Com uma fascinação crescente, Xi organizou escavações maciças em Xian. Pouco a pouco convenceu-se de que o próprio Qin ali jazia igualmente à espera, perfeitamente conservado, nalgum grande túmulo próximo do exército de terracota exumado. Nas proximidades, segundo antigos registros, estava também enterrada, debaixo de um grande monte, uma maqueta pormenorizada da nação chinesa no ano de 210 a.C., com todos os templos e pagodes meticulosamente representados. Os rios, dizia-se, eram feitos de mercúrio, com a barca miniatural do imperador a navegar perpetuamente no seu domínio subterrâneo. Quando se descobriu que o solo de Xian estava contaminado de mercúrio, a excitação de Xi aumentou.
Xi desenterrara um relato contemporâneo que descrevia uma grande cúpula que o imperador encomendara para cobrir aquele reino em miniatura, chamado como o verdadeiro Reino Celeste. Como o chinês escrito praticamente não mudara em dois mil e duzentos anos, ele conseguira ler pessoalmente o relato, sem a intervenção de um perito em lingüística. Um cronista do tempo de Qin falara diretamente a Xi. Eram muitas as noites em que este adormecia a tentar visionar a grande Via Láctea que dividia a abóbada do céu no túmulo coberto por uma cúpula do grande imperador, e a noite incendiada de cometas que tinham aparecido aquando do seu passamento, para honrar a sua memória.
A procura do túmulo de Qin e da sua maquete do universo tinha ocupado Xi na última década. Ainda não os encontrara, mas a sua busca prendera a imaginação da China. Dizia-se a seu respeito: «Há mil milhões de pessoas na China, mas há só um Xi.» Numa nação que ia afrouxando lentamente as repressões impostas ao individualismo, considerava-se que ele exercia uma influência construtiva.
Qin, era evidente, vivera obcecado pela imortalidade. O homem que dera o seu nome à nação mais populosa da Terra, o homem que construíra a que fora então a maior estrutura do planeta, receava, podia-se vaticinar com segurança, vir a ser esquecido. Por isso, mandou erigir mais estruturas monumentais; preservou, ou reproduziu para os séculos vindouros, os corpos e os rostos dos seus cortesãos; construiu o seu próprio e ainda esquivo túmulo e a maqueta do mundo, e enviou repetidas expedições ao mar Oriental em busca do elixir da vida. Queixava-se amargamente da despesa quando dava início a cada nova viagem. Numa dessas missões participaram dezenas de juncos capazes de navegar no oceano e uma tripulação de três mil jovens, homens e mulheres. Nunca voltaram e o seu destino é desconhecido. A água da imortalidade era inalcançável.
Exatamente cinqüenta anos depois, a cultura aquática do arroz e a metalurgia do ferro apareceram subitamente no Japão, progressos que modificaram profundamente a economia japonesa e criaram uma classe de aristocratas guerreiros. Xi alegava que o nome nipônico escolhido para o Japão refletia claramente a origem chinesa da cultura japonesa: a Terra do Sol Nascente. Onde teria de se estar, perguntava Xi, para o Sol nascer sobre o Japão? Conseqüentemente, o próprio nome do jornal diário que Ellie acabava de visitar era, sugeria Xi, um lembrete da vida e do tempo do imperador Qin. Ellie pensou que, por contraste, Qin transformava Alexandre o Grande num fanfarrão de pátio de recreio escolar. Bem, quase.
Se Qin vivera obcecado pela imortalidade, Xi vivia obcecado por Qin. Ellie falou-lhe da sua visita a Sol Hadden em órbita terrestre e concordaram que, se o imperador Qin estivesse vivo nos últimos anos do século XX, seria em órbita terrestre que se encontraria. Ela apresentou Xi a Hadden por videofone e depois deixou-os falar a sós. O excelente inglês de Xi fora apurado durante a sua recente participação na transferência da colônia da coroa britânica de Hong-Kong para a República Popular da China. Ainda estavam a falar quando Methuselah se pôs, e tiveram de continuar através da rede de satélites de comunicações em órbita geossíncrona. Deviam ter-se entendido bem. Pouco depois, Hadden pediu que a ativação da Máquina fosse sincronizada de modo que ele estivesse por cima nesse momento. Queria Hokkaido na mira do seu telescópio, disse, quando a ocasião chegasse.
