanas, eu diria que não existem quaisquer argumentos compelativos para a vossa espécie de deus. Caso contrário, toda a gente da Terra teria sido convertida. Repito, se o vosso Deus quisesse convencer-nos, poderia ter feito um trabalho muito melhor.
«Reparem como a Mensagem é claramente autêntica. Está a ser recebida em todo o mundo. Radiotelescópios vibram em países com histórias diferentes, línguas diferentes, políticas diferentes e religiões diferentes. Toda a gente está a receber o mesmo gênero de dados do mesmo lugar do céu, nas mesmas freqüências e com a mesma modulação de polarização. Os Muçulmanos, os Hindus, os cristãos e os ateus estão todos a receber a mesma mensagem. Qualquer cético pode montar um radiotelescópio — não precisa de ser muito grande —, e recebe dados idênticos.
— Não está a sugerir que a sua radiomensagem é de Deus? — insinuou Rankin.
— De modo nenhum. Digo apenas que a civilização de Vega — com poderes infinitamente inferiores aos que atribuem ao vosso Deus — foi capaz de tornar as coisas muito claras. Se o vosso Deus quisesse falar conosco através do meio improvável da transmissão de palavra falada e escritos antigos ao longo de milhares de anos, poderia tê-lo feito de modo que não deixasse nenhum lugar para debate acerca da sua existência.
Fez uma pausa, mas nem Joss nem Rankin falaram; por isso, tentou de novo encaminhar a conversa para os dados:
— Por que não adiamos por momentos a formação de uma opinião, até progredirmos um pouco mais na decifração da Mensagem? Gostariam de ver alguns dos dados?
Desta vez eles concordaram, segundo pareceu, muito prontamente. Mas ela só conseguiu apresentar rimas de zeros e uns, nem uns nem outros construtivos ou inspiradores. Explicou cuidadosamente o que se referia à presumível paginação da Mensagem e ao esperado livro de instruções. Por acordo tácito, nem ela nem Der Heer disseram nada a respeito da opinião soviética de que a Mensagem era o projeto para fazer uma máquina. Tratava-se, na melhor das hipóteses, de uma impressão, e ainda não fora publicamente discutida pelos Soviéticos. Ocorreu-lhe então dizer alguma coisa acerca da própria Vega: a sua massa, a temperatura da superfície, a cor, a distância da Terra, a idade e o anel de fragmentos em órbita à sua volta, que tinha sido descoberto em 1983 pelo Satélite de Astronomia Infravermelha.
— Mas, tirando o fato de se tratar de uma das estrelas mais brilhantes do céu, há alguma coisa de especial nela? — quis saber Joss. — Ou alguma coisa que a relacione com a Terra?
— Bem, em termos de propriedades estelares ou coisa do gênero, não encontro nada. Mas há um fato acidentaclass="underline" Vega foi a Estrela Polar há cerca de doze mil anos e voltará a sê-lo daqui a cerca de catorze mil anos.
— Eu julgava que a estrela polar era a Estrela Polar — disse Rankin, ainda a rabiscar, sem desviar os olhos do papel.
— E é, durante alguns milhares de anos. Mas não eternamente. A Terra é como um pião a girar. O seu eixo efetua uma precessão lenta, num círculo. — Fez a demonstração do fenômeno, utilizando o lápis como o eixo da Terra. — Chama-se a isso a precessão dos equinócios.
— Descoberta por Hiparco e Rodes — acrescentou Joss. Século II a.C. — Pareceu surpreendente que ele tivesse semelhante informação a bem dizer na ponta da língua.
— Exatamente. Portanto, neste momento — prosseguiu Ellie —, uma seta traçada do centro da Terra para o Pólo Norte aponta para a estrela a que chamamos Polaris, na constelação da Ursa Menor. Creio que se referiu a essa constelação pouco antes de irmos almoçar, Mister Rankin. À medida que o eixo da Terra precessa lentamente, vai apontando para uma direção diferente do céu, e não na da Polaris, e, decorridos vinte e seis mil anos, o lugar do céu para onde o Pólo Norte aponta descreve um círculo completo. Presentemente, o Pólo Norte aponta para muito perto da Polaris, suficientemente perto para ser útil à navegação. Há doze mil anos, por acaso, apontava para Vega. Mas não existe nenhuma conexão física. A maneira como as estrelas estão distribuídas na Via Láctea não tem nada a ver com o fato de o eixo de rotação da Terra ter uma inclinação de vinte e três vírgula cinco graus.
— Ora, doze mil anos atrás correspondem a dez mil anos a.C., a altura em que a civilização estava a começar. Não é verdade? — perguntou Joss.
— A não ser que acreditem que a Terra foi criada em 4004 a.C.
— Não, nós não acreditamos nisso, pois não, Irmão Rankin? Nós só não pensamos que a idade da Terra seja conhecida com a precisão com que vocês, cientistas, pensam. Na questão da idade da Terra somos aquilo a que poderia chamar «agnósticos». — Tinha um sorriso muito atraente.
«Portanto, se havia gente a navegar há dez mil anos, sulcando, digamos, as águas do Mediterrâneo ou do golfo Pérsico, Vega seria a sua guia?
— Nessa altura ainda estávamos na era glaciária. Provavelmente um pouco cedo para a navegação. Mas os caçadores que atravessavam a ponte de terra de Béringue para a América do Norte já então existiam. Deve ter-lhes parecido uma dádiva surpreendente — providencial, se quiserem que uma estrela tão brilhante estivesse exatamente a norte. Aposto que uma quantidade de gente ficou a dever a sua vida a essa coincidência.
— Bem, isso é muitíssimo interessante.
— Não desejo que pense que empreguei a palavra «providencial» com qualquer outro sentido além do metafórico.
— Eu nunca pensaria semelhante coisa, minha querida.
Joss dava agora indícios de se aperceber de que a tarde se aproximava do fim e não se mostrava descontente com isso. Mas parecia haver ainda alguns pontos na agenda de Rankin.
— Espanta-me que não pense que o fato de Vega ter sido a Estrela Polar se deveu à Divina Providência. A minha fé é tão forte que não preciso de provas, mas, sempre que surge um fato novo, ele confirma simplesmente a minha fé.
— Bem, creio que não escutou com muita atenção o que eu disse esta manhã. Ofende-me a idéia de que estamos a travar uma espécie de campeonato de fé e você é o vencedor fácil. Tanto quanto eu saiba, nunca pôs a sua fé à prova. Está disposto a pôr a sua vida em jogo pela sua fé? Eu estou disposta a fazê-lo pela minha. Olhe, espreite por aquela janela. Está ali um grande pêndulo de Foucault. O pêndulo propriamente dito deve pesar mais de duzentos e vinte quilogramas. A minha fé diz que a amplitude de um pêndulo livre — até que distância se afastará da posição vertical nunca pode aumentar. Só pode diminuir. Estou disposta a ir lá fora, colocar o pêndulo defronte do meu nariz, largá-lo, deixá-lo afastar-se e voltar de novo na minha direção. Se as minhas convicções estão erradas, levarei com um pêndulo de mais de duzentos e vinte quilogramas em cheio na cara. Então, quer pôr a minha fé à prova?