— Ah; ceticismo científico! — O rosto do abade iluminou-se num sorriso que Ellie achou absolutamente cativante; era inocente, quase infantil. — Para comunicar com uma pedra tem de se tornar muito menos… preocupado. Não deve pensar tanto, falar tanto. Quando digo que comunico com uma pedra, não estou a falar de palavras. Os cristãos dizem: «Ao princípio era o Verbo.» Mas eu estou a falar de uma comunicação muito mais anterior, muito mais fundamental do que essa.
— É só o Evangelho de S. João que fala do Verbo — observou Ellie… com certo pedantismo, pensou, assim que as palavras lhe saíram da boca. — Os evangelhos sinópticos anteriores não dizem nada a esse respeito. Trata-se, na realidade, de um acréscimo oriundo da filosofia grega. A que gênero de comunicação pré-verbal se refere?
— A sua pergunta é feita de palavras. Pede-me que utilize palavras para descrever o que não tem nada a ver com palavras. Deixe-me ver… Há uma estória japonesa chamada O Sonho das Formigas. Passa-se no Reino das Formigas. É uma estória comprida e não lha vou contar agora. Mas o que pretende dizer é o seguinte: para compreender a linguagem das formigas, uma pessoa tem de se tornar numa formiga.
— Linguagem das formigas é, na realidade, uma linguagem química — disse Lunacharsky, a olhar vivamente para o abade. — Elas depositam vestígios moleculares específicos para indicar o caminho que tomaram para encontrar comida. Para compreender a linguagem das formigas preciso de um cromatógrafo de gases ou de um espectômetro de massa. Não preciso de me tornar uma formiga.
— Talvez essa seja a única maneira que conheceis de vos tornardes uma formiga — comentou o abade, sem olhar para ninguém em particular. — Dizei-me, porque estudais os sinais deixados pelas formigas?
— Bem — respondeu Ellie —, creio que um entomólogo diria que é para compreender as formigas e a sociedade das formigas. Os cientistas sentem prazer em compreender.
— Essa é apenas outra maneira de dizer que eles amam as formigas.
Ellie reprimiu um pequeno calafrio.
— Sim, mas os que financiam os entomólogos dizem uma coisa diferente. Dizem que é para controlar o comportamento das formigas, para as fazer sair de uma casa que infestaram, por exemplo, ou para compreender a biologia do solo para a agricultura. Poderia fornecer uma alternativa aos pesticidas. Suponho que se pode dizer que há nisso algum amor pelas formigas — conjeturou Ellie.
— Mas é também no nosso interesse próprio — interveio Lunacharsky. — Os pesticidas são igualmente venenosos para nós.
— Por que estão a falar de pesticidas no meio de um jantar como este? — disparou Sukhavati, do outro lado da mesa.
— Sonharemos o sonho das formigas noutra ocasião — disse o abade docemente a Ellie, e repetiu aquele sorriso perfeito, imperturbado.
Calçados de novo com a ajuda de calçadeiras com um metro de comprimento, dirigiram-se para a sua pequena frota de automóveis, enquanto as criadas que tinham servido o jantar e a proprietária sorriam e se inclinavam cerimoniosamente. Ellie e Xi observaram o abade a entrar para uma limusine com alguns dos seus anfitriões japoneses.
— Perguntei-lhe se, visto poder falar com uma pedra, podia comunicar com os mortos — disse Xi.
— E que respondeu ele?
— Disse que com os mortos era fácil. As suas dificuldades eram com os vivos.
CAPÍTULO XVIII
Superunificação
Um mar alteroso!
Estendida por cima de Sado,
A Via Láctea.
Talvez tivessem escolhido Hokkaido por causa da sua fama de divergência. O clima exigia técnicas de construção que eram extremamente inconvencionais pelos padrões japoneses e a ilha era também a pátria dos Ainos, o peludo povo aborígine ainda desprezado por muitos japoneses. Os Invernos eram tão rigorosos como os de Minesota ou de Wyoming. Hokkaido apresentava certas dificuldades logísticas, mas encontrava-se, por assim dizer, fora do caminho no caso de uma catástrofe, visto estar fisicamente separada das outras ilhas japonesas. No entanto, não estava de modo nenhum isolada, agora que ficara concluído o túnel de cinqüenta e um quilômetros que a ligava a Honshu — o qual era o túnel submarino mais comprido do mundo.
