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Os comentadores japoneses falavam de Machindo, o Caminho da Máquina — a crescente perspectiva comum da Terra como um planeta e de todos os humanos compartilhando um direito igual no seu futuro. Algo parecido fora proclamado nalgumas religiões, mas de modo nenhum em todas. Praticantes desses credos ressentiam-se com a introspecção que estava a ser atribuída a uma Máquina alienígena. Se a aceitação de uma nova introspecção do nosso lugar no universo representa uma conversão religiosa, pensava Ellie, então a Terra estava a ser varrida por uma revolução teológica. Até os quiliastas americanos e europeus tinham sido influenciados pelo Machindo. Mas, se a Máquina não funcionasse e a Mensagem parasse, quanto tempo, perguntava-se, duraria a introspecção? Mesmo que tivéssemos cometido algum erro de interpretação ou construção, considerou, mesmo que nunca viéssemos a compreender mais nada a respeito dos Veganianos, a Mensagem demonstrava, sem qualquer sombra de dúvida, que havia outros seres no universo e que eles eram muito mais avançados do que nós. Isso, parecia-lhe, ajudaria a manter o planeta unificado durante uns tempos.

Perguntou a Eda se alguma vez tivera uma experiência religiosa transformadora.

— Tive — respondeu ele.

— Quando? — Às vezes era preciso instigá-lo a falar.

— Quando travei conhecimento com Euclides. E também quando compreendi pela primeira vez a gravitação newtoniana. E as equações de Maxwell e a relatividade geral. E durante o meu trabalho sobre a superunificação. Tive a sorte de ter muitas experiências religiosas.

— Não — protestou ela. — Sabe a que me refiro. Independentemente da ciência.

— Nunca — respondeu de imediato. — Nunca independentemente da ciência.

Falou-lhe um pouco da religião em que nascera. Não se considerava preso por todos os seus dogmas, disse, mas sentia-se bem nela. Pensava que poderia fazer muito bem. Era uma seita relativamente nova — contemporânea dos Cientistas Cristãos ou das Testemunhas de Jeová —, fundada por Mirza Ghulam Ahmad, no Punjabe. Aparentemente, Devi sabia alguma coisa acerca de Ahmadiyah como seita proselitizadora. Fora particularmente bem sucedida na África Ocidental. As origens da religião estavam envoltas em escatologia. Ahmad afirmara ser o Mahdi, a figura que os Muçulmanos esperam que apareça no fim do mundo. Também afirmara ser Cristo que voltava, uma encarnação de Krishna é um buruz, ou reaparecimento de Maomet. Entretanto, quiliastas cristãos tinham contaminado a Ahmadiyah e o reaparecimento de Ahmad estava iminente, segundo alguns dos fiéis. O ano de 2008, centenário da morte de Ahmad, estava a ser considerado uma data provável para o seu Regresso Final como Mahdi. O fervor messiânico global, em ora titubeante, parecia estar, de modo geral, a alastrar ainda mais, e Ellie confessou a sua preocupação com as predileções irracionais da espécie humana.

— Num Festival do Amor — respondeu-lhe Devi — não devia ser tão pessimista.

Em Sapporo houvera uma abundante queda de neve e o costume local de fazer esculturas de neve e gelo de animais e figuras mitológicas fora atualizado: tinha sido meticulosamente esculpido um imenso dodecaedro, que foi mostrado regularmente, como uma espécie de ícone, no telejornal da noite. Depois de dias quentes, impróprios da estação, viam-se os escultores do gelo a acamar, a desbastar e a esmagar, para reparar os estragos.

Que a ativação da Máquina pudesse, de uma maneira ou de outra, desencadear um apocalipse global, tornara-se um receio agora mencionado com freqüência. O Projeto da Máquina respondia ao público com garantias confiantes, aos governos com afirmações serenas, e ia dando ordens para manter secreta a data da ativação. Alguns cientistas propunham que a ativação se fizesse em 17 de Novembro, num anoitecer em que se previa a mais espetacular chuva de meteoros do século. Era um simbolismo agradável, diziam. Mas Valerian argumentava que, se a Máquina deixasse a Terra nessa altura, ter de voar através de uma nuvem de lixo cometário constituiria um risco adicional e desnecessário. Por isso, a ativação sofreu um adiamento de algumas semanas, até ao fim do último mês de mil novecentos e qualquer coisa. Embora esta data não fosse literalmente a viragem do Milênio, mas sim um ano antes, foram planeadas celebrações em escala grandiosa por aqueles que não estavam para se dar ao trabalho de compreender as convenções calendariais, ou que desejavam celebrar a vinda do Terceiro Milênio em dois Dezembros consecutivos.

