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A taxa de novos cancros descera oitenta por cento nos animais orbitais, em comparação com um grupo de controle na Terra. A leucemia e os carcinomas linfáticos desciam noventa por cento. Havia até alguns indícios, talvez ainda não, estatisticamente, significativos, de que a taxa de remissão espontânea de doenças neoplásicas era muito maior em gravidade zero. Meio século atrás, o químico alemão Otto Warburg alvitrara que a oxidação era a causa de muitos cancros. O menor consumo celular de oxigênio no estado de ausência de peso parecia de súbito muito atraente. Pessoas que em décadas anteriores teriam feito uma peregrinação ao México em busca de laetrile clamavam agora por um bilhete para o espaço. Mas o preço era exorbitante. Quer como medicina preventiva, quer como medicina clínica, o vôo espacial estava ao alcance de muito poucos.

De súbito, somas de dinheiro até então inauditas ficaram disponíveis para investimento em estações orbitais civis. Mesmo no fim do Segundo Milênio havia hotéis de aposentadoria rudimentares a algumas centenas de quilômetros de altitude. Além da despesa existia, evidentemente, uma grave desvantagem; as lesões vasculares e osteológicas progressivas tornariam impossível voltar alguma vez ao campo gravitacional da superfície da Terra. Mas, para alguns dos anciãos ricos, isso não constituía impedimento importante. Em troca de outra década de vida, sentiam-se felizes por poderem retirar-se para o céu e, eventualmente, morrer lá.

Havia quem se preocupasse com o fato de se tratar de um investimento imprudente da riqueza limitada do planeta; eram demasiadas as necessidades urgentes e as justas queixas dos pobres e desprovidos de poder para que se gastasse essa riqueza a paparicar os ricos e poderosos. Era temerário, diziam, permitir que uma classe privilegiada emigrasse para o espaço, deixando as massas para trás, na Terra — um planeta que se tornava efetivamente pertença de proprietários absentistas. Outros professavam tratar-se de uma dádiva de Deus: os proprietários do planeta estavam a agrupar-se em bandos e a partir; lá em cima, argumentavam, não podiam fazer tanto mal, nem pouco mais ou menos, como cá em baixo.

Quase ninguém antevia o resultado principal, a transferência de uma perspectiva planetária viva para aqueles que podiam fazer o maior bem. Passados alguns anos restavam poucos nacionalistas em órbita terrestre. O confronto nuclear global levanta reais problemas àqueles com uma propensão para a imortalidade.

Havia industriais japoneses, grandes armadores gregos, príncipes herdeiros sauditas, um ex-presidente, um antigo secretário-geral do partido, um barão de magnatas escroques chinês e um patrão de traficantes de heroína retirado. No Ocidente, além de um punhado de convites promocionais, existia apenas um critério para obtenção de residência georbitaclass="underline" tinha de se poder pagar. A estalagem soviética era diferente; chamava-se estação espacial e o antigo secretário-geral encontrava-se lá, dizia-se, para «investigação gerontológica». De modo geral, as massas não se sentiam ressentidas. Um dia, imaginavam, também iriam.

Os que se encontravam em órbita terrestre tendiam a ser circunspectos, cuidadosos, calados. As suas famílias e os que os serviam tinham qualidades pessoais semelhantes. Eram o foco da atenção discreta de outras pessoas ricas e poderosas que ainda estavam na Terra. Não faziam declarações públicas, mas as suas opiniões permeavam gradualmente o pensamento de líderes em todo o mundo. A redução continuada das armas nucleares pelas cinco potências nucleares era uma coisa que os venerandos em órbita apoiavam. Sem alardes, tinham endossado a construção da Máquina em virtude do seu potencial para unificar o mundo. Ocasionalmente, organizações nacionalistas escreviam a respeito de uma imensa conspiração em órbita terrestre, de bonzões tremelicantes que vendiam as suas mães-pátrias. Havia panfletos que se afirmavam transcrições estenográficas de uma reunião a bordo do Methuselah, em que tinham estado presentes representantes de outras estações espaciais privadas, os quais para lá tinham sido transportados para o efeito. Era apresentada uma lista de «itens de ação», concebida para insuflar terror no coração do mais morno patriota. Os panfletos eram espúrios, anunciou a Timesweek, que lhes chamou «Os protocolos dos anciãos do ozônio».

