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Planetas. Onde estavam os planetas? Percorreu o plano anelar com a objetiva de grande profundidade de foco em busca de planetas nele embebidos — ou, pelo menos, da «terra» dos seres que tinham emitido a Mensagem. Em cada brecha nos anéis procurava um mundo-pastor cuja influência gravitacional tivesse limpado as alamedas de poeira. Mas não conseguiu encontrar nada.

— Não encontra nenhuns planetas? — perguntou Xi.

— Nada. Há alguns grandes cometas perto. Consigo ver-lhes a cauda. Mas nada que se pareça com um planeta. Deve haver milhares de anéis separados. Tanto quanto me parece, são constituídos por resíduos. Tenho a impressão de que o buraco negro abriu uma grande brecha nos anéis. É aí que estamos agora, a orbitar lentamente Vega. O sistema é muito jovem — apenas alguns centos de milhões de anos — e vários astrônomos foram de opinião de que era demasiado cedo para haver planetas. Mas, nesse caso, de onde veio a transmissão?

— Talvez isto não seja Vega — sugeriu Vaygay. — Talvez o nosso sinal de rádio venha de Vega, mas o túnel conduza a outro sistema estelar.

— Talvez, mas não deixa de ser uma coincidência divertida que a sua outra estrela tenha aproximadamente a mesma temperatura cromática que Vega — repare, vê-se que é azulada — e a mesma espécie de sistema de resíduos. É verdade que não posso conferir isso em comparação com as constelações, por causa da intensidade do brilho. Mas, mesmo assim, apostava dez contra um em como isto é Vega.

— Mas então onde estão eles? — perguntou Devi.

Xi, possuidor de uma visão aguda, estava a olhar fixamente para cima — através da matriz de organossilicato, para o exterior dos painéis pentagonais transparentes, para o céu que ficava muito acima do plano anelar. Não disse nada e Ellie seguiu o seu olhar. Havia realmente qualquer coisa ali, a brilhar ao sol e com um tamanho angular perceptível. Olhou através da objetiva de grande profundidade de foco. Tratava-se de um imenso poliedro irregular, com cada uma das faces coberta por… uma espécie de círculo? Disco? Prato? Taça?

— Qiaomu, espreite por aqui e diga-nos o que vê!

— Sim, estou a ver. Os seus correlativos… radiotelescópios. Milhares deles, parece-me, a apontar para muitas direções. Não é um mundo. É apenas um engenho.

Observaram à vez através da objetiva. Ellie dominava a impaciência para olhar de novo. A natureza fundamental de um radiotelescópio era mais ou menos especificada pela física das ondas de rádio, mas ela sentia-se decepcionada com o fato de uma civilização capaz de fazer, ou até mesmo apenas de utilizar, buracos negros para uma espécie de transporte hiper-relativístico ainda utilizar radiotelescópios de concepção reconhecível, por muito maciça que fosse a escala. Parecia-lhe atrasado para os Veganianos… carecido de imaginação. Compreendia a vantagem de colocar os telescópios em órbita polar circum-estelar, segura, exceto duas vezes em cada revolução, no tocante a colisão com os resíduos do plano anelar. Mas radiotelescópios a apontar para todo o firmamento — milhares deles — davam a sugestão de uma exploração abrangente do espaço sideral, um Argus em força. Inúmeros mundos candidatos estavam a ser observados para captação de transmissão televisiva, radar militar e talvez outras variedades mais primitivas de radiodifusão desconhecidas na Terra. Detectariam tais sinais com freqüência — perguntou-se —, ou seria a Terra o seu primeiro êxito num milhão de anos de observação? Não se vislumbrava qualquer vestígio de comissão de boas-vindas. Uma delegação vinda das províncias seria tão comum que ninguém fora sequer encarregado de estar atento à sua chegada?