Apesar de os extraterrestres não poderem ter sabido quanto pesaria cada membro da tripulação, especificavam com pormenores minuciosos a massa de cada componente e a massa total permissível. Sobrava muito pouco para equipamento de concepção terrestre. Tal fato servira alguns anos atrás como argumento para uma tripulação constituída exclusivamente por mulheres, para que a margem destinada a equipamento pudesse ser aumentada; mas a sugestão fora rejeitada como ridícula.

Não havia lugar para fatos espaciais. Tinham de se contentar com a esperança de que os Veganianos se tivessem lembrado de que os humanos tinham propensão para respirar oxigênio. Virtualmente sem nenhum equipamento próprio, com as suas diferenças culturais e o desconhecimento do destino, era evidente que a missão poderia acarretar grande risco. A imprensa mundial discutia esse fato com freqüência; os Cinco, nunca.

Insistia-se com a tripulação para que levasse uma variedade de máquinas fotográficas, espectrômetros e supercomutadores supercondutores, tudo miniaturizado, além de bibliotecas microfilmadas. Tinha lógica e não tinha. Não havia a bordo da Máquina instalações para dormir, cozinhar ou sanitárias. Eles levariam apenas um mínimo de provisões, parte delas atafulhadas nas algibeiras dos fatos-macaco. Devi levaria um estojo médico rudimentar. Na parte que lhe tocava, Ellie pensava levar apenas uma escova de dentes e uma muda de roupa interior. Se podem conduzir-me a Vega numa cadeira, raciocinava, provavelmente poderão fornecer também os acessórios necessários. Se precisasse de uma máquina fotográfica, disse aos funcionários do Projeto, limitar-se-ia a pedi-la aos Veganianos.

Havia um grupo de opinião, aparentemente sério, segundo o qual os Cinco deveriam ir nus; visto que não tinha sido especificado nenhum vestuário, não deveria ser incluído nenhum, já que poderia perturbar de qualquer modo o funcionamento da Máquina. Ellie e Devi, entre muitos outros, sentiram-se divertidas e observaram que não existia nenhuma prescrição contra o uso de vestuário, coisa que era um costume humano popular evidente na transmissão dos Jogos Olímpicos. Os Veganianos sabiam que nós usávamos roupa, protestaram Xi e Vaygay. As únicas restrições diziam respeito à massa total. Deveríamos também, perguntaram, tirar as próteses dentárias e deixar os óculos em terra? O seu ponto de vista colheu, em parte devido à relutância de muitas nações em estarem associadas a um projeto que culminasse tão indecorosamente. Mas a discussão originou um certo humor malicioso entre a imprensa, os técnicos e os Cinco.

— Por essa ordem de idéias — disse Lunacharsky —, não está realmente especificado que devem ir seres humanos. Talvez eles achassem cinco chimpanzés igualmente aceitáveis.

Até uma simples fotografia bidimensional de uma máquina alienígena poderia ter um valor incalculável, disseram a Ellie. E imaginasse uma fotografia dos próprios alienígenas. Queria fazer o favor de reconsiderar e levar uma máquina fotográfica? Der Heer, que naquela altura se encontrava em Hokkaido com uma grande delegação americana, pediu-lhe que levasse as coisas a sério. As paradas eram excessivamente altas para… Mas ela lançou-lhe um olhar tão fulminante que ele não completou a frase. Na sua mente, Ellie sabia o que ele ia dizer: para comportamento infantil. Surpreendentemente, Der Heer agia como se tivesse sido ele a parte ofendida no relacionamento de ambos. Contou tudo a Devi, que não se mostrou inteiramente do seu lado. Der Heer, disse, era «muito querido». Eventualmente, Ellie acedeu a levar uma videocâmara ultraminiaturizada.