Nos dias que antecederam imediatamente o lançamento, Ellie tentou passar algum tempo — freqüentemente logo após o alvorecer — em Cocoa Beach. Pedira emprestado um apartamento que dava para a praia e para o oceano Atlântico. Levava consigo bocados de pão e treinava-se a atirá-los às gaivotas. Elas tinham habilidade para apanhar pedaços em vôo, com uma vantagem de campo mais ou menos equivalente, segundo os seus cálculos, à de um externo campista de basebol da primeira divisão. Havia momentos em que vinte ou trinta gaivotas pairavam no ar, apenas um metro ou dois acima da sua cabeça. Batiam vigorosamente as asas para se manterem no seu lugar, de bico aberto, tensas, na previsão do aparecimento miraculoso de comida. Roçavam umas pelas outras num parente movimento ao acaso, mas o efeito geral era um padrão estacionário. No caminho de regresso reparou numa pequena e, na sua humildade, perfeita fronde de palmeira caída no fim da praia. Apanhou-a e levou-a para o apartamento, a sacudir cuidadosamente a areia com os dedos.

Hadden convidara-a para uma visita à sua casa longe de casa, ao seu castelo no espaço. Chamava-lhe Methuselah. Ela não pôde falar do convite a ninguém, fora do Governo, em virtude da paixão de Hadden por se manter afastado da atenção pública. Na realidade, ainda não era do conhecimento geral que ele fora residir em órbita, se mudara para o céu. Todos os participantes do Governo a quem Ellie falou do convite se mostraram favoráveis. O conselho de Der Heer foi: «A mudança de cenário far-te-á bem.» A presidente era claramente a favor da visita, pois apareceu rapidamente um lugar disponível no próximo vaivém, o já idoso STS Intrepid. A passagem para uma casa de repouso em órbita efetuava-se geralmente por transporte comercial. Estava a ser submetido a provas de qualificação de vôo final um veículo muito maior não reutilizável. Mas a esquadra de vaivens, embora a envelhecer, era ainda o cavalo de carga das atividades espaciais do Governo dos EUA, tanto militares como civis.

— Soltam-se mosaicos às mãos-cheias quando reentramos e depois voltamos a colá-los quando descolamos — explicou-lhe um dos pilotos-astronautas.

Além de uma saúde geral boa, não havia quaisquer exigências quanto á condição física para o vôo. Os veículos comerciais tinham tendência para subir cheios e regressar vazios. Em contrapartida, os vôos de vaivens esgotavam a lotação tanto na ida como na volta. Antes da sua última aterragem, na semana anterior, o Intrepid encontrara-se com o Methuselah e acostara, a fim de trazer dois passageiros de regresso à Terra. Ellie reconheceu-lhes os nomes: um era um desenhista de sistemas de propulsão e o outro um criobiólogo. Perguntou a si mesma o que teriam ido fazer a Methuselah.

— Verá — continuou o piloto —, será como cair de um tronco derrubado. Quase ninguém detesta e a maioria das pessoas adora.

Ela adorou. Apertada no interior do veículo com o piloto, dois especialistas missionários, um militar de lábios cerrados e um funcionário do Internal Revenue Service, acumulou o prazer de uma descolagem impecável com a embriaguez da sua primeira experiência em gravidade zero, uma experiência mais demorada do que a viagem no elevador de alta desaceleração no World Trade Center, em Nova Iorque. Uma órbita e meia depois encontravam-se com Methuselah. Dali a dois dias, o transporte comercial Narnia trá-la-ia para baixo.