— Os budistas acreditam ou não em Deus? — perguntou Ellie quando iam a caminho para jantar com o abade.
— A posição deles parece ser — respondeu Valerian secamente — que o seu Deus é tão grande que nem sequer precisa de existir.
Enquanto atravessavam velozmente a região, falaram a respeito de Utsumi, o abade do mosteiro budista zen mais famoso do Japão. Alguns anos atrás, em cerimônias comemorativas do 50º aniversário da destruição de Hiroxima, Utsumi proferira um discurso que atraíra as atenções mundiais. Estava bem relacionado na vida política japonesa e agia como uma espécie de conselheiro espiritual do partido político dirigente, embora passasse a maior parte do seu tempo em atividades monásticas e religiosas.
— O pai dele também foi abade de um mosteiro budista — lembrou Sukhavati.
Ellie arqueou as sobrancelhas.
— Não fique tão surpreendida. O casamento era-lhes permitido, como ao clero ortodoxo russo. Não é verdade, Vaygay?
— Isso foi antes do meu tempo — respondeu ele, um pouco distraído.
O restaurante erguia-se num bosque de bambus e chamava-se Ungetsu: a Lua Enevoada — e, efetivamente, a Lua estava enevoada no céu do princípio da noite. Os seus anfitriões japoneses tinham tratado o necessário para que não houvesse outros comensais. Ellie e os companheiros descalçaram os sapatos e, em palmilhas de meias, entraram numa pequena sala de jantar de onde se desfrutava uma paisagem de troncos de bambu.
O abade tinha a cabeça rapada e envergava uma vestimenta preta e prateada. Saudou-os num inglês coloquial perfeito, e o seu chinês, segundo Xi disse mais tarde a Ellie, também era aceitável. O ambiente era repousante, a conversa descontraída. Cada prato constituía uma pequena obra de arte, uma jóia comestível. Ela compreendeu de que maneira a nouvelle cuisine tinha as suas origens na tradição culinária japonesa. Se, em vez disso, as iguarias fossem trazidas apenas para serem admiradas e nunca para serem comidas, teria ficado igualmente satisfeita. Ver e comer, simultaneamente, era um antegosto do Paraíso.
Ellie estava sentada defronte do abade e ao lado de Lunacharsky. Outros fizeram perguntas acerca da espécie — ou, pelo menos, do reino — deste ou daquele acepipe. Entre o sushi e as nozes de gingkon, a conversa desviou-se, por assim dizer, para a missão.
— Mas por que comunicamos? — perguntou o abade.
— Para trocar informação — respondeu Lunacharsky, aparentemente a prestar toda a atenção aos seus recalcitrantes pauzinhos.
— Mas por que desejamos trocar informação?
— Porque nos alimentamos de informação. A informação é necessária à nossa sobrevivência. Sem informação morremos.
Lunacharsky estava atento a uma noz de gingkon que escorregava dos pauzinhos todas as vezes que tentava levá-la à boca. Baixou a cabeça para se encontrar com os pauzinhos a meio caminho.
— Acredito — continuou o abade — que comunicamos levados pelo amor ou pela compaixão. — Pegou com os dedos numa das suas nozes de gingkon e meteu-a naturalmente na boca.
— Pensa então — perguntou Ellie — que a Máquina é um instrumento de compaixão? Pensa que não existe risco nenhum?
— Posso comunicar com uma flor — prosseguiu ele, como se lhe respondesse. — Posso falar com uma pedra. Não teríeis dificuldade nenhuma em compreender os seres — é esta a palavra apropriada? — de qualquer outro mundo.
— Sou perfeitamente capaz de acreditar que a pedra comunique consigo — redargüiu Lunacharsky, a mastigar a noz, depois de seguir o exemplo do abade. — Mas admira-me que possa comunicar com a pedra. Como nos convenceria de que é capaz de comunicar com uma pedra? O mundo está cheio de erro. Como podemos saber que não está a enganar-se a si mesmo?