O Castelo — Hadden insistia em chamar-lhe assim — girava lentamente, efetuando uma revolução completa em cada noventa minutos, de modo que o mesmo lado estava sempre voltado para a Terra. O gabinete de Hadden apresentava um panorama magnificente na antepara voltada para a Terra — não se tratava de um écran de televisão, mas sim de uma verdadeira janela transparente. Os fótons que ela estava a ver tinham sido projetados pelos nevados Andes apenas uma fração de segundo antes. A não ser nas proximidades da periferia da janela, onde o plano inclinado através do grosso polímero era mais longo, não se notava praticamente nenhuma distorção.
Havia muita gente que conhecia, até mesmo pessoas que se consideravam religiosas, para quem o sentimento de reverência era um embaraço. Mas era preciso ser feita de pau, pensou, para parar diante daquela janela e não o experimentar. Deveriam enviar jovens poetas e compositores, artistas plásticos, cineastas e pessoas profundamente religiosas, mas sem estarem completamente dependentes das burocracias sectárias.
Aquela experiência podia ser facilmente transmitida, achava, à gente comum da Terra. Que pena não ter ainda sido tentado a sério. A sensação era… numinosa.
— Habituamo-nos — disse-lhe Hadden —, mas não nos cansamos. De vez em quando ainda é inspiradora.
Abstêmio como sempre, fazia render uma cola de dieta. Ela recusara a oferta de qualquer coisa mais forte. O preço do etanol em órbita devia ser elevado.
— Claro que sentimos a falta de coisas: longos passeios a pé, nadar no oceano, velhos amigos que aparecem sem serem anunciados… Mas eu nunca fui muito dessas coisas. E, como vê, os amigos podem vir cá acima fazer uma visita.
— O que é imensamente dispendioso.
— Uma mulher vem visitar Yamagishi, o meu vizinho da ala contígua. Na segunda terça-feira de cada mês, quer chova quer faça sol. Depois apresento-lho. É um tipo e tanto. Criminoso de guerra classe A… mas só pronunciado, compreende, nunca condenado.
— Qual é a atração? — perguntou Ellie. — Você não pensa que o mundo está prestes a terminar. Que faz aqui em cima?
— Gosto da vista. E há algumas subtilezas jurídicas.
Ela olhou-o, um pouco agastada.
— Sabe, uma pessoa na minha situação — novas invenções, novas indústrias — está sempre muito à beirinha de infringir uma ou outra lei. Geralmente isso acontece porque as leis antigas não acertaram o passo com a nova tecnologia. Arriscamo-nos a perder uma quantidade do nosso tempo em litígios. É uma coisa que reduz a nossa eficiência. Ao passo que nada disto — fez um gesto largo, abarcando tanto o Castelo como a Terra — é pertença de nenhuma nação. Este Castelo pertence-me a mim, ao meu amigo Yamagishi e a alguns outros. Nunca poderia haver nada de ilegal em fornecer-me alimentos e o necessário para a satisfação de necessidades materiais. No entanto, e apenas por uma questão de segurança, estamos a trabalhar em sistemas ecológicos fechados. Não existe nenhum tratado de extradição entre este Castelo e qualquer das nações lá de baixo. Enfim, pesados os prós e os contras, é melhor para mim estar cá em cima…
«Não quero que pense que fiz alguma coisa verdadeiramente ilegal. Mas estamos a fazer tantas coisas novas que é inteligente jogar pelo seguro. Por exemplo, há pessoas que acreditam realmente que eu sabotei a Máquina, quando na verdade eu gastei uma quantidade absurda do meu próprio dinheiro a tentar construí-la. E você sabe o que eles fizeram a Babilônia. Os investigadores do meu seguro pensam que devem ter sido as mesmas pessoas que atuaram tanto em Babilônia como em Terre Haute. Parece que tenho muitos inimigos. Não compreendo por quê. Acho que fiz muito bem às pessoas. De qualquer modo, globalmente, é melhor para mim estar cá em cima.
«Mas era da Máquina que queria falar-lhe. Foi horrível, aquela catástrofe do tubo de érbio no Wyoming. Lamento sinceramente o que aconteceu ao Drumlin. Era um gajo teso. E deve ter sido um grande choque para você. Tem a certeza de que não quer uma bebida?