Hokkaido parecera suficientemente segura para o teste de componentes individuais, mas fora manifestada preocupação quanto à montagem propriamente dita da Máquina na ilha. Aquela era, como as montanhas que cercavam as instalações testemunhavam eloqüentemente, uma região que ia emergindo de vulcanismo recente. Havia uma montanha que crescia à média de um metro por dia. Até os Soviéticos — as ilhas Sacalinas ficavam apenas a quarenta e três quilômetros de distância, do outro lado de Soya, ou estreito de La Pérouse — tinham manifestado alguns receios a esse respeito. Mas perdido por cem, perdido por mil. Por tudo quanto sabiam, até uma Máquina construída do lado mais distante da Lua poderia fazer a Terra ir pelos ares quando ativada. A decisão de construir a Máquina era o fato-chave na avaliação dos perigos; onde a coisa seria construída era uma consideração absolutamente secundária.
Em princípios de Junho, a Máquina estava mais uma vez a tomar forma. Na América era ainda motivo de controvérsia política e sectária; e, aparentemente, havia problemas técnicos graves com a Máquina soviética. Mas, aí — numas instalações muito mais modestas do que as de Wyoming —, os tubos de érbio tinham sido montados e o dodecaedro completado, embora não tivesse sido feita nenhuma comunicação pública a esse respeito. Os antigos pitagóricos, que tinham sido quem primeiro descobrira o dodecaedro, haviam decidido ser a sua própria existência um segredo, sendo rigorosas as penalidades aplicadas a quem o desvendasse. Por isso, talvez fosse lógico que este dodecaedro do tamanho de uma casa, a metade do mundo de distância e dois mil e seiscentos anos depois, fosse conhecido apenas por poucos.
O diretor do projeto japonês decretara alguns dias de repouso para toda a gente. A cidade mais próxima de tamanho razoável era Obihiro, um bonito lugar na confluência dos rios Yubetsu e Tokachi. Alguns foram esquiar em faixas de neve não derretida do monte Asahi; outros represaram regatos termais com uma parede de rocha improvisada, para se aquecerem com a decomposição de elementos radiativos engendrados pela explosão de alguma supernova verificada milhares de milhões de anos antes. Um pequeno número de elementos do Projeto foi às corridas de Bamba, nas quais possantes cavalos de tiro puxavam pesados trenós lastrados sobre faixas paralelas de terra de cultivo. Mas, para uma celebração a sério, os Cinco foram de helicóptero a Sapporo, a maior cidade de Hokkaido, situada a menos de duzentos quilômetros de distância.
Por um acaso auspicioso, chegaram a tempo de assistir ao Festival de Tanabata. O risco de segurança era considerado pequeno, pois o essencial para o êxito do projeto era a própria Máquina, muito mais do que aquelas cinco pessoas. Não tinham sido submetidas a nenhum treino especial, além do estudo minucioso da Mensagem, da Máquina e dos instrumentos miniaturizados que levariam com elas. Num mundo racional seriam fáceis de substituir, pensava Ellie, embora os impedimentos políticos para a seleção de cinco seres humanos aceitáveis por todos os membros do Consórcio Mundial da Máquina tivessem sido consideráveis.
Xi e Vaygay tinham, disseram, «assuntos inacabados» a debater, os quais só podiam ser acabados com a ajuda de saquê. Por isso, ela, Devi Sukhavati e Abonneba Eda deram consigo, guiados pelos seus anfitriões japoneses, a percorrer uma das ruas transversais da Alameda Odori, passando por esmerados arranjos de serpentinas e lanternas, quadros de folhas, tartarugas e pavões e engraçadas caricaturas representando um jovem e uma jovem em trajos medievais. Entre dois edifícios estava esticado um grande bocado de lona de vela, na qual tinha sido pintado um pavão emproado.