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— Sinceramente, não acho necessário. Acredito em si — declarou Joss.

Rankin, porém, parecia interessado. Imaginava, supôs Ellie, qual seria o aspecto dela depois da prova.

— Mas estaria você disposto — prosseguiu — a colocar-se trinta centímetros mais próximo do mesmo pêndulo e a pedir a Deus que lhe encurtasse o balanço? E se se verificar que as suas idéias estão todas erradas, que o que prega não é de modo nenhum a vontade de Deus? Talvez seja a obra do Diabo. Talvez seja pura invenção humana. Como pode ter realmente a certeza?

— Fé, inspiração, revelação, reverência — respondeu Rankin. — Não avalie toda a gente pela sua própria experiência limitada. O fato de ter rejeitado o Senhor não impede outras pessoas de reconhecerem a Sua glória.

— Escute, todos nós temos sede de prodígios. É uma característica profundamente humana. A ciência e a religião estão ambas ligadas a ela. O que pretendo dizer é que não é necessário inventar histórias, não temos de exagerar. Há prodígios e maravilhas suficientes no mundo real. A natureza é muito superior a nós na invenção de prodígios.

— Talvez todos nós sejamos caminhantes na estrada para a verdade — respondeu Joss.

Der Heer aproveitou habilmente esta nota esperançosa e, entre cortesias forçadas, prepararam-se para se ir embora. Ellie perguntava-se se fora alcançado algum resultado útil. Achava que Valerian teria sido muito mais eficiente e muito menos provocador. Desejou ter sido capaz de se dominar melhor.

— Foi um dia muito interessante, doutora Arroway, e agradeço-lhe. — Joss parecia agora novamente um pouco distante; cortês, mas como que ausente, o que não o impediu de lhe apertar amigavelmente a mão.

Quando se dirigiam para a saída, para o carro governamental que esperava, depois de passarem por uma profusa demonstração tridimensional sobre «A falácia do universo em expansão», um letreiro dizia: «O nosso Deus está vivo e bem. Sentimos quanto ao vosso.»

Ellie murmurou a Der Heer:

— Lamento se tornei a tua missão mais difícil.

— Oh, não, Ellie! Foste excelente.

— Aquele Palmer Joss é um homem muito atraente. Não creio ter feito muito para o converter. Mas confesso-te que ele quase me converteu.

Estava a brincar, evidentemente.

CAPÍTULO XI

O Consórcio Mundial da Mensagem

O mundo está quase todo repartido e o que dele resta está a ser dividido, conquistado e colonizado. Pensar nessas estrelas que vemos lá em cima, à noite, nesses imensos mundos que nunca podemos alcançar! Anexaria os planetas, se pudesse; penso muitas vezes nisso. Entristece-me vê-los tão claros e todavia tão distantes.

CECIL RODES. Last will and Testament (1902)

Da mesa que ocupavam junto da janela, Ellie via o aguaceiro molhar a rua. Um transeunte encharcado, de gola levantada, passou apressado e resolutamente. O proprietário abrira o toldo às riscas sobre as tinas de ostras, selecionadas consoante tamanho e qualidade e constituindo uma espécie de anúncio público da especialidade da casa. Sentia-se quente e aconchegada dentro do restaurante, o famoso ponto de encontro da gente de teatro, Chez Dieux. Como tinha sido previsto bom tempo, não trouxera gabardina nem chapéu-de-chuva.

Igualmente desprovido de tais acessórios, Vaygay apresentou um novo assunto:

— A minha amiga Meera — anunciou — é uma ecdisiasta. É esta a palavra certa, não é? Quando trabalha no seu país, representa para grupos de membros de profissões liberais, em reuniões e convenções. Meera diz que, quando tira as roupas para homens da classe trabalhadora — em convenções e sindicatos e coisas desse gênero —, eles ficam desvairados, gritam sugestões impróprias e tentam juntar-se-lhe no palco. Mas, quando faz exatamente a mesma coisa para médicos ou advogados, eles deixam-se ficar sentados, imóveis. Alguns, diz ela, lambem mesmo os lábios. A minha pergunta é: os advogados são mais saudáveis do que os operários siderúrgicos?

Que Vaygay tinha diversos conhecimentos femininos, sempre fora aparente. As maneiras como abordava as mulheres eram tão diretas e extravagantes — excluindo ela própria, por qualquer razão que lhe agradava e desagradava simultaneamente — ; que elas podiam sempre dizer «não» sem embaraço. Muitas diziam «sim». Mas a novidade a respeito de Meera era um pouco inesperada.

Tinham passado a manhã numa comparação de apontamentos e interpretação de novos dados de última hora. A transmissão continuada da Mensagem chegara a um novo estágio importante. Estavam a ser transmitidos diagramas de Vega do mesmo modo que se transmitem telefotografias de jornais. Cada imagem era um sistema de quadriculação. O número de minúsculos pontos pretos e brancos que constituíam a gravura era o produto de dois números primos. De novo os números primos faziam parte da transmissão. Havia um grande conjunto de tais diagramas, uns após outros, e de modo algum intercalados no texto. Era como uma série de ilustrações lustrosas inseridas no fim de um livro. Após a transmissão das longas seqüências de diagramas, o texto ininteligível continuava. Com base em alguns dos diagramas, parecia evidente que Vaygay e Arkhangelsky tinham tido razão, que a Mensagem era, pelo menos em parte, as instruções, os planos para construir uma máquina. Uma máquina cujo fim era desconhecido. Na reunião plenária do Consórcio Mundial da Mensagem, a realizar no dia seguinte no Palácio do Eliseu, ela e Vaygay apresentariam pela primeira vez alguns dos pormenores a representantes das outras nações do Consórcio. Mas a hipótese da máquina já fora mais ou menos divulgada oficiosamente.

Durante o almoço, ela resumira o seu encontro com Rankin e Joss. Vaygay mostrara-se atento, mas não fizera perguntas. Fora como se ela tivesse estado a confessar alguma predileção pessoal indecorosa, e fora talvez isso que desencadeara a associação de idéias dele.

— Tem uma amiga chamada Meera que é uma artista de strip-tease? Com categoria internacional?

— Desde que Wolfgang Pauli descobriu o princípio da exclusão enquanto assistia às Folies-Bergére, considerei meu dever profissional, como físico, visitar Paris o mais possível. Considero isso a minha homenagem a Pauli. Mas, não sei por quê, nunca consigo persuadir os funcionários do meu país a aprovarem viagens exclusivamente para esse efeito. Geralmente, tenho de fazer também alguma física prosaica. Mas em tais estabelecimentos — foi onde conheci Meera — sou um estudioso da natureza, à espera de introspecção para atacar.

Abruptamente, o seu tom de voz passou de expansivo para casuaclass="underline"

— Meera diz que os homens americanos que se dedicam à ciência e às profissões liberais são sexualmente reprimidos e têm dúvidas e sentimento de culpa atormentadores.

— Deveras? E que diz ela acerca dos homens russos que se dedicam à ciência e às profissões liberais?

— Ah, nessa categoria só me conhece a mim! Por isso evidentemente, tem uma boa opinião. Acho que preferia estar com ela amanhã.

— Mas todos os seus amigos estarão na reunião do Consórcio — redargüiu-lhe Ellie, divertida.

— Sim, e eu estou satisfeito porque você lá estará — respondeu Vaygay, melancolicamente.

— Que o preocupa, Vaygay?

Ele demorou muito tempo antes de responder e, quando o fez, começou com uma ligeira, mas incaracterística, hesitação: