«Se estais seriamente assustados com a possibilidade de esta máquina destruir a Terra, não a construais na Terra. Fazei-a noutro lado qualquer. Assim, se for uma Máquina do Fim do Mundo e fizer o mundo ir pelos ares… não será o nosso mundo. Mas isso será muito dispendioso. Provavelmente demasiado dispendioso. Ou, se não estamos assim tão assustados, fazei-a em qualquer deserto isolado. Poderá haver uma explosão muito grande no deserto de Takopi, na província de Xinjing, sem morrer ninguém. E, se não estamos nada assustados, podemos construí-la em Washington. Ou em Moscovo. Ou em Beijing. Ou nesta bela cidade.
«Na China antiga chamava-se Chih Neu a Vega e a duas estrelas próximas. Chih Neu quer dizer a jovem mulher e a roca.
«É um símbolo auspicioso, uma máquina para fazer roupas novas para as pessoas da Terra.
«Recebemos um convite. Um convite muito fora do vulgar. Talvez seja para irmos a um banquete. A Terra nunca foi convidada para um banquete antes. Seria descortês recusar.
CAPÍTULO XII
O isômero delta-um
Olhar as estrelas faz-me sempre sonhar, tão simplesmente como sonho vendo os pontos pretos que representam cidades e aldeias num mapa. Por que motivo, pergunto a mim próprio, não hão-de os pontos brilhantes do céu ser tão acessíveis como os pontos pretos do mapa da França?
Estava uma esplêndida tarde de Outono, com um calor tão impróprio da estação que Devi Sukhavati não trouxera casaco. Ela e Ellie caminhavam ao longo dos Campos Elíseos, cheios de gente, na direção da Praça da Concórdia. A diversidade étnica só tinha rival em Londres, Manhattan e poucas outras cidades do planeta. Duas mulheres a caminhar juntas, uma de saia e camisola de malha e a outra de sari não constituíam de modo nenhum uma coisa invulgar.
À porta de uma tabacaria havia uma comprida, disciplinada e poliglota bicha de pessoas atraídas pela primeira semana de venda legalizada de cigarros de Cannabis curada dos Estados Unidos da América. Nos termos da lei francesa, não podiam ser vendidos a, ou consumidos por, menores de dezoito anos. Muitos dos que se encontravam na bicha eram pessoas de meia-idade e mais velhas. Alguns talvez fossem argelinos ou marroquinos naturalizados. Sobretudo na Califórnia e no Oregão, cultivavam-se variedades especialmente potentes de Cannabis destinadas ao comércio de exportação. A primazia, ali, pertencia a uma estirpe nova e admirada, que, para mais, crescera num ambiente de luz ultravioleta que convertia alguns dos canabinóides inertes no isômero. Chamava-se beijado-pelo-Sol. A embalagem, ilustrada numa montra com metro e meio de altura, apresentava, em francês, a frase publicitária «Isto será deduzido da sua parte no Paraíso».
As montras dos estabelecimentos ao longo do bulevar eram uma orgia de cor. As duas mulheres compraram castanhas a um vendedor ambulante e maravilharam-se com o seu sabor e a sua consistência. Por qualquer razão, todas as vezes que Ellie via um letreiro de propaganda do BNP, o Banque Nationale de Paris, lia-o como a palavra russa correspondente a cerveja, com a letra do meio invertida da esquerda para a direita. CERVEJA, os letreiros — ultimamente deturpados das suas vocações fiduciárias respeitáveis e habituais — pareciam instigá-la, CERVEJA RUSSA. A incongruência divertia-a, e só com dificuldade conseguia convencer a parte do seu cérebro encarregada da leitura de que estava perante o alfabeto latino, e não o alfabeto cirílico. Mais adiante maravilharam-se com L’Obélisque — um antigo memorial militar expropriado com grandes custos para se tornar num memorial militar moderno. Resolveram continuar a andar.
Der Heer furtara-se ao encontro marcado, ou, pelo menos, procedera de maneira que dera no mesmo. Telefonara-lhe de manhã, apologético, mas não desesperadamente. Estavam a ser levantadas excessivas questões políticas na sessão plenária. O secretário de Estado interrompia uma visita a Cuba e chegaria no dia seguinte, de avião. Der Heer estava ocupadíssimo, não tinha mãos a medir, e esperava que Ellie compreendesse. Ela compreendia. Detestava-se por dormir com ele. Para evitar uma tarde solitária, telefonara a Devi Sukhavati.
— Uma das palavras que significam «vitorioso», em sânscrito, é abhijit. Era esse o nome de Vega na Índia antiga. Abhijit. Foi sob a influência de Vega que as divindades hindus, os heróis da nossa cultura, venceram os asuras, os deuses do mal. Está a ouvir, Ellie?… É curioso: na Pérsia também há asuras, mas lá os asuras eram os deuses do bem. Eventualmente, surgiram religiões em que o deus principal, o deus da luz, o deus Sol, se chamava Ahura-Mazda. Os zoroastrianos, por exemplo, e os mitraístas. Ahura, Asura, é o mesmo nome. Hoje ainda há zoroastrianos, e os mitraístas deram uma boa luta aos primeiros cristãos. Mas, nesta mesma história, essas divindades hindus — eram principalmente femininas, diga-se de passagem — chamavam-se devis. É essa a origem do meu próprio nome. Na Índia, os devis são deuses do bem. Na Pérsia, os devis tornaram-se deuses do mal. Alguns eruditos pensam que foi daí que acabou por derivar a palavra inglesa devil. Tudo isto é, provavelmente, algum retrato vagamente recordado da invasão ariana que empurrou os Drávidas, meus antepassados, para o sul. Assim, consoante o lado da cordilheira de Kirthar em que uma pessoa vive, Vega apóia quer Deus, quer o Diabo.
Esta história engraçada tinha sido contada como uma espécie de dádiva feita por Devi, que, parecia evidente, ouvira dizer alguma coisa a respeito das aventuras religiosas de Ellie na Califórnia, duas semanas atrás. Ellie sentiu-se grata. Mas a história recordou-lhe que não mencionara sequer a Joss a possibilidade de a Mensagem ser o projeto de uma máquina para fins desconhecidos. Agora ele não tardaria a ouvir falar de tudo aquilo através dos media. Devia, sem dúvida, disse severamente a si mesma, fazer um telefonema transcontinental para lhe explicar a nova evolução do caso. Mas constava que Joss estava em reclusão. Não prestara nenhuma declaração pública após o encontro de ambos em Modesto. Rankin anunciara numa conferência de imprensa que, embora pudesse haver alguns perigos, não se opunha a que os cientistas recebessem a Mensagem completa. Mas a sua interpretação era outra coisa. Impunha-se uma verificação periódica por todos os segmentos da sociedade, declarou, especialmente por aqueles a quem estava confiada a salvaguarda dos valores morais e espirituais.
Aproximavam-se agora dos Jardins das Tulherias, onde se exibiam as tonalidades extravagantes do Outono. Homens idosos e frágeis — Ellie pensou que fossem do Sudeste asiático — discutiam. Balões multicores, para venda, ornamentavam os portões pretos de ferro forjado. No centro de um tanque de água erguia-se uma Anfitrite de mármore, à volta da qual corriam veleiros de brincar, incitados por um exuberante grupo de garotos com aspirações magalianas. De súbito, um peixe-gato irrompeu a água, afundou o barquinho da frente e os rapazes e as raparigas ficaram emudecidos, coagidos por aquela aparição completamente inesperada. O Sol estava baixo, a ocidente, e Ellie sentiu um arrepio momentâneo.
Aproximaram-se de L’Orangerie, no anexo da qual decorria uma exposição especial, conforme o cartaz proclamava: «images Martiennes». Os veículos-robots americano-franco-soviéticos que percorriam Marte tinham proporcionado uma abundância espetacular de fotografias coloridas, algumas delas — como as imagens do sistema solar exterior obtidas pela Voyager cerca de 1980 — subindo muito acima do seu mero objetivo científico e transformando-se em arte. O cartaz apresentava uma paisagem fotografada no imenso planalto Elíseo. No primeiro plano via-se uma pirâmide trilateral, lisa, muito erodida, com uma cratera de impacto perto da base. Fora produzida por milhões de anos de fustigação pela areia atirada a grandes velocidades pelos agrestes ventos marcianos, tinham dito os geólogos planetários. Um outro lado de Marte atolara-se numa duna formada pelos ventos e os seus controladores em Pasadena haviam, até então, sido incapazes de atender os seus tristes pedidos de socorro.