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No manifesto que o projeto exigia, sob a rubrica «Objetos pessoais,» escreveu: «fronde de palmeira, 0,811 k.»

Der Heer foi encarregado de a chamar à razão.

— Sabes que há um esplêndido sistema de captação de imagens de infravermelho que podes levar e que pesa apenas dois terços de um quilograma. Por que hás-de querer levar o ramo de uma árvore?

— Uma fronde. É uma fronde de palmeira. Sei que cresceste em Nova Iorque, mas deves saber o que é uma palmeira. Vem tudo no Ivanhoe. Não o leste no liceu? No tempo das cruzadas, peregrinos que faziam a longa viagem à Terra Santa traziam no regresso a fronde de uma palmeira, para mostrar que lá tinham realmente estado. Destinava-se a manter o seu moral elevado. Não me importa o muito avançados que possam ser. A Terra é a minha Terra Santa. Levar-lhes-ei uma fronde para lhes mostrar de onde vim.

Der Heer limitou-se a abanar a cabeça. Mas, quando ela explicou as suas razões a Vaygay, este disse: «Compreendo isso muito bem.»

Ellie recordou-se das preocupações de Vaygay e da estória que ele lhe contara em Paris a respeito do droshky enviado à aldeia pobre. Mas essa não era de modo nenhum a preocupação dela. Compreendeu que a fronde de palmeira tinha outro propósito. Precisava de qualquer coisa que lhe recordasse a Terra. Tinha medo de ser tentada a não regressar.

No dia anterior àquele em que a Máquina deveria ser ativada recebeu um pequeno embrulho que fora entregue pessoalmente no estaleiro de construção em Wyoming e reenviado para ali por mensageiro. Não tinha nenhum endereço de remetente nem, no interior, nenhum bilhete ou qualquer assinatura. O embrulhinho continha um medalhão de ouro suspenso de um fio. Concebivelmente, podia ser usado como um pêndulo. Ambos os lados do medalhão tinham uma inscrição gravada, pequena, mas legível. De um lado, lia-se:

Hera, majestosa rainha De vestes douradas, Dominava Argos, Cujos olhares se estendiam Através do mundo.

No anverso leu:

Esta é a resposta dos defensores de Esparta ao comandante do exército romano: «Se sois um deus, não molestareis aqueles que nunca vos fizeram mal. Se sois um homem, avançai… e encontrareis homens iguais a vós». E mulheres.

Ela adivinhou quem lho enviara

No dia seguinte, Dia da Ativação, fizeram uma sondagem de opinião do pessoal superior acerca do que aconteceria. A maioria pensava que não aconteceria nada, que a Máquina não funcionaria. Um número mais pequeno estava convencido de que os Cinco iriam, fosse como fosse, parar muito rapidamente ao sistema de Vega, não obstante a relatividade contrariar tal hipótese. Outros aventaram, variadamente, que a Máquina era um veículo para explorar o sistema solar, a partida mais dispendiosa da história, uma sala de aula, uma máquina do tempo, ou uma cabina telefônica galáctica. Um cientista escreveu: «Cinco substitutos muito feios, com escamas verdes e dentes aguçados, materializar-se-ão muito lentamente nas cadeiras.» Esta era, de todas as respostas, a que mais se aproximava do cenário do Cavalo de Tróia. Outro — mas apenas outro — escreveu: «Máquina do Fim do Mundo.»

Houve uma espécie de cerimônia. Fizeram-se discursos, serviu-se de comer e de beber. As pessoas abraçaram-se umas às outras. Algumas choraram serenamente. Só um punhado se mostrou francamente céptico. Pressentia-se que, se acontecesse alguma coisa na Ativação, a reação seria estrondosa. Havia uma sugestão de alegria em muitos rostos.

Ellie conseguiu telefonar para o lar e dizer adeus à mãe. Disse a palavra para o bocal do telefone em Hokkaido e o som idêntico foi reproduzido no Wisconsym. Mas não houve resposta. A mãe, disse-lhe a enfermeira, estava a recuperar algumas funções motoras do lado atingido. Em breve talvez conseguisse dizer algumas palavras. Quando o telefonema terminou, Ellie estava a sentir-se quase despreocupada.