Mas a ela bastava-lhe olhar para a Terra e escutar.
— Se eu não estou desencorajado a respeito da Máquina — prosseguiu Hadden —, não percebo por que motivo você há-de estar. Provavelmente receia que nunca venha a haver uma máquina americana, preocupa-a que haja demasiada gente que queira que ela falhe. A presidente está preocupada com a mesma coisa. E aquelas fábricas que construímos não são linhas de montagem. Temos estado a fazer produtos por encomenda. Vai ser dispendioso substituir todas as partes danificadas. Mas você está principalmente a pensar que talvez tenha começado por ser tudo uma má idéia. Que talvez tenhamos sido idiotas por avançarmos tão depressa. Portanto, examinemos tudo demorada e cuidadosamente. Mesmo que você não esteja a pensar assim, a presidente está. Mas, se não o fizermos em breve, receio que nunca o façamos. E há ainda outra coisa: não creio que o convite fique em aberto para sempre.
—:É curioso que tenha dito isso. Era precisamente do que Valerian, Drumlin e eu própria estávamos a falar antes do acidente… da sabotagem — corrigiu. — Queira continuar.
— Sabe, os religiosos — a maior parte deles — pensam realmente que este planeta é uma experiência. É, nisso que as suas crenças se resumem. Um deus qualquer está sempre a consertar e a esquadrinhar, a envolver-se com mulheres de negociantes, a dar tábuas de leis em montanhas, a ordenar-nos que mutilemos os nossos filhos, a informar as pessoas das palavras que podem dizer e das que não podem dizer, a fazer com que as pessoas se sintam culpadas por se divertirem e coisas assim. Por que não deixam os deuses as coisas em paz? Toda esta intervenção denuncia incompetência. Se Deus não queria que a mulher de Lot olhasse para trás, por que motivo não a fez obediente para que ela fizesse o que o marido lhe dissesse? Se não tivesse feito Lot uma parva tão grande, talvez ela Lhe tivesse prestado mais atenção. Se Deus é onipotente e onisciente, por que não começou por fazer o universo de modo que ele saísse da maneira que Ele queria? Por que está constantemente a reparar e a protestar? Não, há uma coisa que a Bíblia torna evidente: o Deus bíblico é um construtor de má qualidade. Não presta na concepção e não presta na execução. Estaria desempregado se houvesse alguma concorrência.
«É por isso que não acredito que sejamos uma experiência. Poderia haver uma quantidade de planetas experimentais no Universo, lugares onde deuses-aprendizes fossem pôr à prova as suas aptidões. Que pena Rankin e Joss não terem nascido num desses planetas! Mas neste planeta — apontou de novo para a janela — não há nenhuma micro-intervenção. Os deuses não passam por cá para consertar as coisas quando nós fazemos borrada. Olhe para a história humana e verá que é evidente que temos estado entregues a nós mesmos.
— Até agora — disse ela. — Deus ex machina? É isso que pensa? Acha que os deuses tiveram finalmente pena de nós e nos mandaram a Máquina?
— É mais Machina ex deo, ou lá como se diz em bom latim. Não, não penso que nós sejamos a experiência. Penso que somos o controle, o planeta pelo qual ninguém se interessou, o lugar onde ninguém interveio. Um mundo de calibração que se deteriorou. É isso que acontece se eles não intervêm. A Terra é uma lição objetiva para os deuses aprendizes. «Se vocês se esforçarem realmente», dizem-lhes, «farão qualquer coisa como a Terra.» Mas, claro, seria um desperdício deixar destruir um mundo perfeitamente bom. Por isso, nos dão uma espreitadela de vez em quando, pelo sim, pelo não. Talvez nessas alturas tragam consigo os deuses que se esforçaram. A última vez que deram uma vista de olhos andávamos nós a brincar nas savanas, a tentar correr mais depressa do que os antílopes. «Muito bem, está porreiro», disseram. «Estes tipos não nos vão causar problemas nenhuns. Dêem-lhes outra espreitadela daqui a mais dez milhões de anos. Mas, para jogarmos pelo seguro, vigiem-nos pelas radiofreqüências.»