«É melhor cooperar. Os nossos cientistas desejam trocar não apenas os dados que recolheram, mas também as suas especulações, as suas suposições, os seus… sonhos. Todos vós, cientistas, sois iguais nesse aspecto. Eu não sou cientista. A minha especialidade é governar. Por isso sei que as nações também são iguais. Todas as nações são cautelosas. Todas as nações são desconfiadas. Nenhum de nós daria uma vantagem a um adversário potencial se pudesse evitá-lo. E, assim, ouve duas opiniões — talvez mais, mas pelo menos duas —, uma que aconselha a permuta de todos os dados e outra que aconselha cada nação a procurar obter vantagem sobre as outras. «Podem ter a certeza de que o outro lado está à procura de qualquer vantagem», dizem a mesma coisa na maior parte das nações.
«Os cientistas venceram este debate. Assim, por exemplo, a maior parte dos dados — embora, desejo salientá-lo, não todos — adquiridos pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética foram permutados. A maior parte dos dados de todos os outros países foram permutados em todo o mundo. Sentimo-nos felizes por termos tomado esta decisão.
Ellie segredou a Kitz:
— Isto não me parece «jogo duro».
— Continue sintonizada — murmurou ele em resposta.
— Mas há outras espécies de perigos. Gostaríamos de indicar agora um deles, para consideração do Consórcio.
O tom de Baruda recordou-lhe o de Vaygay ao almoço, dias antes. Que andava a preocupar os Soviéticos?
— Ouvimos o acadêmico Lunacharsky, a doutora Arroway e outros cientistas concordarem em que estamos a receber as instruções para construir uma máquina complexa. Suponhamos que, como toda a gente parece esperar, o fim da Mensagem chega; a Mensagem recicla, volta ao princípio e nós recebemos a introdução — a palavra inglesa é primer, não é? — que nos permite lê-la. Suponhamos também que continuamos a cooperar inteiramente, todos nós. Permutamos todos os dados, todas as fantasias, todos os sonhos.
«Ora os seres de Vega não estão a enviar-nos estas instruções para se divertirem. Eles querem que construamos uma máquina. Talvez nos digam o que se destina a máquina a fazer. Talvez não. Mas, mesmo que digam, porque haveremos de acreditar neles? Por isso confesso a minha própria fantasia, o meu próprio sonho. Não é um sonho feliz. E se a máquina for um Cavalo de Tróia? Nós construímo-la com grande dispêndio, ligamo-la e, de súbito, sai dela um exército invasor. Ou se — outra hipótese — for uma Máquina do Fim do Mundo? Construímo-la, ligamo-la e a Terra explode. Talvez seja esta a maneira de eles suprimirem civilizações que começam a emergir no cosmo. Não custaria muito caro; pagariam apenas um telegrama e a civilização nascente destruir-se-ia obedientemente.
«O que vou perguntar é apenas uma sugestão, um ponto para conversarmos. Apresento-o à vossa consideração. Pretendo que seja construtivo. Neste caso, todos nós compartilhamos o mesmo planeta, temos todos os mesmos interesses. Não duvido de que vou levantar a questão com demasiada contundência. Eis a minha pergunta: seria melhor queimar os dados e destruir os radiotelescópios?
Houve agitação. Muitas delegações pediram simultaneamente para serem ouvidas. Em vez disso, os co-presidentes da conferência pareceram principalmente motivados para recordar aos delegados que as sessões não deveriam ser gravadas nem vídeo-gravadas. Não deveriam ser concedidas quaisquer entrevistas à imprensa. Haveria comunicados diários para a imprensa, elaborados de acordo com os co-presidentes e os chefes das delegações. Até mesmo os tegumentos da presente discussão teriam de permanecer restritos àquela câmara de conferências.
Diversos delegados pediram clarificação à presidência.
— Esse Baruda tem razão acerca de um Cavalo de Tróia ou de uma Máquina do Fim do Mundo, gritou um delegado holandês, «não é nosso dever informar o público?»
Mas não lhe fora dada a palavra e o seu microfone não tinha sido ativado. Prosseguiram para outros assuntos mais urgentes.
Ellie carregara rapidamente numa tecla do terminal do computador institucional à sua frente, para conseguir uma posição nos primeiros lugares da bicha. Descobriu que ficou em segundo lugar, depois de Sukhavati e antes de um dos delegados chineses.
Ellie conhecia vagamente Devi Sukhavati. Mulher imponente dos seus quarenta e cinco anos, usava penteado ocidental, sapatos decotados, de salto alto e sem calcanhar, e vestia um exótico sari de seda. Inicialmente formada como médica, tornara-se uma das principais especialistas indianas em biologia molecular e agora repartia o seu tempo entre o King’s College, Cambridge, e o Instituto Tata, em Bombaim. Fazia parte do punhado de membros indianos da Royal Society de Londres e constava estar politicamente bem colocada. Tinham-se encontrado pela última vez havia alguns anos num simpósio internacional em Tóquio, antes de a recepção da Mensagem ter eliminado os forçosos pontos de interrogação dos títulos de alguns dos seus ensaios científicos. Ellie ressentira uma afinidade mútua, apenas em parte devida ao ato de se contarem entre as poucas mulheres participantes em reuniões científicas sobre vida extraterrestre.
— Reconheço que o acadêmico Baruda levantou uma questão importante e sensível — começou Sukhavati — e seria estúpido afastar de ânimo leve a possibilidade do Cavalo de Tróia. Tendo em consideração uma grande parte da história recente, é uma idéia natural, e surpreende-me que tenha decorrido tanto tempo antes de ser apresentada. No entanto, gostaria de recomendar cautela quanto a semelhantes receios. É extremamente improvável que os seres de um planeta da estrela Vega se encontrem exatamente no nosso nível de avanço técnico. Nem mesmo no nosso planeta as culturas evoluem ao mesmo ritmo e ao mesmo tempo. Umas começam mais cedo, outras mais tarde. Reconheço que algumas culturas podem recuperar o atraso, pelo menos tecnologicamente. Quando havia civilizações avançadas na Índia, na China, no Iraque e no Egito, havia, quando muito, nômades da idade do ferro na Europa e na Rússia e culturas da idade da pedra na América.
«Mas as diferenças de tecnologias serão muito maiores nas circunstâncias presentes. É provável que os extraterrestres estejam muito adiantados em relação a nós, com certeza mais do que algumas centenas de anos — talvez milhares de anos à nossa frente, ou até milhões. Ora peço-vos que compareis isso com o ritmo do avanço tecnológico humano no último século.
«Eu cresci numa minúscula aldeia do Sul da Índia. No tempo da minha avó, a máquina de costura de pedal era um prodígio tecnológico. De que seriam capazes seres que estão milhares de anos a nossa frente? Ou milhões de anos? Como um filósofo do nosso lado do mundo disse uma vez: «Os artefatos de uma civilização extraterrestre suficientemente avançada seriam indistinguíveis da magia.»
«Não podemos constituir absolutamente nenhuma ameaça para eles. Não têm nada a recear de nós, e assim continuará a ser durante muito tempo. Este não é nenhum confronto entre Gregos e Troianos, que estavam eqüitativamente equiparados. Isto não é nenhum filme de ficção científica em que seres de diferentes planetas lutam com armas similares. Se eles desejam destruir-nos, podem certamente fazê-lo com ou sem a nossa coope…
— Mas por que preço? — interrompeu alguém da assistência. — Não compreende? A questão é essa. Baruda diz que as nossas transmissões de televisão para o espaço são a sua informação de que chegou a altura de nos destruírem, e a Mensagem é o meio. As expedições punitivas são caras. A Mensagem é barata.