Quando a objetiva voltou às suas mãos, teve grande cuidado com o enfoque, o flstop e o tempo de exposição. Queria um registro permanente, para mostrar à National Science Foundation como era a radioastronomia verdadeiramente a sério. Gostaria que houvesse uma maneira de determinar o tamanho do mundo poliédrico. Os telescópios cobriam-no como lapas numa baia. Um radiotelescópio em g zero podia ser essencialmente de qualquer tamanho. Depois de reveladas as fotografias poderia determinar o tamanho angular (talvez alguns minutos de arco), mas o tamanho linear, as dimensões reais, isso era impossível de determinar, a não ser que se soubesse a que distância se encontrava o objeto. Não obstante, ela pressentia que era imenso.

— Se não há aqui mundos — dizia Xi —, então não há Veganianos. Ninguém aqui vive. Vega é apenas uma casa da guarda, um lugar para a patrulha da fronteira aquecer as mãos.

«Aqueles radiotelescópios — acrescentou, e lançou uma olhadela para cima — são as torres de vigia da Grande Muralha. Quando se está limitado pela velocidade da luz, é difícil manter coeso um império galáctico. Ordena-se à guarnição que sufoque uma rebelião. Dez mil anos depois sabe-se o que aconteceu. Não serve. Demasiado lento. Por isso se dá autonomia aos comandantes da guarnição. Logo, adeus império. Mas aquelas — e agora apontou na direção da mancha que recuava e cobria o céu atrás deles —, aquelas são estradas imperiais. A Pérsia teve-as. Roma teve-as. A China teve-as. Conseqüentemente, não se está restrito à velocidade da luz. Com estradas pode manter-se um império coeso.

Mas Eda, absorto em pensamentos, abanava a cabeça. Preocupava-o qualquer coisa relacionada com a física.

Buraco negro, se disso se tratava realmente, podia agora ver-se a orbitar Vega numa faixa larga completamente livre de resíduos; tanto os anéis interiores como os exteriores lhe deixavam o caminho bem desimpedido. Custava a crer quanto era negro.

Enquanto registrava videopanoramas curtos do anel de resíduos à sua frente, Ellie perguntava a si mesma se, um dia, ele formaria o seu próprio sistema planetário, com as partículas colidindo, aglutinando-se, tornando-se cada vez maiores, e com a ocorrência de condensações gravitacionais até, finalmente, apenas alguns mundos grandes orbitarem a estrela. Era muito semelhante à imagem que os astrônomos tinham da origem dos planetas que circundavam o Sol havia 4,5 mil milhões de anos. Não conseguia distinguir inomogeneidades nos anéis, lugares com uma protuberância discernível onde alguns dos resíduos se tivessem aparentemente concrecionado.

O movimento do buraco negro à volta de Vega criava uma ondulação visível nas faixas de resíduos imediatamente adjacentes. O dodecaedro estava com certeza a deixar uma esteira mais modesta. Perguntou-se se aquelas perturbações gravitacionais, aquelas rarefações e condensações alastrantes, teriam algumas conseqüências a longo prazo, modificariam o padrão da subseqüente formação planetária. A ser assim, então a própria existência de algum planeta, dali a milhares de milhões de anos, poderia ser devida ao buraco negro e à Máquina… e, logo, à Mensagem, e, logo, ao Projeto Argus. Sabia que estava a sobrepessoalizar; se ela nunca tivesse vivido, qualquer outro radioastrônomo teria com certeza recebido a Mensagem, mas mais cedo, ou mais tarde. A Máquina teria sido ativada num momento diferente e o dodecaedro teria encontrado o seu caminho para ali noutra altura qualquer. Por isso, algum futuro planeta naquele sistema poderia dever-lhe a existência a ela. E, por simetria, ela impossibilitara a existência de algum outro mundo que poderia ter estado destinado a formar-se se ela nunca tivesse vivido. Era vagamente incômodo ser responsável, devido a ações inocentes, pelo destino de mundos desconhecidos.

Tentou uma fotografia panorâmica, começando dentro do dodecaedro, saindo depois para os suportes que uniam os painéis pentagonais transparentes e avançando em seguida para a brecha nos anéis de resíduos em que eles, juntamente com o buraco negro, orbitavam. Acompanhou a brecha, flanqueada por dois anéis azulados, até uma distância cada vez maior. Havia qualquer coisa um pouco singular lá em cima, uma espécie de arqueamento no anel interior adjacente.