Os técnicos japoneses usavam hachimai, faixas de pano à volta da cabeça, tradicionalmente postas quando se preparavam para um esforço mental, físico ou espiritual, e em especial para o combate. Estampada na faixa, uma reprodução convencional do mapa da Terra. Nenhuma nação ocupava uma posição predominante.

Não houvera grande coisa no campo de recomendações nacionais. Tanto quanto ela sabia, ninguém fora incitado a reunir-se à volta da bandeira. Os governantes nacionais enviaram breves declarações em vídeotape. Ellie achou a da presidente particularmente interessante:

— Isto não são instruções nem uma despedida. É apenas um até breve. Cada um de vós faz esta viagem em representação de mil milhões de almas. Representais todos os povos do planeta Terra. Se fordes transportados a qualquer outro lado, então vede por todos nós — não apenas a ciência, mas tudo quanto consigais aprender. Representais toda a espécie humana, passada, presente e futura. Aconteça o que acontecer, o vosso lugar na história está assegurado. Sois heróis do nosso planeta. Falai por todos nós. Sede judiciosos. E… voltai.

Poucas horas depois entraram pela primeira vez na Máquina — um de cada vez, através de uma pequena câmara de vácuo. Acenderam-se luzes interiores ocultas, de muito baixa potência. Mesmo depois de a Máquina ter sido concluída e de ter passado todos os testes prescritos, haviam receado que os Cinco ocupassem os seus lugares prematuramente. Alguns membros do pessoal do projeto temiam que o simples fato de eles se sentarem pudesse induzir a Máquina a funcionar, mesmo com os benzels imobilizados. Mas eles ali estavam, e não estava a acontecer nada de extraordinário, por enquanto. Aquele era o primeiro momento em que ela conseguia recostar-se, um pouco hesitante, sem dúvida, no plástico moldado e acolchoado. Teria preferido chintz, revestimentos de chintz teriam sido perfeitos para aquelas cadeiras. Mas até isso, descobrira, era uma questão de orgulho nacional. O plástico parecia mais moderno, mais científico, mais sério.

Conhecedores dos hábitos de fumar descuidado de Vaygay, tinham decidido que não poderiam entrar na Máquina nenhuns cigarros. Lunacharsky praguejara fluentemente em dez línguas. Chegada a altura entrou depois dos outros, após ter acabado de fumar o seu último Lucky Strike. Ofegou apenas um nadinha quando se sentou ao lado dela. Não havia cintos de segurança no desenho extraído da Mensagem e, por isso, não os havia também na Máquina. No entanto, alguns membros do pessoal do projeto tinham considerado temerário omiti-los.

A Máquina vai a algum lado, pensou Ellie. Era um meio de transporte, uma passagem para outro lado… ou outro quando. Era um comboio de mercadorias a rodar e a apitar na noite. Se uma pessoa entrava nele, podia levá-la das sufocantes cidades de província da sua infância para as grandes cidades de cristal. Era descoberta e fuga e um fim da solidão. Todos os atrasos logísticos na construção e todas as discussões sobre a interpretação correta de algum subcodicilo das instruções a tinham mergulhado em desespero. Não era glória que procurava… Não era principalmente isso, não era muito isso… era, ao invés, uma espécie de libertação.

Era uma maravilhómana. Na sua mente, era um homem de uma tribo montanhesa parado, de queixo descaído, embasbacado, diante da verdadeira Porta de Ishtar, da antiga Babilônia; Dorothy a captar os primeiros vislumbres dos pináculos abobadados da Cidade Esmeralda de Oz; um rapazinho dos confins mais escuros de Brooklyn transportado bruscamente para o Corredor das Nações da Feira Mundial de 1939, com Trylon e Perisphere acenando ao longe; era Pocahontas navegando estuário do Tamisa acima, com Londres estendida à sua frente de horizonte a horizonte.